Banco reduziu em R$ 0,50 sua projeção para três meses e vê espaço para o dólar entre R$ 4,50 e R$ 4,80; revisão mostra quanto política fiscal, governabilidade e eleição já estão incorporadas ao preço dos ativos brasileiros
O Goldman Sachs fez uma forte revisão de sua projeção para o câmbio após o primeiro turno da eleição presidencial e passou a estimar o dólar a R$ 4,70 em três meses, ante R$ 5,20 anteriormente.
Para seis meses, a previsão caiu de R$ 5,10 para R$ 4,75. No horizonte de 12 meses, passou de R$ 5,00 para R$ 4,80.
A magnitude da revisão chama atenção porque a estrutura econômica brasileira não mudou na mesma velocidade. O que mudou foi a percepção dos investidores sobre risco fiscal, governabilidade e direção da política econômica depois da eleição, com Flávio Bolsonaro a frente.
Na prática, o relatório do Goldman ajuda a medir quanto do preço atual do dólar pode estar relacionado ao prêmio exigido pelo mercado diante das incertezas sobre as contas públicas brasileiras.
Resumo Executivo
O Goldman Sachs reduziu de R$ 5,20 para R$ 4,70 sua projeção para o dólar em três meses.
O banco considera plausível uma faixa entre R$ 4,50 e R$ 4,80, caso o próximo governo confirme uma política fiscal considerada mais crível pelo mercado.
A eleição alterou a percepção sobre governabilidade e capacidade de aprovação de medidas econômicas, mas a sustentação de um real mais forte dependerá da execução.
Fiscal, juros, ambiente internacional e composição da equipe econômica serão os principais fatores observados depois do segundo turno.
Importadores, empresas endividadas em moeda estrangeira e setores sensíveis à inflação tendem a se beneficiar de um real mais valorizado. Exportadores podem enfrentar efeito inverso.
SAIBA MAIS: Vorcaro relata pagamento de milhões ao Instituto Lula para filme em troca de negociação com fundos de pensão
Por que o Goldman cortou R$ 0,50 da projeção
A revisão de R$ 5,20 para R$ 4,70 no horizonte de três meses mostra que o Goldman passou a enxergar espaço para uma retirada relevante do prêmio de risco embutido na moeda brasileira.
A reação do mercado depois do primeiro turno com Flávio Bolsonaro a frente reforçou essa leitura. O dólar chegou a negociar abaixo de R$ 5 no primeiro pregão após a votação, em um movimento acompanhado de valorização de outros ativos brasileiros.
Parte desse avanço foi posteriormente devolvida, o que mostra que o mercado ainda trabalha com um cenário aberto.
O ponto central, porém, permanece: mudanças na percepção sobre a condução da política econômica conseguem alterar rapidamente o preço do real, mesmo antes de qualquer mudança concreta nas contas públicas.
Fiscal será o verdadeiro teste
A sustentação de um dólar mais baixo dependerá principalmente do que acontecer depois da eleição.
O mercado deverá observar a composição da equipe econômica, as metas para resultado primário e dívida pública, o controle das despesas, as reformas propostas e a capacidade do governo de aprová-las no Congresso.
Nesse contexto, a governabilidade passou a ter valor econômico direto.
Uma administração com capacidade de formar maioria parlamentar tende, em tese, a ter melhores condições de executar reformas. Mas essa percepção só permanece positiva se for acompanhada por medidas concretas.
Por isso, o dólar a R$ 4,70 deve ser entendido como um cenário condicionado à credibilidade fiscal, e não como uma cotação garantida.
Até onde o real poderia se fortalecer
O Goldman considera possível uma faixa entre R$ 4,50 e R$ 4,80 em um ambiente de melhora da percepção fiscal.
Uma cotação próxima de R$ 4,80 refletiria a retirada de parte importante do prêmio de risco associado ao Brasil.
Para o dólar caminhar em direção a R$ 4,50, porém, o cenário precisaria ser ainda mais favorável.
Além de medidas fiscais consideradas consistentes, o ambiente internacional teria de colaborar, com menor pressão do dólar no exterior, fluxo para mercados emergentes e ausência de choques relevantes em juros e atividade global.
O que pode frustrar a projeção
O primeiro risco é fiscal.
Se o próximo governo for Lula novamente, não irá confirmar as expectativas de ajuste das contas públicas, e parte do prêmio de risco pode retornar rapidamente ao câmbio.
O segundo está na trajetória dos juros. Uma redução forte da Selic diminui a diferença entre os juros brasileiros e os praticados nas economias desenvolvidas, reduzindo a atratividade do chamado carry trade.
O terceiro vem do exterior. Alta dos juros americanos, fortalecimento global do dólar ou aumento da aversão ao risco podem pressionar o real mesmo em um cenário doméstico favorável.
Também há fatores sazonais, como remessas de empresas para o exterior no fim do ano, capazes de elevar temporariamente a demanda por moeda americana.

Quem ganha com um real mais forte
Um dólar persistentemente mais baixo tende a beneficiar empresas dependentes de importações de máquinas, componentes, medicamentos, produtos químicos e outros insumos cotados em moeda estrangeira.
Companhias com dívidas em dólar também podem ganhar, dependendo da estrutura de proteção cambial.
Para o consumidor, o efeito pode aparecer em produtos importados, viagens internacionais e menor pressão sobre alguns preços domésticos.
Um câmbio mais favorável também ajuda o Banco Central no combate à inflação.
Quem pode perder
Exportadoras recebem parte relevante de suas receitas em dólar. Quando a moeda americana se desvaloriza, cada dólar faturado passa a representar menos reais.
O impacto varia conforme custos, preços internacionais e políticas de hedge, mas setores como agronegócio, mineração e papel e celulose acompanham o câmbio de perto por esse motivo.
Investidores brasileiros com patrimônio dolarizado também podem registrar menor retorno quando medido em reais.
Depois da eleição, o mercado cobrará execução
A principal mensagem da revisão do Goldman não está apenas nos R$ 4,70.
Está na velocidade com que o banco alterou sua avaliação do câmbio depois da mudança de percepção política.
Isso mostra que uma parcela importante da cotação do dólar continua associada ao risco que o mercado atribui à condução das contas públicas brasileiras.
A eleição pode retirar parte desse prêmio.
Mas, depois das urnas, expectativas deixam de ser suficientes.
O mercado passará a cobrar equipe econômica, orçamento, trajetória da dívida, reformas e capacidade de execução.
É nesse momento que a projeção do Goldman será efetivamente colocada à prova.



