A 5 dias da eleição, Lula quer abrir sigilos; PT tentou anular quebra de Lulinha e casos dos irmãos Batista e Vorcaro apontam dinheiro pago fora das contas bancárias

Presidente transforma abertura de dados bancários e telefônicos em argumento de transparência na reta final da eleição, mas delações, investigações e episódios recentes mostram que benefícios econômicos suspeitos podem circular por dinheiro vivo, contas de terceiros ou pagamento direto de despesas

A cinco dias do segundo turno, Lula quer abrir sigilos mas existe uma pegadinha na atitude que colocou a abertura dos próprios sigilos bancário e telefônico, e também dos filhos, no centro de sua estratégia eleitoral e desafiou Flávio Bolsonaro a fazer o mesmo.

O gesto tem força política e parece ser estratégia de marketing pelo timing. Mas existe uma diferença importante entre abrir uma conta bancária e demonstrar que nenhuma vantagem econômica circulou por outros caminhos.

Essa diferença não é teórica.

Delações da JBS, acusações recentes feitas por Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do escândalo do Banco Master, e uma investigação da Polícia Federal envolvendo o ex-chefe de gabinete de Lula Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, descrevem mecanismos nos quais dinheiro ou benefícios não necessariamente aparecem como uma transferência direta para a conta bancária pessoal do suposto beneficiário.

E há um contraste político adicional: meses antes de Lula decidir que quer a abertura dos sigilos familiares como demonstração de transparência, parlamentares governistas tentaram anular a quebra dos sigilos de Lulinha aprovada pela CPMI do INSS. Depois, a defesa do filho do presidente recorreu ao Supremo e conseguiu suspender a medida.

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Resumo Executivo

Lula anunciou que disponibilizará seus sigilos bancário e telefônico e os de seus filhos na reta final da eleição.

Em fevereiro, porém, a CPMI do INSS aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Parlamentares governistas contestaram a votação e o deputado Paulo Pimenta, do PT, defendeu sua anulação.

Posteriormente, a defesa de Lulinha recorreu ao STF. Flávio Dino suspendeu a quebra por considerar inadequada a votação coletiva de dezenas de requerimentos e determinou que a CPMI poderia votar novamente as medidas de forma individualizada.

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O contraste ganha relevância porque o acesso a sigilos familiares passou agora a ser apresentado pelo próprio presidente como demonstração de transparência, mas ele encheu seu mandato de sigilos por quatro anos.

Há ainda uma limitação objetiva: episódios antigos e atuais relacionados ao PT e ao entorno presidencial descrevem dinheiro vivo, contas no exterior mantidas formalmente em nome de terceiros e despesas pessoais pagas diretamente por outras pessoas.

Significa que extratos bancários pessoais, isoladamente, não necessariamente mostram todo o caminho percorrido pelo dinheiro.

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Quando a CPMI decidiu abrir o sigilo de Lulinha, governistas tentaram anular

Em 26 de fevereiro, a CPMI do INSS aprovou 87 requerimentos em bloco. Entre eles estava a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Lulinha.

A reação governista foi imediata.

A própria Agência Senado registrou que parlamentares da base queriam anular a votação. Paulo Pimenta, deputado pelo PT do Rio Grande do Sul, contestou a contagem realizada pela presidência da CPMI e defendeu que o resultado fosse invalidado.

A quebra acabou mantida pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, depois de nova contestação de integrantes da base.

A defesa de Lulinha recorreu então ao Supremo.

Flávio Dino indicado de Lula ao STF suspendeu a medida.

O fundamento foi processual: para o ministro, medidas invasivas como quebras de sigilo não deveriam ter sido aprovadas conjuntamente em uma votação simbólica de dezenas de requerimentos.

Dino deixou claro, porém, que a CPMI poderia votar novamente as quebras de forma individualizada e que sua decisão não interferia em eventuais medidas determinadas no âmbito das investigações da Polícia Federal.

O ponto político permanece.

Quando uma CPMI decidiu compulsoriamente acessar as informações de Lulinha, houve tentativa governista de anular a votação e recurso da defesa ao Supremo. Agora, cinco dias antes da eleição, Lula apresenta a abertura dos sigilos da própria família como prova de transparência.

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Joesley descreveu conta atribuída a Lula que não estava no nome de Lula

O histórico da JBS ajuda a entender por que simplesmente abrir uma conta pessoal não encerra necessariamente uma investigação financeira.

Em sua delação premiada de 2017, Joesley Batista afirmou que existiam no exterior contas informais destinadas contabilmente a Lula e Dilma Rousseff.

Segundo o empresário, Guido Mantega, que foi ministro dos governos petistas, intermediava a relação.

A estrutura descrita pelo delator é especialmente relevante para a discussão atual.

Joesley afirmou à Procuradoria-Geral da República que abriu uma conta no exterior em nome de uma offshore que ele próprio controlava, onde foram registrados recursos que, segundo sua versão, seriam destinados a pagamentos relacionados a Lula.

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Em outro momento, disse ter sido criada estrutura semelhante relacionada a Dilma.

As chamadas “contas de Lula e Dilma”, portanto, não eram descritas pelo próprio delator como contas bancárias formalmente abertas nos nomes dos dois ex-presidentes.

Lula e Dilma negaram as acusações.

O relato de Joesley é uma delação e deve ser tratado como tal.

Mas o mecanismo descrito demonstra uma questão elementar para qualquer investigação financeira: o beneficiário econômico alegado e o titular formal de uma conta podem ser pessoas diferentes.

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Vorcaro diz que pagamento relacionado a Lula foi “por fora”, então porque Lula quer abrir sigilos?

O mesmo problema reaparece, sob outra forma, no caso Banco Master.

Daniel Vorcaro afirmou em gravação divulgada pela revista Veja ter destinado recursos ao financiamento de um documentário sobre Lula.

Ao comparar a operação com outro patrocínio, afirmou:

“O do Lula foi por fora, foi errado.”

Segundo o relato apresentado por Vorcaro, seriam R$ 30 milhões em espécie relacionados ao documentário, além de outro valor destinado ao Instituto Lula.

A Veja submeteu a gravação a perícia e informou que o exame confirmou a autenticidade do áudio atribuído a Vorcaro.

É uma distinção fundamental: a perícia confirma que Vorcaro fez aquelas declarações. Não transforma automaticamente tudo o que ele relatou em fato criminal comprovado.

Os citados negam irregularidades, e as acusações ainda dependem de investigação e comprovação independente.

Para o debate sobre sigilo bancário, porém, há um dado objetivo: a própria acusação descreve dinheiro em espécie e pagamento “por fora”.

Se o dinheiro não passou pela conta pessoal do suposto beneficiário, abrir apenas essa conta não seria suficiente para localizar a operação descrita.

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Marcola, braço direito de Lula: pagar as contas de alguém sem depositar dinheiro para ele

Uma investigação recente da Polícia Federal apresenta outro exemplo.

Segundo a apuração, Roberta Luchsinger efetuou pagamentos que beneficiaram Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula.

Entre eles estavam faturas, boletos e despesas relacionadas a financiamento de veículo. A lobista do INSS Roberta Lucsinger, melhor amiga de Lulinha pagava boletos de Marcola, Comprou joias de luxo para ele e obra de arte caríssima, segundo a Polícia Federal, estas são formas de repassar dinheiro sem usar contas bancária.

O mecanismo é simples: em vez de transferir determinado valor para a conta do beneficiário, um terceiro paga diretamente sua despesa.

A defesa de Marcola afirma que os valores correspondiam a um empréstimo pessoal posteriormente quitado e nega irregularidades.

Não há condenação que permita classificar os pagamentos como corrupção.

Mas o episódio demonstra objetivamente por que um extrato bancário pode não registrar determinado benefício econômico como entrada de dinheiro.

Se outra pessoa paga diretamente seu cartão, boleto, financiamento ou despesa, o benefício existe economicamente sem que apareça uma transferência equivalente em sua conta.

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E o sigilo telefônico de quem afirma não usar celular?

A promessa de Lula inclui também a abertura de seu sigilo telefônico.

Há uma particularidade conhecida: o próprio presidente já afirmou publicamente que não utiliza celular próprio regularmente.

Em diferentes ocasiões, Lula relatou evitar o aparelho por segurança e recorrer a assessores para determinadas comunicações.

Abrir o sigilo de uma linha pouco utilizada ou inexistente em nome próprio obviamente não produz a mesma quantidade de informação que analisar os meios de comunicação efetivamente utilizados.

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Abrir sigilo, mas não é certificado automático de inocência

O mesmo vale para Flávio Bolsonaro ou qualquer candidato submetido a questionamentos patrimoniais: quanto maior o acesso legítimo das autoridades a informações relevantes, maior a possibilidade de esclarecer suspeitas.

O problema surge quando a abertura de uma conta bancária é apresentada politicamente como se pudesse, sozinha, provar a inexistência de qualquer irregularidade.

Lula poderia sugerir abrir sigilo do instituto lula também, embora na afirmação de vorcaro, “foi por fora em dinheiro”

Não pode.

Uma conta revela depósitos, transferências, pagamentos e patrimônio formal.

Mas não necessariamente revela:

dinheiro entregue em espécie;

contas mantidas formalmente em nome de terceiros;

recursos registrados por offshore de outra pessoa;

boletos e despesas pessoais pagos diretamente por terceiros;

ou movimentações realizadas por intermediários.

É exatamente por isso que investigações financeiras seguem o dinheiro — e não apenas o CPF que aparece no cabeçalho de um extrato.

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O momento escolhido para o gesto também importa. Lula está perdendo nas pesquisas e denuncias recentes pesam contra ele

O anúncio ocorre nos últimos cinco dias de uma eleição apertada.

Levantamentos divulgados nesta reta final mostram Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula na maioria das pesquisas nacionais recentes.

Nesta terça-feira, o Real Time Big Data apontou Flávio com 48% das intenções totais de voto e Lula com 45%. Considerados apenas os votos válidos, são 52% contra 48%.

O cenário permite estabelecer o contexto político: Lula chega aos últimos dias da campanha tentando reverter uma desvantagem numérica registrada na maior parte das pesquisas recentes e transformou a abertura dos sigilos em uma das mensagens de sua reta final.

O eleitor pode considerar o gesto positivo. Mas também pode confrontá-lo com o histórico.

Meses atrás, quando a CPMI decidiu acessar compulsoriamente os dados bancários e fiscais de Lulinha, integrantes da base governista tentaram anular a votação e sua defesa posteriormente conseguiu suspender a medida no Supremo.

No passado, Joesley Batista descreveu recursos destinados contabilmente a Lula mantidos em conta de offshore controlada pelo próprio empresário.

Agora, Daniel Vorcaro afirma ter feito pagamentos “por fora” e em dinheiro vivo relacionados a um documentário sobre o presidente e ao Instituto Lula.

E uma investigação recente da PF mostrou como despesas de uma pessoa podem ser pagas diretamente por terceiros sem que o dinheiro seja depositado primeiro em sua conta.

São episódios juridicamente diferentes e nenhum deles autoriza condenações por associação.

Mas todos conduzem à mesma conclusão factual:

abrir o sigilo bancário é uma medida de transparência? Não é, sozinho, prova de que dinheiro ou benefícios jamais circularam fora daquela conta.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Estrategista focada em proteger o investidor pessoa física dos conflitos de interesse dos grandes bancos e corretoras. Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado de Capitais. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia
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