Banco estatal lucrou R$ 3,9 bilhões no 2T26 e superou as projeções, mas inadimplência avançou para 5,61% e ROE ficou em apenas 8,3%; para analistas, recuperação do BB ainda não está comprovada
O Banco do Brasil (BBAS3) conseguiu entregar no segundo trimestre de 2026 exatamente o que, em tese, deveria animar o mercado: lucro acima das expectativas, recuperação do resultado e melhora da rentabilidade. Mesmo assim, as ações caíam nesta quinta-feira (13), mostrando que o investidor está olhando para outro lugar.
Por volta das 12h46, BBAS3 recuava 3,21%, a R$ 18,39, entre as maiores quedas do Ibovespa.
A explicação está na qualidade do crédito. O lucro líquido ajustado chegou a R$ 3,9 bilhões, alta de 3,3% em um ano e de 13,9% sobre o primeiro trimestre, superando o consenso do mercado. Mas a inadimplência acima de 90 dias avançou para 5,61%, enquanto a rentabilidade sobre o patrimônio ficou em apenas 8,3%.
Ou seja: o BB voltou a crescer, mas ainda não mostrou que conseguiu virar a página da deterioração da carteira de crédito.
O lucro veio melhor. O problema está em outro lugar
O lucro de R$ 3,9 bilhões ficou acima das projeções, que estavam na casa de R$ 3,5 bilhões a R$ 3,8 bilhões, dependendo da pesquisa utilizada.
A melhora foi sustentada por fatores como a evolução da margem financeira e o desempenho da tesouraria e do crédito para pessoas físicas. A margem financeira bruta chegou a aproximadamente R$ 27,5 bilhões, enquanto a carteira de crédito ampliada superou R$ 1,3 trilhão.
O problema é que o mercado não está avaliando apenas a capacidade do banco de gerar receita.
Está avaliando quanto custa transformar essa receita em lucro quando a inadimplência continua elevada.
Esse é o ponto que torna o balanço mais complexo do que o número do lucro sugere.
Inadimplência continua sendo o principal alerta
A inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,61%, contra 3,96% um ano antes e 5,05% no primeiro trimestre.
A deterioração também aparece no agronegócio, segmento estratégico para o Banco do Brasil. A inadimplência da carteira rural chegou a 6,27% em junho, refletindo dificuldades financeiras de produtores, problemas climáticos e aumento das recuperações judiciais no setor.
O quadro é particularmente relevante porque o BB possui uma exposição muito grande ao agronegócio. A carteira de crédito rural alcançou aproximadamente R$ 421,6 bilhões.
Ao mesmo tempo, o banco estima que até R$ 100 bilhões em créditos do agronegócio possam entrar nas renegociações previstas pela MP 1.376/2026, envolvendo potencialmente até 113 mil clientes.
A renegociação pode aliviar a pressão imediata sobre determinados produtores e permitir a recuperação de operações, mas o efeito econômico dependerá do volume efetivamente renegociado, das condições das operações e do comportamento dos clientes depois da repactuação.
O ROE mostra por que o mercado ainda não comemora
O retorno sobre o patrimônio líquido, conhecido como ROE, avançou cerca de 1 ponto percentual na comparação trimestral e chegou a 8,3%.
O número veio acima do consenso, que estava próximo de 7,1%, mas ainda é baixo quando comparado aos principais concorrentes privados. O Itaú apresentou ROE próximo de 24%, enquanto o Bradesco ficou em 16,1% no período.
Essa diferença é fundamental para entender a reação da BBAS3.
Um lucro de R$ 3,9 bilhões parece expressivo em termos absolutos. Mas o acionista precisa considerar quanto lucro o banco consegue gerar sobre o capital empregado na operação.
E, nesse quesito, o Banco do Brasil ainda está muito distante dos grandes bancos privados.
Portanto, a melhora do ROE é positiva, mas ainda não pode ser tratada como uma recuperação estrutural da rentabilidade.
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O mercado está esperando uma virada no crédito
A leitura dos analistas reforça essa cautela.
O Safra considerou que a surpresa positiva no lucro foi de qualidade limitada diante da deterioração dos ativos. Entre os pontos destacados estão a piora da inadimplência e a formação de novos créditos problemáticos.
O Bradesco BBI também manteve uma visão cautelosa, destacando que a deterioração da qualidade do crédito e a pressão sobre a cobertura ainda não oferecem sinais claros de estabilização.
A mensagem é direta: o lucro melhorou antes que o risco de crédito desse sinais convincentes de reversão.
Isso significa que o mercado pode continuar tratando os próximos resultados com cautela até que a trajetória da inadimplência comece efetivamente a mudar.
Banco do Brasil desacelera o crescimento do crédito
Outro ponto importante é que o BB não está tentando resolver o problema simplesmente acelerando a concessão de novos empréstimos.
A carteira de crédito ampliada cresceu apenas 1,5% em 12 meses e 0,6% na comparação trimestral, superando R$ 1,3 trilhão.
A estratégia indica maior seletividade na concessão de crédito, especialmente diante do ambiente de risco.
Para o banco, isso pode ajudar a preservar a qualidade futura da carteira.
Para o investidor, porém, existe um efeito colateral: crescimento mais lento do crédito também limita o potencial de expansão das receitas no curto prazo.
A recuperação, portanto, depende de encontrar um equilíbrio entre crescer e não repetir a deterioração observada nos últimos trimestres.
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O que pode destravar a ação BBAS3
O balanço do 2T26 deixa cinco indicadores especialmente importantes para o investidor acompanhar.
1. Inadimplência
O mercado precisa saber se os 5,61% representam um pico ou apenas mais uma etapa da deterioração.
2. Agronegócio
A evolução da inadimplência rural continuará sendo decisiva para o custo do crédito do BB.
3. Provisões
Uma estabilização das perdas permitiria que uma parcela maior da margem financeira se transformasse em lucro.
4. ROE
O retorno sobre o patrimônio precisa continuar subindo para que o BB reduza a enorme diferença de rentabilidade em relação aos concorrentes privados.
5. Renegociação das dívidas rurais
O impacto da MP 1.376/2026 será importante para determinar quanto da carteira problemática poderá ser recuperado sem gerar novas pressões relevantes sobre o resultado.
JCP: BB também anuncia R$ 584,9 milhões
Em paralelo ao balanço, o Banco do Brasil aprovou R$ 584,9 milhões em juros sobre capital próprio (JCP).
O anúncio reforça a capacidade de distribuição de recursos aos acionistas, mas não muda o principal debate em torno da ação.
Para o mercado, a questão central continua sendo a recuperação da rentabilidade e da qualidade da carteira.
Dividendos e JCP podem aumentar o retorno do acionista, mas não substituem a necessidade de uma melhora estrutural no desempenho operacional do banco.
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A leitura para quem tem BBAS3
O segundo trimestre trouxe uma notícia positiva, mas ainda não uma confirmação de virada.
O Banco do Brasil voltou a apresentar crescimento do lucro, superou as projeções e conseguiu melhorar seu ROE. Ao mesmo tempo, a inadimplência continua elevada e o agronegócio permanece como uma das principais fontes de pressão sobre a carteira.
Essa combinação explica por que BBAS3 pode cair mesmo diante de um balanço que, olhando apenas para o lucro, parece positivo.
O investidor precisa olhar além do R$ 3,9 bilhões.
A pergunta que determinará o próximo capítulo da ação é outra:
o Banco do Brasil está finalmente estabilizando o crédito ou apenas conseguindo compensar, por enquanto, uma carteira que ainda continua deteriorada?
Se a inadimplência começar a recuar, as provisões perderem pressão e o ROE continuar avançando, o resultado do 2T26 poderá ser posteriormente interpretado como o início de uma recuperação.
Se isso não acontecer, o lucro acima do esperado terá sido apenas uma melhora pontual em meio a um processo de recuperação ainda incompleto.
Os principais números do BB no 2T26
- Lucro líquido ajustado: R$ 3,9 bilhões
- Alta anual do lucro: 3,3%
- Alta sobre o 1T26: 13,9%
- ROE: 8,3%
- Inadimplência acima de 90 dias: 5,61%
- Inadimplência do agronegócio: 6,27%
- Carteira de crédito ampliada: acima de R$ 1,3 trilhão
- Margem financeira bruta: cerca de R$ 27,5 bilhões
- JCP aprovado: R$ 584,9 milhões
- Potencial de renegociação no agro: até R$ 100 bilhões
Em resumo: o Banco do Brasil entregou um lucro melhor do que o esperado, mas o mercado quer algo mais difícil de apresentar em um único trimestre: evidências de que a deterioração do crédito ficou para trás e de que a rentabilidade pode voltar a se aproximar dos grandes bancos privados.
Investimentos oferecem risco de perda do patrimônio, ganhos não são garantidos. Aprenda a fazer as próprias escolhas e proteger seu patrimônio. Conteúdo meramente informativo não configura recomendação.


