Mensagens apreendidas pela Polícia Federal indicam articulação de Lulinha, Roberta Luchsinger e Marcola em torno da Unigel; contrato de R$ 759,2 milhões foi considerado de alto risco pelo TCU e acabou sem produzir efeitos
A Polícia Federal encontrou indícios de atuação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, em articulações relacionadas aos interesses da fabricante de fertilizantes Unigel junto à Petrobras, segundo mensagens e informações reunidas em investigação que tramita no Supremo Tribunal Federal. A apuração também aponta a participação da lobista Roberta Luchsinger e de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete da Presidência da República de Lula. O caso ganha dimensão econômica porque a negociação envolvia um contrato de R$ 759,2 milhões com a Petrobras que, segundo dados analisados pelo Tribunal de Contas da União, tinha prejuízo esperado de R$ 487,1 milhões no cenário considerado pela estatal.
O contrato de tolling entre Petrobras e Unigel foi assinado em 29 de dezembro de 2023 para viabilizar a produção de fertilizantes nas fábricas de Sergipe e da Bahia. A operação, porém, não chegou a produzir efeitos: em junho de 2024, a Petrobras informou que as condições de eficácia não haviam sido cumpridas dentro do prazo e que a vigência havia sido encerrada.
O ponto central revelado agora pela investigação é a existência de articulações paralelas para tentar viabilizar os interesses da Unigel, enquanto documentos do TCU já apontavam riscos econômicos relevantes para a Petrobras.
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O que a PF encontrou
Segundo a investigação divulgada pelo Poder360, Roberta Luchsinger negociou com Leo Slezynger, diretor da Unigel e filho do fundador da companhia, um contrato de consultoria destinado a atuar em duas frentes.
A primeira era ajudar a empresa a avançar em um negócio com a Petrobras. A segunda envolvia a tentativa de obter R$ 500 milhões em financiamento do BNDES para a expansão da companhia em uma joint venture com a petroleira.
O acordo de consultoria previa R$ 100 mil, além de R$ 25 milhões condicionados à obtenção do financiamento de R$ 500 milhões. Segundo a PF, Slezynger repassou aproximadamente R$ 1,26 milhão a Luchsinger entre março de 2023 e julho de 2024, além de presentes, pagamentos extras e diárias de hotel.
A investigação também encontrou mensagens que mostram a proximidade entre Lulinha e o executivo da Unigel.
Os dois se reuniram em 21 de março de 2023. Depois do encontro, segundo a PF, passaram a tratar de projetos relacionados a um fundo voltado a ações de sustentabilidade e captação de recursos no Brasil e no exterior.
Lulinha chegou a ser cogitado para integrar o conselho do fundo.
A PF interpreta esse conjunto de contatos como indício de atuação em favor dos interesses da Unigel.
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A mensagem que coloca Lulinha no centro da articulação
Entre os elementos encontrados estão mensagens trocadas entre Luchsinger e Slezynger sobre a aproximação com Lulinha.
Em abril de 2023, a lobista sugeriu que o executivo desse ao filho do presidente Lula uma posição no conselho do fundo que estava sendo discutido.
A ideia, segundo a mensagem reproduzida na investigação, seria criar uma relação que pudesse aproximar Lulinha dos interesses da empresa.
Para a PF, o conteúdo é relevante porque mostra que a aproximação não era apenas social ou circunstancial, mas estava inserida em uma estratégia de relacionamento com pessoas próximas ao poder público.
É justamente nesse ponto que a investigação passa a ter relevância além da relação pessoal entre os envolvidos: as mensagens são analisadas em conjunto com as tratativas comerciais que culminariam no contrato com a Petrobras.
Marcola aparece na interlocução com o governo
Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, também aparece nas mensagens examinadas pela PF.
Segundo o material divulgado, em novembro de 2023 Luchsinger pediu que Marcola desse um toque no então ministro de Minas e Energia de Lula, Alexandre Silveira, para tratar da Unigel.
A resposta de Marcola indicava que ele teria reunião com o ministro naquele dia.
O episódio é utilizado pela investigação para analisar se houve tentativa de utilizar canais de acesso ao governo para favorecer interesses privados.
Marcola, porém, nega ter intermediado negócios privados. Segundo manifestação divulgada sobre o caso, sua atuação seria restrita às atribuições institucionais do cargo.
O Ministério de Minas e Energia de Lula também afirmou que Alexandre Silveira jamais foi abordado por Marcola para solicitar interferência em assuntos sob responsabilidade da pasta.
A distinção é importante: a mensagem existe e integra o material investigativo; a finalidade e o efeito concreto da interlocução são questões que a investigação busca esclarecer.
O número que muda o tamanho do caso: R$ 487,1 milhões
A dimensão econômica da operação aparece nos documentos do TCU.
O contrato de tolling previa pagamento global de R$ 759,2 milhões ao Grupo Unigel pela prestação de serviços relacionados à produção, armazenagem, expedição, faturamento e comercialização de fertilizantes nas unidades de Camaçari, na Bahia, e Laranjeiras, em Sergipe.
O problema é que a própria análise econômica utilizada pela Petrobras calculava um valor esperado negativo de R$ 487,1 milhões para o tolling no cenário considerado pelo TCU.
O documento do tribunal mostra:
| Alternativa analisada | Valor esperado negativo |
|---|---|
| Tolling | R$ 487,1 milhões |
| Petrobras retomar as duas plantas | R$ 1,23 bilhão |
| Não realizar tolling nem retomar as plantas | R$ 542,8 milhões |
Esses números precisam ser lidos corretamente.
R$ 487,1 milhões não foram uma perda efetivamente contabilizada pela Petrobras. Trata-se do prejuízo esperado no modelo econômico analisado. O próprio contrato acabou não produzindo efeitos, após o TCU divulgar que a operação era arriscada para Petrobras.
Esse é um dos pontos mais importantes da história.
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TCU apontou problemas na análise que sustentou o negócio
O TCU não se limitou a registrar o valor negativo.
Em sua análise, o tribunal apontou que a contratação ocorreu em um momento de mercado desfavorável e envolvia riscos elevados, agravados pela situação econômico-financeira da Unigel.
O tribunal também concluiu que a análise de riscos usada para fundamentar a contratação:
- considerou riscos e oportunidades que não deveriam ter entrado na avaliação;
- superestimou riscos associados a alternativas ao tolling;
- subestimou riscos da solução escolhida;
- e, segundo o TCU, aumentou artificialmente a viabilidade do tolling em relação às alternativas.
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O tribunal classificou o processo decisório como enviesado do ponto de vista da análise de riscos e determinou providências à Petrobras.
Isso dá ao caso uma dimensão diferente da simples existência de um contrato.
A discussão não era apenas política ou empresarial: havia uma controvérsia documentada sobre a própria racionalidade econômica da operação.
O contrato de R$ 759,2 milhões não saiu do papel
A Petrobras na gestão Lula assinou o contrato com a Unigel em 29 de dezembro de 2023.
O objetivo era utilizar as fábricas de fertilizantes de Sergipe e da Bahia por meio de um modelo de tolling: a Petrobras forneceria gás natural para processamento e receberia fertilizantes produzidos pelas unidades.
Mas a operação não avançou.
Em 28 de junho de 2024, a Petrobras informou que as condições necessárias para a eficácia do contrato não haviam sido cumpridas até 27 de junho e que, portanto, sua vigência havia terminado antes de produzir efeitos.
A estatal afirmou ainda que não houve desembolso relacionado à operação.
Isso é fundamental para a precisão da reportagem:
O caso envolve um potencial prejuízo econômico identificado nos estudos do negócio, não um prejuízo de R$ 487,1 milhões efetivamente realizado.
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A Petrobras defendeu a governança do contrato
A Petrobras contestou questionamentos sobre o processo.
Em comunicado, afirmou que a contratação respeitou seu sistema de governança e passou pelas instâncias internas de anuência e validação. A companhia também informou que o contrato tinha caráter provisório e que não havia ocorrido desembolso da Petrobras antes da ativação da operação.
Posteriormente, a Diretoria de Governança e Conformidade da Petrobras concluiu uma apuração sobre possíveis interferências de dois diretores na tramitação do contrato e informou que não confirmou irregularidades nesse aspecto. A apuração foi acompanhada pela KPMG.
Essa informação precisa permanecer na matéria porque separa duas questões:
uma coisa é a avaliação econômica e de riscos feita pelo TCU; outra é a investigação interna da Petrobras sobre eventual interferência de seus diretores.
São apurações diferentes.
A Unigel também nega vínculo com a lobista
A Unigel afirmou que jamais manteve relação contratual com Roberta Luchsinger ou com empresa vinculada a ela.
A empresa também informou que, em maio de 2025, celebrou acordo com a Petrobras para encerrar as controvérsias contratuais e litígios relacionados às fábricas da Bahia e de Sergipe. O acordo foi submetido às instâncias internas da Petrobras e homologado pelo tribunal arbitral responsável.
A Petrobras, por sua vez, afirmou que nenhum membro de sua diretoria executiva tratou do assunto com as pessoas citadas na investigação e sustentou que as negociações relacionadas à retomada das fábricas seguiram as normas de governança e a legislação aplicável.
A cronologia que conecta as peças
2019
As fábricas de fertilizantes da Bahia e de Sergipe foram arrendadas ao grupo Unigel, por meio da Proquigel, sem problemas em contratos.
Março de 2023
Lulinha e Leo Slezynger se reúnem, segundo a investigação da PF.
Abril de 2023
Mensagens entre Luchsinger e Slezynger tratam da aproximação de Lulinha e da possibilidade de participação dele em um fundo.
Junho de 2023
Petrobras e Unigel iniciam formalmente entendimentos para novos negócios.
Segundo semestre de 2023
Avançam as tratativas envolvendo o modelo de tolling e também a busca de financiamento de R$ 500 milhões junto ao BNDES.
29 de dezembro de 2023
Petrobras e Unigel assinam o contrato de tolling, no valor global de R$ 759,2 milhões.
2024
O TCU analisa a operação e aponta riscos, falhas na avaliação e prejuízo esperado de R$ 487,1 milhões no cenário do tolling.
27 de junho de 2024
Termina o prazo para cumprimento das condições de eficácia do contrato.
28 de junho de 2024
Petrobras informa que o contrato terminou sem produzir efeitos.
2025
Petrobras e Unigel chegam a acordo para encerrar as controvérsias envolvendo as fábricas.
2026
Mensagens apreendidas pela PF passam a revelar a dimensão das articulações envolvendo Lulinha, Luchsinger e Marcola.
O que a PF está efetivamente colocando sob investigação
O ponto mais sensível não é simplesmente Lulinha conhecer um executivo da Unigel.
A investigação reúne contatos, mensagens, reuniões e articulações que, segundo a PF, indicariam uma atuação coordenada para favorecer interesses da empresa.
A existência de uma remuneração de R$ 25 milhões condicionada à obtenção de R$ 500 milhões em financiamento adiciona uma dimensão financeira às tratativas.
Ao mesmo tempo, a negociação com a Petrobras envolvia um contrato de R$ 759,2 milhões cujo modelo econômico apresentava resultado esperado negativo de R$ 487,1 milhões no cenário analisado.
É essa sobreposição que torna o caso relevante:
interesses privados + acesso a integrantes do núcleo político + contrato com estatal + operação de centenas de milhões de reais + alerta econômico do TCU.
Nenhum desses elementos, isoladamente, prova crime.
Juntos, porém, explicam por que as mensagens passaram a integrar uma investigação federal.
O que ninguém deve confundir
Há fatos diferentes que precisam permanecer separados.
A Petrobras efetivamente assinou em dezembro de 2023 um contrato de tolling de R$ 759,2 milhões, mas ele não chegou a produzir efeitos.
Terceiro: a PF encontrou mensagens que, segundo a investigação, indicam atuação de Lulinha, Luchsinger e Marcola em favor dos interesses da Unigel.
O TCU acrescenta uma quarta peça: a própria análise econômica utilizada pela Petrobras estimava prejuízo de R$ 487,1 milhões para o tolling e o tribunal apontou falhas na avaliação dos riscos e na comparação entre alternativas.



