Roberta Luchsinger, alvo de investigações que nasceram a partir da Operação Sem Desconto e alcançam também Lulinha e o “Careca do INSS”, acusa Lula de mentir, anuncia intenção de fazer delação e transforma antiga proximidade política em confronto aberto na reta final da eleição
A empresária e lobista do INSS Roberta Luchsinger, antiga apoiadora de Luiz Inácio Lula da Silva, rompeu publicamente com o presidente e afirmou que ele “não pode continuar na Presidência”.
Luchsinger não é apenas uma aliada política. Ela entrou no radar da Polícia Federal durante a Operação Sem Desconto, que apura o esquema de fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS, e suas relações com Antônio Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, passaram a ser investigadas.
A partir do material apreendido, novas frentes de investigação foram abertas para apurar possíveis crimes de tráfico de influência e corrupção envolvendo interesses privados e órgãos do governo Lula. Lulinha nega irregularidades.
Agora, Luchsinger afirma estar disposta a fazer uma colaboração premiada e diz que não pretende poupar nem o presidente nem o filho dele. Não há, até o momento, informação pública de acordo de delação firmado ou homologado.
Resumo Executivo
- Roberta Luchsinger afirmou que Lula “não pode continuar na Presidência” e acusou o presidente de mentir.
- A empresária foi apoiadora de Lula e aparece em diferentes registros públicos ao lado do petista.
- Luchsinger entrou no radar da PF no âmbito da Operação Sem Desconto, que investiga as fraudes bilionárias envolvendo benefícios do INSS.
- A investigação procura esclarecer sua relação com Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e com Lulinha.
- Material apreendido pela PF deu origem a novas investigações sobre possíveis práticas de tráfico de influência e corrupção junto ao governo federal.
- Luchsinger afirma que pretende fazer uma colaboração premiada e que poderá fornecer informações ainda não conhecidas pelos investigadores.
- Lula e Lulinha negam as acusações e irregularidades.
- O ponto decisivo daqui para frente será saber se as declarações da empresária serão acompanhadas por documentos, mensagens, registros financeiros ou outros elementos capazes de corroborá-las.
Por que Luchsinger está ligada ao caso INSS
Roberta Luchsinger entrou diretamente no radar da Polícia Federal no âmbito da Operação Sem Desconto, investigação que apura descontos indevidos em aposentadorias e pensões e que colocou Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, entre seus principais personagens.
Em dezembro de 2025, Luchsinger foi alvo de uma fase da operação. Posteriormente, prestou depoimento à PF para esclarecer sua relação com Antunes e com Lulinha.
Relatórios policiais passaram a analisar mensagens, relações profissionais e movimentações envolvendo a empresária.
Luchsinger contesta a interpretação de que teria atuado no esquema de descontos contra aposentados. Na entrevista à CNN, afirmou que conheceu Antônio Camilo como empresário do setor de saúde e farmacêutico e que prestou serviços relacionados a mudanças regulatórias envolvendo produtos à base de canabidiol.
Ela também reconheceu ter apresentado Antunes a Lulinha, mas afirmou que o encontro teve caráter social e que eventuais negócios posteriores entre os dois não passaram por ela.
O vínculo com o escândalo do INSS, portanto, é investigativo e factual: Luchsinger é alvo da Operação Sem Desconto, teve seu celular apreendido e passou a ter relações e mensagens analisadas pela PF.
Foi justamente o material recolhido nessas investigações que abriu novas frentes policiais.
Do escândalo do INSS ao entorno de Lula: por que Luchsinger se tornou peça central
A dimensão do caso ajuda a explicar por que Roberta Luchsinger deixou de ser apenas uma antiga apoiadora de Lula para se tornar personagem relevante em investigações da Polícia Federal.
A Operação Sem Desconto nasceu para apurar um esquema nacional de cobranças associativas não autorizadas diretamente sobre aposentadorias e pensões. Entre 2019 e 2024, entidades envolvidas fizeram cerca de R$ 6,3 bilhões em descontos que passaram a ser analisados pelas autoridades. Em uma amostra da Controladoria-Geral da União, 98% dos aposentados e pensionistas entrevistados disseram não ter autorizado as cobranças.
Foi dentro dessa investigação que apareceu a relação financeira entre Luchsinger e Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado pela PF como um dos principais operadores do esquema.
Segundo a investigação, uma empresa ligada a Antunes transferiu R$ 1,5 milhão, em cinco parcelas de R$ 300 mil, para uma companhia de Luchsinger. Em uma das conversas apreendidas, ao ser questionado sobre quem receberia determinada parcela, Antunes respondeu que o dinheiro seria para “o filho do rapaz”. A Polícia Federal passou a investigar se a referência poderia ser a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Luchsinger nega ter repassado recursos do Careca ao filho do presidente, e essa hipótese permanece sob apuração.
A ligação entre Luchsinger e Lulinha, entretanto, não era ocasional. A própria empresária afirma ser amiga dele há muitos anos, desde antes da chegada de Lula à Presidência. Em mensagens apreendidas pela PF, chegou a tratar Lulinha como “irmão” e a falar em uma “sociedade” entre os dois. A Polícia Federal investiga se existiu uma sociedade oculta; Luchsinger e a defesa de Lulinha negam relação profissional irregular.
O círculo de relações chegou também ao gabinete presidencial.
Documentos obtidos pela PF mostram que Luchsinger pagou R$ 217.098 em despesas de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, chefe de gabinete pessoal de Lula de janeiro de 2023 até julho de 2026. Entre os gastos identificados estavam faturas de cartão de crédito, parcelas de financiamento de automóvel, seguro e joias avaliadas em R$ 9,2 mil.
Marcola confirmou ter recebido valores de Luchsinger, mas afirmou que se tratava de um empréstimo pessoal posteriormente quitado. A investigação analisa também mensagens nas quais o então chefe de gabinete recebia demandas da empresária e a atualizava sobre agendas e contatos dentro do governo.
É essa sequência que torna o episódio politicamente sensível: o Careca do INSS aparece transferindo dinheiro para uma empresa de Luchsinger; Luchsinger mantém antiga amizade com Lulinha e aparece em investigações ao lado dele; e a mesma empresária pagou despesas pessoais do homem que comandava o gabinete de Lula no Planalto.
Nenhuma dessas conexões, isoladamente, comprova participação de Lula ou de seu filho no esquema de descontos contra aposentados. Mas elas explicam por que a Polícia Federal continua investigando o fluxo de dinheiro, as relações entre os personagens e a eventual existência de tráfico de influência dentro do governo.
Nesse contexto, a decisão de Luchsinger de romper com Lula e anunciar que pretende fazer uma colaboração premiada ganha peso muito maior: ela afirma conhecer por dentro justamente a rede de relações que os investigadores tentam reconstruir.
Mensagens apreendidas abriram novas investigações
A análise do celular de Luchsinger revelou conversas com Lulinha sobre reuniões e negócios.
A partir desse material, a Polícia Federal solicitou a abertura de novos inquéritos para investigar a possibilidade de atuação de particulares junto a órgãos públicos em benefício de empresas.
Entre as áreas analisadas estão saúde e tecnologia.
Uma das investigações procura esclarecer se houve tentativa de influência em temas relacionados ao Ministério da Saúde e à regulamentação ou comercialização de produtos derivados de cannabis medicinal.
Outra frente envolve interesses relacionados à Dataprev, empresa pública responsável por parte relevante da infraestrutura tecnológica da Previdência.
Em agosto, a CNN informou que Lulinha estava sob investigação em três inquéritos por suspeitas de tráfico de influência e corrupção. O filho do presidente nega ter atuado irregularmente.
O ponto de origem dessas novas apurações foi material descoberto durante as investigações relacionadas ao INSS.
Ex-aliada e lobista do INSS diz que Lula “não pode continuar”
Foi nesse contexto que Luchsinger concedeu entrevista à CNN Brasil em 17 de outubro e rompeu abertamente com Lula.
A empresária acusou o presidente de mentir e afirmou que ele “não pode continuar na Presidência”.
A intensidade da declaração chama atenção pelo histórico político de quem a fez.
Luchsinger esteve publicamente próxima do campo político lulista durante anos. Há registros dela ao lado de Lula em diferentes momentos entre 2018 e 2023 e publicações em suas próprias redes sociais demonstrando apoio ao petista na eleição de 2022.
Ela também declarou que se expôs publicamente em defesa de Lula quando o petista estava preso.
Agora, tornou-se uma das personagens mais incômodas para o presidente justamente quando as investigações envolvendo seu filho avançaram para suspeitas de tráfico de influência.
O rompimento ganhou força depois de Lula chamá-la de “pilantra”
A ruptura pública se aprofundou depois que Lula passou a atacar Luchsinger ao comentar as investigações.
O presidente chamou a empresária de “pilantra” e de “Vorcaro feminino”, referência a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.
Luchsinger reagiu afirmando que o presidente sabia quem ela era e passou a confrontar publicamente a versão de Lula sobre a relação entre os dois.
A controvérsia já havia começado anteriormente.
Durante entrevista ao Jornal Nacional, em agosto, Lula disse nunca ter visto ou conversado com Luchsinger.
Depois da declaração, vieram a público mais de dez fotografias publicadas pela própria empresária em que aparece ao lado do presidente em ocasiões diferentes.
A campanha de Lula afirmou na ocasião que o presidente não mantinha relação nem interlocução com Luchsinger e que registros feitos em eventos não demonstrariam o contrário.
Luchsinger diz que Lulinha esteve “inúmeras vezes” com ministros
A parte potencialmente mais relevante para as investigações não está nas críticas pessoais feitas ao presidente, mas nas declarações de Luchsinger sobre a atuação de Lulinha dentro do governo.
Ela afirmou à CNN que o filho de Lula esteve diversas vezes com ministros da administração do pai e mencionou, entre outros nomes, o então ministro da Educação Camilo Santana.
A Polícia Federal já analisa mensagens encontradas no celular da empresária que mencionam reuniões e negócios envolvendo Lulinha.
O que precisa ser estabelecido é se esses contatos permaneceram dentro de relações pessoais e institucionais legítimas ou se houve utilização de influência política para favorecer interesses privados.
automática da presença operacional do Atacadão.
Viagem de Lulinha paga pelo “Careca do INSS” entrou no quebra-cabeça
Outro elemento já confirmado acrescentou peso às investigações.
A defesa de Lulinha reconheceu perante o STF que Antônio Camilo Antunes pagou despesas de uma viagem do filho do presidente a Portugal.
Os advogados afirmaram, entretanto, que Lulinha não fechou negócios nem recebeu pagamentos de Antunes e que desconhecia qualquer envolvimento do empresário com o esquema investigado no INSS.
Segundo a defesa, Lulinha conheceu Antunes por intermédio de Roberta Luchsinger.
A existência da viagem não comprova tráfico de influência ou participação nas fraudes previdenciárias, mas constitui um dos elementos considerados pelos investigadores ao reconstruir as relações entre os personagens.


