
Banco Central aumenta risco de descumprimento da meta, enquanto relatório da Instituição Fiscal Independente aponta déficits persistentes, juros elevados e deterioração das contas públicas para próximo governo e década.
A economia brasileira recebeu, no mesmo dia, dois importantes alertas sobre o cenário macroeconômico. Enquanto o Banco Central elevou de 30% para 79% a probabilidade de a inflação ultrapassar o teto da meta em 2026, a Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado Federal, projetou um IPCA de 5% para o ano e traçou um cenário de deterioração gradual das contas públicas. O relatório também prevê crescimento contínuo da dívida pública da gestão Lula, manutenção de juros elevados por vários anos e dificuldade crescente para o cumprimento das metas fiscais, colocando o equilíbrio das finanças públicas entre os principais desafios do próximo governo.
A projeção foi divulgada no mesmo dia em que o próprio Banco Central aumentou significativamente a probabilidade de descumprimento da meta inflacionária, reforçando a percepção de que o combate à alta dos preços continua sendo um dos principais desafios da economia brasileira.
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O problema vai além da inflação
Embora o número de 5% para o IPCA chame atenção, o ponto central do relatório está no diagnóstico fiscal. Segundo a IFI, o Brasil entra no próximo ciclo presidencial enfrentando déficits primários recorrentes, crescimento contínuo da dívida pública e dificuldades para cumprir metas fiscais. Existem especialistas que já afirmam que a inflação real super 8% atualmente.
O documento descreve um cenário marcado por:
- Déficits primários permanentes;
- Crescente dificuldade de ajuste das contas públicas;
- Pressão contínua sobre a dívida pública;
- Necessidade de juros elevados por mais tempo;
- Menor margem de manobra para futuros governos.
A avaliação ganha peso por partir de um órgão técnico criado justamente para monitorar a sustentabilidade fiscal do país de forma independente.
Como o Brasil chegou ao atual cenário fiscal?
O alerta da Instituição Fiscal Independente (IFI) ocorre após uma mudança significativa na trajetória das contas públicas brasileiras nos últimos anos.
Depois do forte déficit provocado pela pandemia em 2020, o setor público iniciou um processo de recuperação fiscal na gestão de Jair Bolsonaro. Em 2021, foi registrado um superávit primário de aproximadamente R$ 64,7 bilhões (0,73% do PIB). Em 2022, o resultado melhorou novamente, alcançando R$ 126 bilhões (1,28% do PIB), o melhor desempenho fiscal desde antes da crise sanitária, segundo dados do Banco Central reunidos pelo Ministério da Fazenda.
Naquele período, a melhora foi impulsionada por uma combinação de forte arrecadação de impostos, recuperação da atividade econômica, inflação — que aumentou a receita nominal — e um crescimento mais contido das despesas primárias em relação aos anos de pandemia. O Governo Bolsonaro também encerrou 2022 com o primeiro superávit primário após vários anos de déficits das gestões anteriores.
A partir de 2023, porém, o cenário voltou a se deteriorar. O Governo Lula registrou déficit primário de R$ 230,5 bilhões, enquanto o setor público consolidado fechou o ano com déficit superior a R$ 249 bilhões, revertendo o superávit observado em 2022. Entre os fatores apontados pelo Tesouro Nacional estiveram o pagamento extraordinário de precatórios, compensações a estados e outras despesas excepcionais, além do crescimento das despesas obrigatórias.
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Paralelamente, a dívida pública voltou a acelerar. com uma aumento exponencial dos gastos do governo Lula. É justamente essa tendência que preocupa a IFI. O novo Relatório de Acompanhamento Fiscal projeta que a Dívida Bruta do Governo Geral, estimada em 82,5% do PIB em 2026, poderá ultrapassar 100% do PIB em 2032 e atingir 115% do PIB em 2036 caso a trajetória atual não seja revertida por meio de resultados fiscais mais robustos.
Esse contexto ajuda a explicar por que o relatório afirma que o próximo governo deverá enfrentar um ambiente marcado por déficits recorrentes, juros elevados e crescente dificuldade para estabilizar a dívida pública.
Por que uma dívida de 115% do PIB preocupa economistas e investidores?
O percentual de dívida pública, isoladamente, não determina uma crise fiscal. Países desenvolvidos conseguem conviver com níveis elevados de endividamento porque possuem juros estruturalmente baixos, elevada credibilidade institucional e forte capacidade de financiamento.
No caso brasileiro, entretanto, o desafio é diferente. O país combina dívida crescente com uma das maiores taxas reais de juros do mundo, o que aumenta significativamente o custo para refinanciar os títulos públicos.
Quanto maior a dívida, maior tende a ser o gasto anual com pagamento de juros. Isso reduz a margem do governo para investir em infraestrutura, educação, saúde e outras políticas públicas, além de aumentar a sensibilidade das contas públicas a mudanças nas condições econômicas.
É justamente essa dinâmica que preocupa parte do mercado financeiro: se a trajetória da dívida continuar subindo sem um ajuste fiscal consistente, investidores podem exigir prêmios maiores para financiar o governo, pressionando ainda mais os juros e elevando o custo do crédito para empresas e famílias.
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Reforma Tributária pode ajudar a produtividade
Entre os fatores positivos considerados pela instituição está a implementação da Reforma Tributária sobre o consumo.
Segundo o relatório, a simplificação do sistema tributário tende a aumentar a eficiência econômica e a produtividade ao longo dos próximos anos. No entanto, os benefícios estruturais não eliminam os desafios imediatos das contas públicas.
A IFI também observa que estados e municípios poderão enfrentar impactos relevantes durante o período de transição do novo modelo tributário.
Juros altos devem permanecer por vários anos
Com a inflação ainda pressionada e as incertezas fiscais persistindo, a expectativa da IFI é de que a política monetária permaneça restritiva.
As projeções indicam:
- Selic em 14% ao final de 2026;
- Selic em 12% ao final de 2027;
- Taxa próxima de 8% apenas no médio prazo.
Na prática, isso significa que empresas, consumidores e o próprio governo continuarão enfrentando um custo elevado para tomar crédito ou refinanciar dívidas.
Para investidores, o cenário sugere um ambiente em que os ativos de renda fixa podem continuar oferecendo retornos reais relevantes por um período prolongado.
VEJA ABAIXO EVOLUÇÃO DOS JUROS NO BRASIL:

Crescimento econômico segue limitado
O relatório também projeta uma desaceleração gradual da atividade econômica. O Brasil é um dos países que tem apresentado o pior crescimento do mundo, especialmente da América Latina, desde 2023.
As estimativas apontam:
- PIB de 2% em 2026;
- PIB de 1,8% em 2027;
- Crescimento médio próximo de 2,3% nos anos posteriores.
Embora não represente recessão, o ritmo é considerado insuficiente para promover uma redução acelerada da dívida pública ou gerar expansão robusta da arrecadação.
A conta que preocupa o mercado
Talvez o dado mais sensível do relatório esteja na trajetória da dívida pública.
A IFI projeta que a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), que estava em 80,1% do PIB em abril de 2026, poderá atingir:
- 82,5% do PIB em 2026;
- 102% do PIB em 2032;
- 115% do PIB em 2036.
Segundo os diretores Marcus Pestana e Alexandre Andrade, apesar de alguma melhora em relação às projeções anteriores, a trajetória continua apontando para um crescimento persistente do endividamento.
O alerta é relevante porque, quanto maior a dívida, maior tende a ser o gasto do governo com juros, reduzindo recursos disponíveis para outras áreas e aumentando a vulnerabilidade fiscal do país.
O dado mais importante do relatório
Entre todas as projeções apresentadas, uma merece atenção especial.
A IFI calcula que seria necessário gerar um superávit primário equivalente a 2,1% do PIB por ano para estabilizar a relação dívida/PIB.
Hoje, o país está distante desse patamar.
Isso significa que a simples desaceleração do crescimento das despesas não seria suficiente. Seria necessário produzir resultados fiscais significativamente mais fortes para interromper o avanço da dívida pública.
O que o mercado deve acompanhar nos próximos meses
As projeções da IFI representam um cenário-base e poderão ser revisadas conforme novos dados econômicos forem divulgados. Entre os principais indicadores que investidores, economistas e agentes do mercado acompanharão estão:
- evolução mensal da inflação medida pelo IPCA;
- decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa Selic;
- cumprimento das metas fiscais previstas para 2026 e 2027;
- comportamento da arrecadação federal;
- evolução da dívida pública em relação ao PIB;
- efeitos da implementação da Reforma Tributária sobre o consumo;
- elaboração do Orçamento de 2027 e das projeções fiscais do próximo governo.
Esses indicadores serão determinantes para avaliar se o cenário projetado pela IFI começará a se confirmar ou se poderá sofrer alterações ao longo dos próximos trimestres.
O que isso significa para os brasileiros
Quando inflação elevada, juros altos e dívida crescente aparecem simultaneamente, o impacto acaba chegando à economia real. O Estado não produz nada, o brasileiro produz e repassa sua produção e dinheiro compulsoriamente através de impostos. Portanto, a dívida do Estado, governo, é a dívida do brasileiro indiretamente. Na maioria das vezes o brasileiro não teve nenhum beneficio real com o endividamento do governo que o cidadão terá que pagar.
O crédito tende a ficar mais caro, o consumo perde força, empresas reduzem investimentos e o governo encontra menos espaço para ampliar gastos sem gerar novas pressões sobre a inflação.
Por isso, o relatório da IFI funciona como um alerta antecipado para um desafio que provavelmente estará no centro do debate econômico durante o próximo mandato presidencial: como equilibrar as contas públicas já totalmente deterioradas sem comprometer crescimento, investimentos e estabilidade monetária.
A discussão não é apenas técnica. Ela influencia diretamente o valor do dinheiro no bolso dos brasileiros, o custo dos financiamentos e o potencial de crescimento da economia nos próximos anos.