Brasil fica para trás na carne: vizinhos menores se antecipam à UE e China impõe tarifa de 67% após cota esgotada. Gestão Lula perde mercado

INVESTIDORES BRASIL

Argentina, Paraguai e Uruguai adequaram suas regras antes do Brasil e mantiveram acesso ao mercado europeu. Maior exportador mundial de carne bovina agora enfrenta restrição na Europa e novo gargalo em seu principal comprador

O Brasil é uma das maiores potências agropecuárias do mundo, possui mais de 30 ministérios, estrutura diplomática global e órgãos especializados em agricultura, comércio exterior e relações internacionais.

Mesmo assim, países muito menores conseguiram agir antes para atender às novas exigências da União Europeia.

Argentina, Paraguai e Uruguai adotaram normas específicas sobre o uso de antimicrobianos entre 2023 e 2024. O Brasil somente consolidou medidas equivalentes em 2026.

O resultado apareceu no mercado: os três vizinhos permaneceram habilitados, enquanto o Brasil ficou fora da lista europeia.

Desde 3 de setembro, produtos brasileiros de origem animal passaram a enfrentar restrições para entrar na União Europeia, colocando em risco um mercado que comprou cerca de US$ 1,8 bilhão em carnes brasileiras somente em 2025.

E há um agravante.

Enquanto tenta recuperar a Europa, o Brasil também enfrenta dificuldades para preservar espaço na China, seu maior comprador de carne bovina. A cota chinesa destinada ao país se esgotou e, desde 1º de outubro, os embarques excedentes passaram a enfrentar tarifa total de 67%.

Os dois episódios são diferentes, mas deixam a mesma pergunta:

o Brasil está defendendo seus mercados externos com a mesma eficiência com que seu produtor consegue conquistá-los?

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Europa não mudou as regras de uma hora para outra

O problema europeu não surgiu em 2026.

O marco regulatório sobre medicamentos veterinários foi estabelecido em 2019, e as exigências destinadas aos países fornecedores foram detalhadas nos anos seguintes e concluídas em 2022.

Documentos analisados pelo Tribunal de Contas da União mostram que Paraguai, Argentina e Uruguai conseguiram transformar essas exigências em normas nacionais antes do Brasil. Porque a gestão Lula não agiu rápido?

O Paraguai adotou regras específicas em 2023.

Argentina e Uruguai avançaram em 2024.

No Brasil, normas de objetivo equivalente foram editadas somente em 2026, mas sem conformidade e timing corretos.

O TCU não afirmou formalmente que houve morosidade dos ministérios brasileiros, ponto importante para a correta compreensão do caso.

Mas o contraste registrado pelo próprio Tribunal permanece: os concorrentes regionais chegaram antes.

No comércio exterior, essa diferença de tempo pode valer bilhões.

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Brasil ficou de fora; vizinhos continuaram dentro

Quando a União Europeia atualizou a relação dos países considerados aptos a cumprir as novas exigências, Argentina, Paraguai e Uruguai permaneceram habilitados.

O Brasil não.

A restrição não significa que a carne brasileira tenha sido considerada contaminada ou imprópria para consumo.

O problema está nas garantias exigidas pela Europa sobre determinados antimicrobianos e na capacidade de comprovar que os animais destinados ao mercado europeu obedeceram às regras estabelecidas pelo bloco.

Não estamos diante de uma crise de qualidade generalizada da carne brasileira.

Estamos diante de um problema de regulação, certificação, rastreabilidade e acesso a mercado.

E esse tipo de problema também produz prejuízo.

Quase US$ 2 bilhões ficaram sob risco

Em 2025, a União Europeia comprou aproximadamente 368 mil toneladas de carnes brasileiras, movimentando cerca de US$ 1,8 bilhão.

Somente a carne bovina representou mais de US$ 1 bilhão.

Além do tamanho, a Europa é importante pelo perfil de consumo. Trata-se de um mercado capaz de absorver cortes de maior valor agregado, o que significa que simplesmente redirecionar toda a produção para outro país não necessariamente preserva margens e preços.

Perder temporariamente esse comprador significa reduzir alternativas exatamente em um setor no qual diversificação de mercados é estratégica.

Governo reagiu, mas o mercado já estava fechado

O governo Lula afirma que manteve negociações técnicas com a União Europeia e encaminhou informações ao bloco antes da entrada em vigor da restrição.

Também criticou a falta de diálogo prévio por parte dos europeus. Mas porque não usou até mesmo a experiência e diplomacia com os países vizinhos para ajudá-lo com informações para as adequações necessárias?

Depois da exclusão, Brasília afirmou que intensificou protocolos, controles e negociações para recuperar o mercado. Porque não colocou mais esforço antes da exclusão?

Uma auditoria europeia posterior considerou satisfatórios os sistemas brasileiros relacionados às cadeias de carne de aves e mel, abrindo caminho para que esses produtos voltem ao mercado europeu.

Isso mostra que o Brasil possui capacidade técnica para atender às exigências.

Mas também reforça uma pergunta inevitável:

por que essa adequação não estava concluída a tempo de impedir o fechamento? Gestão falha do governo lula?

Na carne bovina, o atraso pode custar muito mais

O problema mais sério está na pecuária bovina.

A União Europeia exige que seja possível demonstrar que os animais destinados ao bloco cumpriram os protocolos durante todo o ciclo produtivo.

E um bovino pode levar aproximadamente dois anos entre nascimento e abate.

Em setembro, uma autoridade sanitária europeia estimou que, em tese, a carne bovina brasileira poderia levar cerca de dois anos para voltar plenamente ao mercado do bloco.

Mas, até que isso aconteça, permanece a possibilidade de uma ausência prolongada.

Ou seja: uma adequação regulatória feita hoje pode não recuperar amanhã o mercado que foi perdido ontem.

SAIBA: União Europeia diz que Brasil ignorou alertas sanitários e veta carne brasileira; país é o único do Mercosul punido após exigências conhecidas desde 2019 e agro pode perder até US$ 2 bilhões

Enquanto tenta recuperar a Europa, Brasil esbarra na China

A situação se torna mais preocupante porque o problema europeu não é o único enfrentado pela carne brasileira.

A China, principal comprador do produto brasileiro, estabeleceu para 2026 uma cota de 1,106 milhão de toneladas.

O número ficou muito abaixo do volume enviado pelo Brasil ao mercado chinês em 2025, quando os embarques chegaram a aproximadamente 1,6 milhão de toneladas.

Era possível, portanto, prever que o limite poderia ser atingido durante o ano.

Foi o que aconteceu.

No fim de setembro, a cota brasileira foi esgotada.

Desde 1º de outubro, cada tonelada enviada acima desse limite passou a enfrentar uma sobretaxa de 55%, adicionada à tarifa normal de 12%.

Carga total: 67%.

Uma barreira suficientemente elevada para reduzir drasticamente a competitividade do produto excedente.

MAIS INFORMAÇÃO: China impõe tarifa de 55% sobre carne bovina: entenda o impacto para o Brasil

Brasil na gestão Lula não conseguiu ampliar a cota antes do limite

É importante fazer uma distinção.

A medida chinesa não foi criada exclusivamente contra o Brasil. Pequim adotou salvaguardas para diferentes fornecedores com o argumento de proteger sua produção doméstica.

O governo Lula afirma que também manteve contatos com as autoridades chinesas.

O Brasil não conseguiu negociar uma ampliação suficiente da cota antes de o limite ser atingido.

E, quando o teto acabou, a sobretaxa entrou automaticamente em vigor.

Para um país que depende da China para grande parcela de suas exportações de carne bovina, a diferença entre negociar antes e tentar corrigir depois não é pequena.

Dois mercados, o mesmo alerta

Europa e China são casos diferentes.

Na Europa, o problema envolve adequação regulatória e comprovação do controle de antimicrobianos.

Na China, trata-se de uma salvaguarda comercial e de uma cota de importação.

Mas os dois episódios convergem em um ponto estratégico.

O Brasil possui escala produtiva, qualidade, empresas competitivas e capacidade para vender carne ao mundo.

O que está sendo testado agora é sua capacidade de antecipar riscos, negociar condições e preservar os mercados conquistados pelo setor privado.

Na Europa, concorrentes menores se anteciparam.

Na China, a cota brasileira ficou muito abaixo do volume que o país já exportava e não foi ampliada antes de ser totalmente utilizada.

A liderança na produção não garante liderança comercial.

SAIBA MAIS: Enquanto carne brasileira perde mercado na China e afeta agro, Fazenda viaja para negociar agenda de carbono que avança além do atual mandato

Mais de 30 ministérios na gestão Lula e uma pergunta incômoda

O contraste ganha dimensão maior quando se observa a estrutura disponível em Brasília.

O governo Lula possui mais de 30 ministérios.

Entre eles estão o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, justamente áreas diretamente relacionadas à defesa dos interesses produtivos e comerciais do país.

O Brasil também mantém uma ampla rede diplomática e organismos especializados em promoção das exportações.

Paraguai e Uruguai possuem economias, populações e estruturas estatais muito menores.

Ainda assim, conseguiram cumprir antes determinadas exigências europeias.

A comparação não significa que todos os problemas comerciais poderiam ser evitados pelo governo brasileiro.

China e União Europeia defendem seus próprios produtores e impõem regras de acordo com seus interesses.

Mas é exatamente por isso que grandes exportadores precisam de uma política comercial extremamente ativa, e neste ponto parece que o governo Lula não defendeu os produtores brasileiros adequadamente e a tempo.

Se os compradores defendem seus mercados, o Brasil precisa defender os seus exportadores.

Por que importa

O agronegócio é um dos principais responsáveis pela entrada de dólares no Brasil e exerce papel decisivo no saldo da balança comercial.

Perder acesso ou competitividade em grandes mercados afeta muito mais do que frigoríficos.

Pode pressionar preços pagos aos produtores, reduzir margens, alterar decisões de investimento, aumentar a dependência de poucos compradores e abrir espaço para concorrentes.

Existe ainda um risco estratégico maior.

Mercados internacionais não ficam vazios esperando o Brasil voltar.

Quando um fornecedor perde espaço, outro tenta ocupá-lo.

Quem ganha e quem perde

Perde o pecuarista brasileiro, que fica mais dependente de um número menor de compradores.

Perdem os frigoríficos, que precisam redirecionar produção e administrar margens menores quando mercados importantes são restringidos.

Perde o Brasil, porque desperdiça parte da vantagem construída por décadas pelo agronegócio.

Ganham os concorrentes, que encontram oportunidade para ocupar espaço deixado pelo produto brasileiro.

Argentina, Uruguai, Paraguai, Austrália e outros grandes fornecedores não precisam produzir mais que o Brasil para aproveitar essas oportunidades.

Precisam apenas estar habilitados quando o comprador procurar outro fornecedor.

O Brasil sabe produzir. Precisa voltar a saber proteger seus mercados

A força da pecuária brasileira não nasceu em Brasília.

Foi construída durante décadas por produtores, frigoríficos, pesquisa, genética, tecnologia, logística e abertura de mercados.

O Estado tem outra responsabilidade: garantir ambiente sanitário confiável, acompanhar mudanças regulatórias e negociar para que essa produção tenha acesso aos compradores internacionais.

É justamente nesse ponto que Europa e China deixam um alerta.

Um dos maiores produtores de alimentos do planeta não pode depender apenas da sua capacidade de produzir.

Precisa antecipar mudanças.

Precisa negociar antes das portas começarem a fechar.

E precisa agir com pelo menos a mesma velocidade dos países que disputam seus clientes.

Porque, no comércio internacional, protagonismo não é medido pelo tamanho do governo nem pelo número de ministérios.

É medido pelos mercados que o país consegue conquistar — e, principalmente, pelos que consegue manter.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Estrategista focada em proteger o investidor pessoa física dos conflitos de interesse dos grandes bancos e corretoras. Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado de Capitais. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia
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