União já arrecadou R$ 2,112 trilhões até agosto, maior valor para o período, mas mercado voltou a piorar a projeção para o resultado fiscal de 2026. Dívida bruta deve atingir 83,4% do PIB neste ano e 87% em 2027, o rombo continua crescendo.
O governo federal com Lula nunca arrecadou tanto nos oito primeiros meses do ano. Entre janeiro e agosto de 2026, impostos, contribuições e demais receitas federais somaram R$ 2,112 trilhões, com crescimento real de 7,12% em relação ao mesmo período de 2025.
Nem o avanço recorde da arrecadação, porém, foi suficiente para fechar as contas públicas.
O mercado voltou a elevar a projeção para o déficit primário do Governo Central em 2026. A mediana das estimativas passou de R$ 52,271 bilhões em setembro para R$ 53,048 bilhões em outubro, segundo o Prisma Fiscal divulgado nesta quinta-feira, 15, pelo Ministério da Fazenda.
Ao mesmo tempo, a previsão para a Dívida Bruta do Governo Geral subiu de 83,2% para 83,4% do Produto Interno Bruto (PIB).
Para 2027, o mercado já projeta dívida equivalente a 87% do PIB.
O conjunto dos números expõe o principal problema fiscal brasileiro: a arrecadação cresce, mas as despesas continuam elevadas o suficiente para manter o Governo Central no vermelho e a dívida em trajetória ascendente.
Brasil arrecada mais, mas continua gastando mais do que recebe
Os números da Receita Federal mostram a dimensão do avanço das receitas.
Somente em agosto, a arrecadação federal alcançou R$ 235,566 bilhões, crescimento real de 8,25% sobre agosto de 2025 e o maior resultado registrado para o mês na série histórica.
No acumulado de janeiro a agosto, foram R$ 2,112 trilhões, ante R$ 1,888 trilhão no mesmo intervalo de 2025.
O crescimento real foi de 7,12%.
Parte desse desempenho foi favorecida pelo aumento de diferentes fontes de receita, incluindo tributação sobre renda e capital, expansão da massa salarial e também receitas extraordinárias.
Houve, por exemplo, pagamentos atípicos de impostos ao longo do ano e arrecadação adicional relacionada ao setor de petróleo.
Ainda assim, quando o mercado olha para o fechamento de 2026, continua enxergando déficit.
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Mercado agora prevê rombo de R$ 53 bilhões
O Prisma Fiscal reúne projeções de instituições financeiras e consultorias para receitas, despesas, resultado primário e dívida pública.
Na edição de outubro, a mediana para o déficit do Governo Central aumentou em aproximadamente R$ 777 milhões em apenas um mês.
A projeção passou de:
R$ 52,271 bilhões de déficit em setembro
para
R$ 53,048 bilhões de déficit em outubro.
Para 2027, houve melhora na estimativa, de R$ 45,35 bilhões para R$ 44 bilhões negativos.
Mesmo assim, o mercado continua projetando dois anos consecutivos de contas no vermelho.
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E a arrecadação prevista para o ano também aumentou
Há outro dado que torna a fotografia fiscal ainda mais relevante.
Ao mesmo tempo em que elevou a projeção de déficit, o mercado também aumentou a estimativa para a arrecadação federal de 2026.
A previsão passou de R$ 3,202 trilhões para R$ 3,210 trilhões.
Ou seja, foram adicionados cerca de R$ 8 bilhões à expectativa de arrecadação.
Mas isso não se transformou em melhora do resultado fiscal.
A projeção para a receita líquida do Governo Central, aquilo que efetivamente permanece disponível depois de transferências constitucionais, recuou ligeiramente, de R$ 2,581 trilhões para R$ 2,580 trilhões.
Enquanto isso, a despesa total permanece estimada em aproximadamente R$ 2,625 trilhões.
É justamente nesse descompasso que está a questão central.
O problema fiscal brasileiro já não pode ser analisado apenas pelo lado da arrecadação.
Mesmo arrecadando mais, o país continua convivendo com despesas suficientemente altas para produzir déficits e elevar o endividamento.
Dívida sobe para 83,4% do PIB e mercado vê 87% em 2027
Se o déficit mostra o desequilíbrio entre receitas e despesas, a dívida revela o efeito acumulado dessa dinâmica.
A mediana das projeções para a Dívida Bruta do Governo Geral subiu novamente em outubro.
O mercado esperava em setembro uma dívida equivalente a 83,2% do PIB ao final de 2026.
Agora espera 83,4%.
Para 2027, a estimativa permanece em 87% do PIB.
A diferença parece pequena quando observada mês a mês, mas a trajetória é mais importante do que uma única revisão.
Uma dívida que ocupa parcela cada vez maior da economia exige capacidade crescente do Estado para financiá-la e aumenta a atenção dos investidores sobre juros, inflação, credibilidade fiscal e sustentabilidade das contas públicas.
Meta fiscal tem uma conta diferente do déficit efetivo
Existe, porém, um detalhe fundamental para compreender os números de 2026.
A meta fiscal estabelecida para o Governo Central tem como centro um superávit primário de R$ 34,265 bilhões.
O limite inferior original é resultado zero.
Isso não significa, entretanto, que qualquer déficit registrado no ano automaticamente represente descumprimento formal da meta.
A legislação autorizou a exclusão de determinadas despesas da conta utilizada para verificar seu cumprimento.
Na programação fiscal mais recente, essas deduções chegam a aproximadamente R$ 64,4 bilhões.
A maior parcela corresponde a precatórios, acompanhada de despesas autorizadas com projetos estratégicos de defesa, educação, saúde e ressarcimentos previdenciários.
Com essas exclusões, o limite inferior utilizado para avaliar formalmente a meta pode admitir déficit próximo de R$ 64,4 bilhões.
O próprio governo trabalha atualmente com projeção de resultado primário negativo de cerca de R$ 60,3 bilhões em 2026.
Por isso, duas afirmações podem coexistir:
o governo pode terminar o ano com déficit efetivo e, ao mesmo tempo, cumprir formalmente a meta fiscal depois das deduções previstas em lei.
Essa diferença é essencial para o investidor.
Cumprir a meta não significa necessariamente fechar as contas no azul
É justamente aqui que os números fiscais precisam ser lidos com atenção.
Quando o governo anuncia o cumprimento de uma meta, isso não significa necessariamente que receitas tenham superado despesas.
O resultado utilizado para aferição da regra fiscal pode incorporar exclusões determinadas pelo Congresso e pela legislação vigente.
Para avaliar a situação financeira do país, portanto, o investidor precisa observar não apenas se a meta foi formalmente alcançada, mas também três números:
o déficit efetivamente produzido, a evolução das despesas e a trajetória da dívida pública.
Hoje, os três continuam exigindo atenção.
De onde está vindo a arrecadação recorde
O resultado de R$ 2,112 trilhões arrecadados até agosto não veio de uma única fonte.
Entre os fatores que impulsionaram as receitas estão o crescimento da massa salarial, a arrecadação previdenciária, tributos sobre lucros empresariais e rendimentos de capital e mudanças tributárias.
O IOF, por exemplo, apresentou forte crescimento no acumulado do ano, enquanto a arrecadação sobre rendimentos de capital também avançou.
Também houve receitas não recorrentes.
Somente no período acumulado, pagamentos considerados atípicos relacionados a IRPJ, CSLL e Imposto de Exportação sobre petróleo somaram bilhões de reais.
A existência dessas receitas é importante porque mostra que nem todo avanço de arrecadação necessariamente se repetirá com a mesma intensidade nos próximos anos.
O problema passa cada vez mais pelo gasto
Durante anos, parte relevante da estratégia fiscal brasileira esteve concentrada na elevação de receitas.
Os números de 2026 mostram o limite dessa estratégia.
O país aumentou a arrecadação em termos reais, alcançou patamares históricos e o mercado ainda espera R$ 53 bilhões de déficit.
A projeção de despesas do Governo Central permanece em aproximadamente R$ 2,625 trilhões.
Isso significa que elevar receitas, sozinho, não resolve o desequilíbrio se o crescimento dos gastos continuar absorvendo os recursos adicionais.
A questão deixa de ser apenas quanto o governo consegue arrecadar e passa a incluir uma pergunta ainda mais importante:
quanto o Estado continuará comprometendo para sustentar suas despesas nos próximos anos?
Por que isso importa para quem investe
Déficit fiscal não é uma discussão restrita a Brasília.
Ele chega ao bolso do investidor por diferentes caminhos.
Quanto maior a percepção de risco fiscal, maior tende a ser o prêmio exigido para financiar a dívida brasileira.
Isso pode pressionar principalmente os juros de longo prazo e afetar a precificação de praticamente todos os ativos.
Títulos públicos precisam oferecer remuneração compatível com o risco percebido.
Empresas passam a enfrentar custo maior de financiamento.
A Bolsa sofre com taxas de desconto mais elevadas.
E o câmbio pode responder negativamente quando aumenta a desconfiança sobre a sustentabilidade das contas públicas.
Quem ganha e quem perde
Renda fixa: juros elevados ou prêmios maiores nos títulos públicos podem criar oportunidades para o investidor, sobretudo em papéis prefixados e indexados à inflação. O risco está na volatilidade caso a deterioração fiscal continue.
Bolsa: empresas mais dependentes de crédito e setores sensíveis aos juros tendem a sofrer quando a curva longa permanece pressionada.
Bancos e credores: juros maiores podem elevar margens em determinadas operações, mas também aumentam inadimplência e risco de crédito.
Empresas endividadas: estão entre as mais prejudicadas por um ambiente de custo de capital elevado.
Consumidor: sente o efeito por meio de crédito mais caro, financiamento mais restritivo e menor capacidade de consumo e investimento.
Governo: quanto maior a dívida e os juros exigidos pelo mercado, maior o custo necessário para refinanciá-la.
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O sinal que fica para o mercado
O novo Prisma Fiscal não aponta uma ruptura imediata das contas públicas.
Mas reforça uma tendência que investidores acompanham há meses.
O governo arrecada mais, porém continua registrando déficit.
A arrecadação acumulada bate recorde, mas a projeção do mercado para o rombo voltou a piorar.
E, enquanto isso, a dívida avança de 83,4% do PIB em 2026 para uma projeção de 87% em 2027.
Por isso, o dado mais importante desta quinta-feira não é apenas o déficit de R$ 53 bilhões.
É a combinação entre arrecadação historicamente elevada, despesas igualmente elevadas, déficit persistente e dívida crescente.
Para quem acompanha a economia brasileira, a pergunta deixou de ser apenas quanto o governo consegue arrecadar.
A questão central agora é outra:
se nem uma arrecadação recorde consegue fechar as contas, quanto será necessário arrecadar — ou quanto será necessário conter de despesas — para interromper a trajetória de alta da dívida?



