Presidente diz que discute com o Banco Central proibição de bancos oferecerem mais de um cartão por pessoa; enquanto proposta mira a quantidade de cartões, famílias chegam a 49,9% de endividamento e crédito rotativo permanece entre as modalidades mais caras do sistema
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o governo discute com o Banco Central uma medida para impedir que os bancos ofereçam mais de um cartão de crédito por pessoa. A proposta surge em um momento em que o crédito às famílias continua crescendo, a inadimplência permanece elevada e o comprometimento da renda com dívidas está próximo de 30%. O ponto central da discussão, porém, está em uma diferença que pode determinar o efeito da medida: limitar a quantidade de cartões não é o mesmo que limitar a exposição do consumidor ao crédito.
A declaração foi feita por Lula em entrevista ao Flow Podcast na quinta-feira, 1º de outubro. Segundo o presidente, a medida vem sendo discutida com a autoridade monetária e faria parte de uma reformulação da política de crédito.
“Nós estamos discutindo com o Banco Central, nós vamos proibir os bancos de darem mais que um cartão de crédito para as pessoas”, afirmou.
O presidente também criticou a oferta de cartões que, segundo ele, chegam aos consumidores sem solicitação e relacionou a facilidade de acesso ao cartão ao aumento do endividamento.
A proposta, entretanto, ainda não é uma regra em vigor. Lula não apresentou os detalhes de como uma eventual limitação funcionaria, quais cartões seriam considerados, se haveria exceções ou qual instrumento regulatório seria utilizado.
E é justamente aí que começa a parte mais relevante da história.
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A quantidade de cartões é apenas uma parte do problema
O Brasil não enfrenta apenas uma questão de excesso de cartões.
Os dados mais recentes do Banco Central mostram que o saldo das operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional chegou a R$ 7,4 trilhões em agosto, com crescimento de 9,2% em 12 meses.
Dentro desse universo, o crédito destinado às famílias alcançou R$ 2,7 trilhões, avanço de 10,5% em 12 meses.
Mais importante: o crédito livre para as famílias chegou a R$ 2,6 trilhões, também com crescimento de 10,5% em 12 meses.
Ou seja, o cartão está inserido em uma engrenagem muito maior de expansão do crédito ao consumidor.
Uma pessoa pode ter dois, três ou quatro cartões e não carregar dívida com juros.
Outra pode ter apenas um cartão e comprometer uma parcela significativa da renda com ele.
O número de cartões, portanto, não mede sozinho o grau de endividamento de uma pessoa.
Essa distinção é fundamental para entender o alcance da proposta presidencial.
O dado que explica porque o brasileiro está endividado na gestão Lula
O Banco Central registrou que o endividamento das famílias chegou a 49,9% em julho, aumento de 1,1 ponto percentual em 12 meses.
O comprometimento de renda ficou em 28,7%, também 1,4 ponto percentual acima do registrado um ano antes.
Ao mesmo tempo, a inadimplência das pessoas físicas no sistema financeiro alcançou 6,0% em agosto. Considerando apenas o crédito livre para as famílias, a inadimplência chegou a 8,0%.
Esses números ajudam a dimensionar o problema que está por trás da declaração de Lula.
Não se trata apenas de consumidores recebendo cartões demais.
Trata-se de um sistema em que a renda das famílias está cada vez mais comprometida com dívidas enquanto o crédito continua crescendo.
O cartão é uma porta de entrada, mas não é a dívida inteira
O próprio Banco Central traz outro dado importante.
No Relatório de Cidadania Financeira 2025, a autoridade monetária informou que 96,6 milhões de brasileiros eram usuários ativos de cartão de crédito, e 52,8 milhões tinham dívidas com juros no cartão, entre rotativo e parcelamento de fatura.
É uma diferença decisiva.
Ter cartão não significa estar endividado.
O problema aparece quando o cartão deixa de funcionar apenas como instrumento de pagamento e passa a financiar consumo por meio de uma dívida que permanece de um mês para outro.
É nesse ponto que entram os juros.
O custo do cartão continua sendo uma questão central
Em agosto, a taxa média de juros das operações de crédito com recursos livres para as famílias chegou a 61,7% ao ano, segundo o Banco Central.
A autoridade monetária também registrou aumento das taxas médias tanto no cartão de crédito rotativo quanto no cartão parcelado naquele mês.
Dados divulgados a partir das estatísticas do BC mostram que a taxa média do crédito rotativo chegou a 449,4% ao ano em agosto.
A magnitude desse número muda a perspectiva da discussão.
O consumidor que possui mais de um cartão pode ter mais opções de pagamento.
Mas o consumidor que possui um único cartão e não consegue pagar integralmente a fatura também pode entrar em uma modalidade de crédito extremamente cara.
Portanto, reduzir o número de cartões e reduzir o custo do crédito são duas políticas diferentes.
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Antes de controlar quantos cartões o brasileiro pode ter, há outra pergunta: por que o crédito continua tão caro?
Há uma questão que precisa permanecer no centro do debate: se o objetivo é proteger o consumidor do endividamento, limitar a quantidade de cartões é apenas uma das possíveis frentes de atuação — e não necessariamente a mais diretamente relacionada ao custo da dívida.
Na mesma entrevista em que anunciou a discussão para limitar a quantidade de cartões, Lula criticou os juros cobrados dos consumidores e citou taxas próximas de 500% ao ano. Os dados mais recentes do Banco Central mostram que a preocupação com o custo do crédito não é abstrata: o juro médio do cartão rotativo chegou a 449,4% ao ano em agosto, enquanto o cartão parcelado alcançou 192,1% ao ano.
Mas em todos os mandatos do PT os juros foram muito altos em quase 20 anos.
Isso coloca uma questão objetiva sobre a prioridade da política pública.
O consumidor precisa ser protegido de ter vários cartões — ou de ficar preso a um crédito que pode custar centenas de por cento ao ano?
O próprio Banco Central informa que, desde janeiro de 2024, os juros e encargos acumulados sobre a parte da fatura não paga ou parcelada com juros estão limitados a 100% do valor original da dívida. Isso impede que a dívida cresça indefinidamente por juros e encargos, mas não elimina o fato de que o custo nominal do rotativo continua entre os mais elevados do sistema financeiro.
A discussão, portanto, não deveria se limitar à quantidade de cartões na carteira do brasileiro.
Há também uma discussão sobre preço do dinheiro.
Se uma família entra no rotativo porque não conseguiu pagar uma fatura de R$ 1.000, a quantidade de cartões que ela possui deixa de ser a principal variável daquela dívida. O que passa a determinar a velocidade de seu crescimento é justamente o custo do crédito contratado.
É nesse ponto que a proposta anunciada pelo presidente merece ser examinada com atenção: o governo pretende controlar uma escolha do consumidor — quantos cartões ele pode possuir — enquanto o debate sobre o custo efetivo do crédito continua aberto.
O Banco Central registrou ainda que a taxa média das operações de crédito livre para as famílias chegou a 61,7% ao ano em agosto, alta de 2,9 pontos percentuais em 12 meses. No mesmo mês, a inadimplência das famílias no crédito livre alcançou 8%, o maior nível da série histórica, segundo os dados divulgados pela autoridade monetária.
Há, portanto, duas discussões diferentes.
Uma é quanto crédito o consumidor pode acessar.
A outra é quanto ele paga quando precisa financiar esse crédito.
Uma política pública que queira enfrentar o endividamento das famílias pode discutir as duas. Mas restringir o número de cartões não substitui a discussão sobre juros.
E existe ainda um ponto econômico que não pode ser ignorado: o crédito é uma atividade remunerada dos bancos. Quanto maior o custo financeiro das operações, maior é a receita potencial de juros para as instituições sobre os saldos efetivamente financiados, embora a rentabilidade bancária dependa também de inadimplência, custo de captação, provisões, despesas operacionais e outros fatores.
Por isso, seria mais preciso perguntar não apenas por que o brasileiro precisa de mais de um cartão, mas também por que um dos principais instrumentos de crédito ao consumidor continua apresentando taxas tão elevadas.
Essa é uma discussão que atinge diretamente o bolso das famílias — e que não se resolve apenas contando quantos cartões existem dentro de uma carteira.
O que ninguém comenta: um único cartão não significa um único limite de crédito
Esse talvez seja o ponto mais importante da proposta.
Se a preocupação do governo é impedir que uma pessoa acumule exposição excessiva ao crédito, limitar o número de cartões pode não ser suficiente.
Um único cartão pode concentrar um limite elevado.
Além disso, o consumidor pode possuir outros produtos de crédito junto ao sistema financeiro: crédito pessoal, consignado, financiamento, cheque especial e outras modalidades.
Por isso, a variável relevante para avaliar o risco de superendividamento não é necessariamente quantos cartões uma pessoa possui, mas quanto crédito ela tem disponível, quanto utiliza e quanto da sua renda já está comprometido com dívidas.
A própria estrutura das estatísticas do Banco Central trabalha com indicadores de endividamento e comprometimento de renda — justamente porque quantidade de cartões e capacidade de pagamento são conceitos diferentes.
O BC já sinaliza preocupação com o endividamento
A declaração de Lula também não surge isoladamente.
O Banco Central vem acompanhando a deterioração de indicadores relacionados às famílias.
Em agosto, o crédito livre destinado às famílias cresceu 0,8% no mês e 10,5% em 12 meses.
Ao mesmo tempo, a inadimplência dessa carteira avançou e chegou a 8,0%.
No conjunto do sistema financeiro, a inadimplência alcançou 5,0%, alta de 0,9 ponto percentual em 12 meses.
A autoridade monetária também informou que o comprometimento de renda das famílias estava em 28,7%.
Isso significa que a discussão sobre crédito já ultrapassou o universo específico do cartão.
Ela passou a envolver estabilidade financeira, capacidade de pagamento e qualidade das carteiras de crédito dos bancos.
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A liberdade de escolha também entra na equação
Existe ainda outra dimensão que não pode ser ignorada.
Nem todo consumidor utiliza vários cartões porque está superendividado.
Há pessoas que mantêm cartões diferentes por causa de programas de benefícios, condições de parcelamento, relacionamento com instituições distintas, viagens ou simplesmente organização financeira.
Da mesma forma, existem consumidores que possuem apenas um cartão e utilizam quase todo o limite.
Uma eventual regra geral, portanto, alcançaria comportamentos financeiros muito diferentes.
Esse é um dos motivos pelos quais o desenho da regulamentação será tão importante quanto o anúncio da intenção.
O risco de confundir oferta de crédito com uso de crédito
A discussão pública costuma tratar cartão de crédito como sinônimo de dívida.
Não são a mesma coisa.
O cartão é um instrumento de pagamento.
A dívida aparece quando o consumidor financia a compra, parcela a fatura ou entra no rotativo.
O Banco Central mostra justamente essa diferença: em 2024, havia 96,6 milhões de usuários ativos, mas 52,8 milhões possuíam dívidas com juros no cartão.
Isso significa que milhões de pessoas utilizavam o produto sem necessariamente estar submetidas às modalidades que geram juros.
Uma política pública que limite o número de cartões poderá alterar a oferta do produto.
Mas, para alterar estruturalmente o endividamento, será preciso observar também limites concedidos, capacidade de pagamento, custo do financiamento e comportamento de utilização.
dito, endividamento das famílias, crédito rotativo, juros do cartão, inadimplência, Gabriel Galípolo, crédito ao consumidor



