Safra calcula impacto de até 4,6% no Ebitda das companhias; se 75% das novas despesas forem repassadas, pressão sobre as margens cai drasticamente, e parte da conta pode avançar pela cadeia até empresas contratantes e beneficiários de planos de saúde
O fim da escala 6×1 garante redução da jornada sem corte proporcional de salário, mas cria uma questão econômica que começa a aparecer nas projeções das empresas de saúde: quem financiará as horas de trabalho que deixarão de ser prestadas pelos atuais funcionários, mas continuarão necessárias para manter hospitais, clínicas e laboratórios funcionando?
No setor de saúde, onde serviços essenciais operam 24 horas por dia, cálculos do Banco Safra indicam que preservar o mesmo volume de horas poderá exigir até 10% mais profissionais nas atividades atualmente submetidas à escala 6×1, quando a jornada chegar definitivamente a 40 horas semanais.
Os 10% não representam aumento projetado para mensalidades de planos de saúde nem para o custo total das empresas. Trata-se da necessidade teórica adicional de mão de obra sobre a parcela dos funcionários hoje exposta à escala.
Ainda assim, essa mão de obra tem um custo.
Parte poderá ser compensada com produtividade, novas escalas e reorganização operacional. O restante terá de ser absorvido pelas empresas ou repassado pela cadeia — atingindo contratos entre hospitais e operadoras, empresas que oferecem assistência médica aos funcionários e, em determinados casos, o consumidor.
Resumo Executivo
O fim da escala 6×1 reduz gradualmente a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial.
Segundo o Safra, a primeira etapa pode elevar em 4,8% a necessidade de pessoal nas atividades atualmente submetidas à 6×1.
Com a jornada de 40 horas, o aumento implícito chega a 10% sobre essa parcela da força de trabalho caso as empresas precisem preservar integralmente as horas atuais por meio de novas contratações.
Entre as seis companhias de saúde analisadas pelo banco, o impacto bruto estimado varia de 0,5% a 4,6% do Ebitda de 2025.
A Hapvida aparece como a empresa mais sensível à mudança. A Rede D’Or permanece como a principal escolha do Safra no setor.
O ponto decisivo, porém, está na capacidade de repasse. Em um cenário no qual as companhias transfiram 75% do custo adicional aos preços e contratos, o impacto estimado sobre o Ebitda cai para apenas 0,1% a 1,1%.
Isso significa que quanto maior o custo transferido, menor tende a ser a parcela absorvida pelas próprias empresas.
Por que a saúde pode precisar de até 10% mais pessoal
A conta parte de uma realidade simples.
Reduzir a jornada de um trabalhador não reduz automaticamente a quantidade de horas necessárias para manter determinado serviço funcionando.
Uma UTI precisa continuar aberta.
Um pronto-socorro continua recebendo pacientes.
Exames, enfermagem, segurança, limpeza, recepção e outras atividades não desaparecem porque a jornada semanal foi reduzida.
Para preservar o mesmo volume de trabalho, as empresas poderão recorrer a novas contratações, horas extras, banco de horas, automação, reorganização de equipes e regimes alternativos de trabalho.
O Safra destaca especialmente a possibilidade de negociação de escalas como a 12×36.
Considerando apenas a reposição das horas por mão de obra, a necessidade adicional de pessoal seria de aproximadamente 4,8% na primeira fase da transição e de 10% quando a jornada chegar a 40 horas, sempre em relação aos trabalhadores originalmente submetidos à 6×1.
Não significa que todas as empresas contratarão 10% mais funcionários. Significa que precisarão encontrar uma forma de substituir essas horas.
A pergunta central: quem absorve o novo custo?
Existem basicamente três caminhos.
O primeiro é a própria companhia absorver a despesa. Nesse caso, custos com pessoal aumentam e a margem operacional diminui.
O segundo é neutralizar parte do efeito com produtividade, mudanças de escala, automação e reorganização dos processos.
O terceiro é elevar preços e renegociar contratos.
No setor de saúde, hospitais e redes de diagnóstico negociam valores com operadoras e clientes corporativos. Operadoras, por sua vez, negociam planos com empresas e consumidores.
É essa cadeia que transforma um aumento inicialmente trabalhista em uma questão também relevante para quem paga assistência médica privada.
O cenário de 75% de repasse mostra para onde a conta pode caminhar
A simulação do Safra deixa essa dinâmica particularmente clara.
Sem medidas compensatórias, o impacto bruto projetado sobre o Ebitda das companhias analisadas varia entre 0,5% e 4,6%.
Se elas conseguirem repassar 75% das despesas adicionais, esse efeito cai para apenas 0,1% a 1,1%.
A diferença é importante.
O custo não deixa de existir. Parte dele simplesmente deixa de ser suportada pela companhia e passa a ser incorporada aos preços negociados com clientes e contratantes.
Por isso, o impacto final da mudança não poderá ser medido apenas observando os balanços das empresas.
Será necessário acompanhar também reajustes contratuais e a evolução dos preços ao longo da cadeia da saúde.
Planos coletivos merecem atenção especial
A forma como uma eventual pressão de custos chega ao beneficiário depende também do tipo de plano.
Nos planos individuais e familiares, a Agência Nacional de Saúde Suplementar estabelece um limite anual para o reajuste.
Para os contratos com aniversário entre maio de 2026 e abril de 2027, o teto definido pela ANS é de 5,11%.
Nos planos coletivos, a dinâmica é diferente. Não existe o mesmo teto anual de reajuste determinado pela Agência.
Isso não significa que o fim da escala 6×1 produzirá automaticamente uma alta nas mensalidades.
Mas significa que uma elevação estrutural dos custos médicos e hospitalares poderá entrar nas futuras negociações entre prestadores, operadoras e empresas contratantes.
Esse canal é especialmente relevante no Brasil, onde grande parte dos beneficiários está em planos coletivos empresariais ou por adesão.
Hapvida aparece como a mais exposta
Entre as empresas analisadas pelo Safra, a Hapvida (HAPV3) apresenta a maior sensibilidade bruta à mudança.
O impacto estimado pode alcançar 4,6% do Ebitda de 2025 após a implementação integral do novo modelo.
Fleury, Dasa e Mater Dei aparecem em uma faixa intermediária.
Na Rede D’Or (RDOR3), a estimativa de impacto bruto chega a aproximadamente 2,7% do Ebitda de 2025.
Mesmo assim, a companhia permanece como a principal escolha do Safra no segmento, apoiada pela flexibilidade operacional e pela capacidade de negociar reajustes com operadoras.
A Qualicorp aparece entre as menos expostas devido à estrutura de sua força de trabalho e à maior presença de jornadas 5×2.
Os cálculos são exercícios de sensibilidade baseados nos números de 2025, e não previsões fechadas sobre os resultados das companhias em 2027 ou 2028.
A conta começará a aparecer antes de 2028
A implementação será gradual.
A jornada máxima cai inicialmente de 44 para 42 horas, enquanto os trabalhadores passam a ter direito a dois dias de repouso semanal.
Posteriormente, o limite chega a 40 horas.
Isso dá às empresas algum tempo para renegociar contratos, reorganizar equipes e buscar ganhos de produtividade.
Segundo o exercício do Safra, 2027 deverá concentrar aproximadamente metade do custo anual total estimado, enquanto 2028 tende a ser o primeiro ano completo em que o impacto da jornada de 40 horas poderá aparecer nos resultados.
Até lá, a principal variável será justamente quanto cada companhia conseguirá compensar internamente e quanto precisará repassar.
O benefício é claro; o financiamento ainda será distribuído
Para o trabalhador beneficiado pela mudança, o efeito é objetivo: menos horas semanais e mais tempo de descanso sem redução proporcional do salário.
Para empresas intensivas em mão de obra, entretanto, permanece a necessidade de manter serviços funcionando.
No setor de saúde, essa diferença é especialmente importante porque hospitais e clínicas não podem simplesmente reduzir o atendimento na mesma proporção da jornada.
É por isso que o número de até 10% mais pessoal merece atenção.
Não porque represente um aumento automático de 10% para o consumidor, mas porque revela a dimensão da mão de obra que precisará ser substituída por contratação, produtividade ou reorganização.
E a simulação de repasse feita pelo próprio Safra revela a outra metade da equação: quanto mais desse custo for transferido para contratos e preços, menor será o impacto sobre as margens das companhias.
Para investidores, empresários e milhões de brasileiros atendidos pela saúde privada, a questão central passa a ser justamente essa: quanto da nova despesa ficará dentro das empresas e quanto avançará pela cadeia até quem contrata e paga pelo serviço.



