De estatal a negócio que criou o Master: Rui Costa e Jaques Wagner estão na origem da operação vendida por R$ 15 milhões e ampliada por decretos

Atos assinados 16 dias após a privatização transformaram cartão estatal de compras em plataforma de crédito consignado; operação posteriormente se associou a Daniel Vorcaro e se tornou relevante para a expansão do Banco Master

A trajetória do Credcesta, originalmente ligado à estatal Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), reúne uma sequência de atos públicos e operações privadas que antecederam a expansão do Banco Master. Em abril de 2018, o governo da Bahia vendeu a Ebal e os direitos de operação do programa por R$ 15 milhões. Dezesseis dias depois, o então governador Rui Costa (PT) assinou dois decretos que ampliaram as funcionalidades do cartão e criaram uma margem própria para operações consignadas. Meses depois, o empresário Augusto Lima, que havia participado da operação de aquisição, aproximou-se do Banco Máxima, de Daniel Vorcaro, e o Credcesta passou a integrar a estrutura que posteriormente seria associada ao Master.

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A sequência é hoje relevante porque documentos e investigações sobre o Banco Master passaram a examinar as relações entre o grupo de Vorcaro, Augusto Lima e agentes públicos. Os atos administrativos e as operações empresariais são fatos documentados; já a existência de eventual favorecimento ilícito ou contrapartida pessoal é questão distinta e permanece no campo das investigações e das alegações das autoridades. Jaques Wagner nega ter recebido vantagens e afirma que seus esclarecimentos já foram apresentados nos autos. Rui Costa não se manifestou.

Resumo executivo

  • A Ebal, estatal responsável pela rede Cesta do Povo, foi colocada à venda em 2018 depois de duas tentativas anteriores frustradas.
  • O leilão de abril de 2018 terminou com a venda por R$ 15 milhões, enquanto o preço mínimo de uma tentativa anterior havia sido de R$ 81 milhões.
  • O pacote incluía os direitos de operação do Credcesta, então vinculado ao funcionalismo público baiano.
  • 16 dias depois da venda, Rui Costa assinou os Decretos nº 18.353 e 18.354, ampliando o produto para operações de crédito e estabelecendo uma margem própria de consignação.
  • Augusto Lima, ligado à operação do Credcesta, aproximou-se posteriormente do Banco Máxima, de Daniel Vorcaro.
  • Documentos citados pelo Poder360 indicam que a negociação com o Banco Máxima ocorreu ainda em 2018 e que Lima comunicou ao Banco Central, em dezembro daquele ano, a intenção de se tornar acionista da instituição.
  • O Credcesta tornou-se posteriormente uma importante fonte de receitas relacionadas à venda de carteiras de crédito do Master.
  • Segundo dados contábeis do banco enviados pela Receita Federal à CPI, o Master registrou R$ 1,6 bilhão em 2024 com a revenda de carteiras do Credcesta a terceiros. Entre 2022 e 2024, a comercialização dessas carteiras teria alcançado R$ 2,4 bilhões.

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Da estatal deficitária ao ativo financeiro

A origem do Credcesta está na Ebal, empresa responsável pela rede Cesta do Povo. O modelo permitia que funcionários públicos baianos adquirissem produtos e tivessem o pagamento descontado posteriormente da folha.

A privatização ocorreu durante o governo Rui Costa, depois de duas tentativas anteriores de venda que não atraíram compradores pelo preço de R$ 81 milhões. Na terceira tentativa, realizada em abril de 2018, o conjunto foi arrematado por R$ 15 milhões.

O negócio incluía os supermercados e os direitos de operação do Credcesta.

A diferença entre as tentativas de venda é um dos pontos centrais: o ativo que não havia encontrado comprador pelo preço anterior acabou vendido por R$ 15 milhões, e somente depois da privatização foram editados atos que ampliaram significativamente as possibilidades financeiras do Credcesta.

O que mudou 16 dias depois

Em 27 de abril de 2018, Rui Costa assinou os Decretos nº 18.353 e 18.354.

O primeiro permitiu ao operador do Credcesta diversificar suas funcionalidades, inclusive para serviços creditícios e financeiros. O segundo incluiu o programa no sistema de consignação em folha e estabeleceu uma margem própria de até 30% da remuneração líquida.

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Na prática, o Credcesta deixou de ser apenas um mecanismo associado à compra de alimentos e passou a permitir operações de crédito consignado e saques em dinheiro.

Esse detalhe é fundamental para entender a evolução posterior do negócio: a operação passou a ter acesso a uma base formada por servidores públicos estaduais, com desconto das parcelas diretamente na folha.

As taxas praticadas pelo Credcesta chegaram perto de 5% ao mês no período analisado. A reportagem compara esse percentual com taxas médias de crédito consignado para servidores públicos calculadas pelo Banco Central, que estavam na faixa de 1,37% a 1,59% ao mês naquele período.

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A ponte entre Augusto Lima e Daniel Vorcaro

A cronologia empresarial é o ponto que conecta o Credcesta à história posterior do Banco Master.

Após a aquisição, Augusto Lima passou a buscar capital para ampliar a operação. Segundo documentos citados pelo Poder360, ele chegou a procurar o BMG e, posteriormente, aproximou-se do Banco Máxima, instituição controlada por Daniel Vorcaro.

Um documento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), segundo a reportagem, registra negociações entre Lima e o Banco Máxima ainda em setembro de 2018.

Em 28 de dezembro de 2018, Lima comunicou ao Banco Central sua intenção de se tornar acionista da instituição de Vorcaro. O Credcesta, entretanto, já aparecia operando no banco antes dessa formalização, conforme documento contábil citado na reportagem.

A partir daí, o produto deixou de ser apenas um negócio regional associado ao funcionalismo baiano e passou a integrar uma estrutura financeira muito maior.

MAIS: Credcesta: como decretos de Rui Costa e articulações de Jaques Wagner do PT ajudaram a criar o negócio que chegou ao Banco Master

Como o Credcesta ajudou a ampliar o Master

O aspecto mais importante não estava apenas nos juros cobrados dos clientes.

O modelo permitia originar carteiras de crédito consignado e posteriormente vendê-las a outras instituições, fundos e investidores.

Esse mecanismo antecipava recursos e fornecia liquidez ao banco.

Segundo dados da escrituração contábil do Master enviados pela Receita Federal à CPI, a instituição registrou R$ 1,6 bilhão em 2024 com a revenda de carteiras do Credcesta. No mesmo ano, a receita com os juros dos empréstimos originais teria sido de R$ 709 milhões.

Entre 2022 e 2024, a comercialização das carteiras teria gerado R$ 2,4 bilhões, contra R$ 1,9 bilhão em receitas de juros das operações, segundo os mesmos dados.

A dimensão do produto também cresceu rapidamente. O número de clientes com crédito ativo no grupo Master passou de 33.685 no fim de 2018 para 5,8 milhões em 2024, embora os próprios dados devam ser analisados com cautela diante das inconsistências posteriormente identificadas nas informações financeiras do grupo.

A segunda medida: portabilidade das dívidas

A relação entre o Credcesta e a administração baiana não terminou em 2018.

Em 13 de janeiro de 2022, quando Rui Costa ainda era governador, foi editado o Decreto nº 21.041.

Segundo a apuração do Poder360, a alteração retirou as operações do Credcesta da regra geral de portabilidade que permitia aos servidores transferir empréstimos consignados para instituições que oferecessem condições melhores.

Esse ponto merece atenção porque a portabilidade é justamente o mecanismo que permite ao consumidor trocar uma dívida por outra com juros menores.

A reportagem aponta que, naquele período, as taxas do Credcesta estavam próximas de 5% ao mês, enquanto instituições concorrentes ofereciam consignado para servidores públicos em patamares significativamente inferiores.

O decreto, porém, não citava nominalmente o Banco Master. A alteração ocorreu por meio da mudança das regras aplicáveis às consignações.

O que a investigação apura

A discussão ganhou nova dimensão em 2026 com a Operação Compliance Zero e as investigações relacionadas ao Banco Master.

Jaques Wagner foi alvo da 9ª fase da operação, em junho de 2026, ao lado de Augusto Lima. A investigação passou a examinar relações financeiras e políticas envolvendo o empresário e o senador.

O relatório da Polícia Federal citado pelo também relaciona uma transferência de R$ 3,5 milhões, em outubro de 2025, feita pela PKL One Participações, empresa vinculada ao núcleo de Augusto Lima, a uma empresa descrita no documento como associada ao núcleo familiar de Wagner.

Isso, contudo, não significa automaticamente que os atos de 2018 tenham sido ilícitos ou que a transferência represente pagamento por decisões administrativas. Essa conclusão dependeria da apuração das autoridades e das provas produzidas no processo.

O que Wagner e Rui Costa dizem

Wagner afirmou, em manifestação encaminhada ao Poder360, que já havia prestado os esclarecimentos necessários e que os méritos do procedimento estavam sendo discutidos por sua defesa nos autos. A reportagem também registra que ele negou ter recebido propina do Master.

Rui Costa foi procurado diversas vezes pelo Poder360, por WhatsApp e por carta, mas não apresentou resposta à reportagem.

O governo da Bahia, na gestão de Jerônimo Rodrigues, informou que o contrato do Credcesta estava sob análise das unidades competentes e defendeu a manutenção do programa, argumentando que sua operação passou à iniciativa privada em 2018.

O ponto que os documentos permitem estabelecer

Há uma sequência objetiva de acontecimentos:

2014: Jaques Wagner sanciona autorização para privatização da Ebal.

2016: primeira tentativa de venda da Ebal por R$ 81 milhões fracassa.

Março de 2018: segunda tentativa pelo mesmo valor também não encontra comprador.

11 de abril de 2018: a Ebal e o Credcesta são arrematados por R$ 15 milhões.

27 de abril de 2018: Rui Costa assina os Decretos nº 18.353 e 18.354, ampliando as funcionalidades do Credcesta e criando uma margem própria de consignação.

Segundo semestre de 2018: Augusto Lima procura instituições financeiras para ampliar a operação e se aproxima do Banco Máxima.

28 de dezembro de 2018: Lima comunica ao Banco Central sua intenção de se tornar acionista do banco de Daniel Vorcaro.

2019: o governo baiano comunica aos servidores a nova modalidade do Credcesta, já com possibilidade de operações de crédito e saques em dinheiro.

2022: novo decreto do governo Rui Costa altera as regras de portabilidade das dívidas consignadas, afetando a possibilidade de transferência das operações do Credcesta.

2022–2024: a comercialização das carteiras do Credcesta gera, segundo dados contábeis enviados à CPI, R$ 2,4 bilhões.

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O que ninguém comenta

O elemento mais relevante da história não é simplesmente que um cartão estatal foi privatizado.

É a mudança de natureza econômica do ativo depois da venda.

O Estado vendeu a Ebal e o Credcesta por R$ 15 milhões. Pouco mais de duas semanas depois, atos do governo estadual transformaram o produto em uma plataforma de crédito consignado com acesso à folha de pagamento dos servidores.

Meses depois, o empresário que havia assumido o negócio buscou o Banco Máxima, de Daniel Vorcaro, para financiar sua expansão.

A partir daí, o Credcesta passou a participar de um modelo muito maior de originação, securitização e venda de carteiras de crédito.

É essa sequência que coloca os decretos de 2018 no centro da discussão atual sobre a origem da expansão do grupo que posteriormente se tornaria o Banco Master.

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Contraponto necessário

O que existe é uma sequência documentada de decisões administrativas, relações empresariais e operações financeiras que passou a ser examinada no contexto das investigações sobre o Banco Master.

Wagner nega irregularidades e afirma que sua defesa apresenta os esclarecimentos nos autos. Rui Costa não se manifestou até o momento.

A história do Credcesta mostra como uma operação originalmente vinculada a uma estatal baiana passou, em poucos anos, de um cartão destinado a compras de funcionários públicos para uma plataforma de crédito consignado de escala nacional.

O ponto documental mais sensível está na cronologia: a venda por R$ 15 milhões ocorreu em 11 de abril de 2018; 16 dias depois, dois decretos assinados por Rui Costa ampliaram substancialmente as possibilidades financeiras do produto; ainda em 2018, Augusto Lima se aproximou do Banco Máxima, de Daniel Vorcaro.

Posteriormente, o Credcesta tornou-se uma fonte relevante de carteiras de crédito do Master, com bilhões de reais em operações de comercialização registradas nos dados contábeis encaminhados à CPI.

A investigação agora precisa separar três questões diferentes: a legalidade dos atos administrativos, a eventual existência de favorecimento indevido e a origem dos recursos e relações financeiras que surgiram posteriormente.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Estrategista focada em proteger o investidor pessoa física dos conflitos de interesse dos grandes bancos e corretoras. Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado de Capitais. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia

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