Lobista que levou Vorcaro ao Planalto transforma crédito de R$ 770 milhões contra o Banco do Brasil em capital de empresa

INVESTIDORES BRASIL

Empresa de Julio Cezar Avelino saltou de R$ 10 mil para R$ 770,3 milhões de capital social usando direitos de uma ação contra o Banco do Brasil; BB afirma que não há valor líquido fixado e contesta a titularidade dos créditos

Um crédito judicial contestado contra o estatal Banco do Brasil (BBAS3) foi usado para elevar de R$ 10 mil para R$ 770,3 milhões o capital social de uma empresa controlada pelo lobista Julio Cezar Miranda Avelino.

Avelino ganhou projeção por ter levado Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, a uma reunião no Palácio do Planalto com Lula em março de 2024.

Agora, documentos registrados na Junta Comercial de São Paulo mostram outro movimento de grande dimensão: em 11 de junho de 2026, a Exclusivo Participações multiplicou seu capital por mais de 77 mil vezes.

Não houve, porém, entrada equivalente a R$ 770 milhões em dinheiro.

O aumento foi integralizado com direitos creditórios derivados de uma disputa judicial contra o Banco do Brasil iniciada há mais de duas décadas e cujo valor final continua sem definição.

Segundo o BB, a liquidação está suspensa, nenhuma perícia judicial foi realizada e não existe valor líquido fixado que permita estimar eventual condenação.

LEIA: Governo Lula compra títulos sem proteção do Banco Master, através do Banco estatal da Amazônia

Resumo Executivo

A Exclusivo Participações elevou seu capital de R$ 10 mil para R$ 770.343.156 em junho de 2026.

O aumento ocorreu por meio de direitos creditórios vinculados a uma ação contra o Banco do Brasil, e não com um aporte de R$ 770 milhões em dinheiro.

ACESSO AO GRUPO VIP INVESTIDORES BRASIL

O próprio banco afirma que não existe atualmente valor líquido estabelecido pela Justiça e contesta as cessões dos créditos.

Mesmo assim, os R$ 770,3 milhões já constam formalmente como capital social da companhia e podem produzir efeitos na avaliação econômico-financeira da empresa.

SAIBA MAIS: Lobista do INSS anuncia delação, diz Lula mente e não será poupado, nem Lulinha e relata reuniões do filho do presidente com ministros

De R$ 10 mil para R$ 770 milhões

A mudança foi registrada em 11 de junho de 2026.

Além do aumento do capital, a Exclusivo deixou de ser uma sociedade limitada e passou a funcionar como sociedade anônima de capital fechado.

A sede foi transferida para a avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, e Avelino tornou-se o único acionista e CEO da companhia.

O movimento alterou completamente a dimensão formal da empresa:

Capital anterior: R$ 10.000
Capital registrado após a operação: R$ 770.343.156
Multiplicação: mais de 77 mil vezes

O ativo utilizado para sustentar esse salto foi um conjunto de direitos creditórios relacionados ao processo nº 0118548-98.2005.8.12.0001, que tramita na Justiça de Mato Grosso do Sul.

VEJA: Lula agradeceu presente recebido de Vorcaro enquanto Zanin barra liminar para CPI do Banco Master

De onde surgiu o crédito contra o Banco do Brasil

A disputa judicial começou em 2005 e envolve a Giordani Costa Hotéis e Turismo.

Sua origem remonta a um empréstimo concedido pelo Banco do Brasil em 1992 para ampliação de uma pousada na região do Pantanal.

A empresa alegou posteriormente que a liberação dos recursos não ocorreu conforme o contratado e que os problemas provocaram prejuízos e a perda do empreendimento.

Em março de 2006, uma decisão judicial determinou que o Banco do Brasil indenizasse os proprietários pela perda do negócio e por danos à imagem.

Os direitos relacionados ao eventual recebimento dessa indenização passaram posteriormente por cessões.

A dimensão alcançada pelo caso chama atenção. Segundo o Poder360, a dívida discutida originalmente era de aproximadamente R$ 907 mil, equivalente a cerca de R$ 2,82 milhões quando atualizada pelo IPCA até setembro de 2026.

SAIBA MAIS: Quem usou o jato de Vorcaro? FAB impõe sigilo de até 100 anos, proíbe brasileiros de saber a verdade, e reacende promessa de Lula…

Os R$ 770 milhões não foram fixados pela Justiça

Não existe uma decisão dizendo que a Exclusivo Participações possui R$ 770 milhões a receber do Banco do Brasil.

Esse foi o valor atribuído aos direitos creditórios usados para integralizar o capital da companhia.

Em nota, o Banco do Brasil afirmou que a liquidação está suspensa em primeira instância enquanto o processo aguarda definição no Superior Tribunal de Justiça sobre a legitimidade para executar o crédito.

O banco informou ainda que nenhuma perícia judicial foi realizada e que não existem valores depositados em favor da parte credora.

O BB também contesta as cessões e afirma que a discussão sobre a titularidade dos direitos continua pendente no STJ.

Assim, a questão não é a legalidade de usar direitos creditórios para integralizar capital, procedimento permitido, mas quanto esse ativo realmente valerá quando a disputa terminar.

Se o valor reconhecido for inferior ao registrado, haverá perda econômica para a companhia. Em um cenário no qual a titularidade dos créditos não seja reconhecida, o impacto poderá ser ainda maior.

Por que R$ 770 milhões de capital fazem diferença

A operação produz um efeito que vai além da contabilidade.

Há uma enorme diferença entre uma companhia registrada com R$ 10 mil de capital social e outra que passa a apresentar R$ 770 milhões.

Capital e patrimônio líquido podem ser considerados em operações financeiras, negociações empresariais, fusões, aquisições e determinados processos de contratação.

O próprio Poder360 aponta que o capital registrado pode ajudar a companhia a preencher exigências econômico-financeiras em algumas licitações e também influenciar sua avaliação em uma eventual venda ou fusão.

Isso não significa que a empresa tenha R$ 770 milhões disponíveis.

Significa que um ativo avaliado nesse montante passou a integrar formalmente sua estrutura de capital.

Para quem analisa a capacidade financeira da companhia, portanto, o número registrado isoladamente não conta toda a história.

O elo de Avelino com Vorcaro e o Planalto

Julio Cezar Avelino também aparece em um capítulo relevante da trajetória recente de Daniel Vorcaro.

Em 1º de março de 2024, Avelino levou o fundador do Banco Master a uma reunião na Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, no Palácio do Planalto.

Na época, a pasta era comandada por Alexandre Padilha, atualmente ministro da Saúde.

Posteriormente, a revista Veja publicou que Vorcaro teria relatado, em proposta de colaboração apresentada às autoridades, supostas negociações envolvendo representantes da Secretaria de Relações Institucionais e acesso a fundos de pensão de empresas estatais.

LEIA: Vorcaro relata propinas ao ministro Padilha e Vaccari em negociação com fundos de pensão estatais

A proposta de delação não foi aceita sob o argumento de falta de provas, segundo a reportagem.

Padilha negou que ele ou integrantes de sua equipe tenham negociado propina com Vorcaro e classificou as acusações como falsas.

Processo já provocou punição de magistrado

A disputa da qual surgiram os créditos também possui um histórico judicial incomum.

Em agosto de 2024, o Conselho Nacional de Justiça aplicou pena de disponibilidade ao desembargador Geraldo de Almeida Santiago, que havia atuado no caso quando era juiz.

O processo disciplinar tratou de descumprimento reiterado de decisões de instância superior envolvendo penhoras e transferências de valores do Banco do Brasil.

O próprio CNJ registra que a origem do conflito remonta a uma execução promovida pelo BB contra a empresa em 1996, no valor de R$ 906.816,92 naquela data.

O STJ também já analisou diferentes capítulos da extensa batalha judicial envolvendo o banco e as empresas relacionadas ao processo.

Quem assume o risco dos R$ 770 milhões

Hoje, os R$ 770,3 milhões existem como capital social registrado da Exclusivo Participações.

O que permanece indefinido é quanto dos direitos que sustentam esse capital poderá efetivamente ser convertido em dinheiro.

Se a disputa produzir valor menor, a perda fica com a empresa detentora do ativo.

Se o crédito for reconhecido e pago, o desembolso caberá ao Banco do Brasil, uma companhia aberta controlada pela União e que também possui milhões de acionistas privados.

É exatamente por isso que o caso interessa ao investidor.

Não se trata apenas de uma disputa judicial antiga.

Trata-se de uma empresa que, em um único movimento societário, passou de R$ 10 mil para R$ 770 milhões de capital registrado utilizando como principal ativo um crédito contra um dos maiores bancos do país cujo valor final ainda não foi definido pela Justiça.

O número de R$ 770 milhões já está no papel.

Quanto dele efetivamente existe em valor econômico continua sendo a pergunta de R$ 770 milhões.

O que o mercado não quer que você saiba

Chega de receber informação controlada?

Receba gratuitamente no seu e-mail aquilo que o mercado sabe mas não divulga.

  • ✓ Informação independente
  • ✓ O que as instituições financeiras não querem que o brasileiro saiba
  • ✓ Tome suas decisões sem depender de influenciadores pagos pelo mercado
  • ✓ Entenda quem ganha e quem perde em cada movimento, e porque
Publicidade
Publicidade
Lucy Costa
Lucy Costa
Jornalista especializada em finanças e estatística. Você gosta de meus conteúdos? Entre em contato; email: [email protected]
spot_img

Últimas

Publicidade

RELACIONADOS

PUBLICIDADE