O BTG Pactual (BPAC11) iniciou a execução de garantia sobre três usinas solares da Rio Alto Energias Renováveis (RIOS3), no Complexo Santa Luzia, na Paraíba. Com 150 MW de capacidade, os ativos passam ao controle do banco. A medida foi tomada como fiador de um empréstimo de R$ 320,9 milhões junto ao Banco do Nordeste e faz parte do plano de recuperação extrajudicial da empresa, que busca reestruturar cerca de R$ 1,7 bilhão em dívidas.
A Rio Alto ainda tem o direito de recomprar esses ativos, mas sua prioridade atual é encontrar um comprador para toda a companhia até o fim de 2026.
XP também já executou garantias da Rio Alto
Este não é o primeiro movimento deste tipo envolvendo a Rio Alto. Anteriormente, o XP Investimentos já havia executado garantias e tomado o controle do Complexo Coremas, também na Paraíba. Ou seja, dois dos maiores bancos de investimento do Brasil (BTG e XP) já se tornaram “donos” de usinas solares da empresa por conta de dívidas não pagas.
O que é execução de garantia?
É o processo pelo qual o credor toma bens oferecidos como garantia quando o devedor não cumpre suas obrigações. No caso, tanto BTG quanto XP converteram créditos em ativos reais.
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Por que a Rio Alto enfrenta tantas dificuldades?
A companhia foi duramente impactada por dois problemas crônicos do setor renovável brasileiro:
- Curtailment (corte obrigatório de geração): Em 2025, o índice médio chegou a 20,6% da capacidade instalada (contra 9,6% em 2024), com picos de 35% em usinas solares.
- Modulação de energia: Redução de receita por causa da variação de preços conforme o horário de injeção de energia.
O que especialistas do setor estão dizendo? O caso Rio Alto não é visto como um incidente isolado, mas como sintoma de problemas estruturais mais profundos.
- Donato Filho, diretor-geral da Volt Robotics (consultoria especializada): “O Brasil jogou fora 20% do potencial de geração renovável em 2025, gerando prejuízo de R$ 6,5 bilhões. O curtailment está ameaçando a viabilidade econômica de muitos projetos.”
- Carlos Eduardo Lichtenberger Jr., diretor da Horiens: “Os números refletem desafios estruturais na transmissão e na integração das renováveis. O curtailment tende a se intensificar se os investimentos em infraestrutura não acompanharem o crescimento da capacidade instalada.”
- Executivos do setor eólico e solar (em entrevistas coletivas): Muitos apontam para a “expansão desordenada” das renováveis sem o devido planejamento de transmissão e armazenamento. Há forte crítica à lentidão regulatória da Aneel e do ONS na criação de mecanismos de flexibilidade (como baterias).
Especialistas também destacam o paradoxo brasileiro: corta-se energia limpa barata em alguns momentos enquanto se paga caro por térmicas em outros, o que encarece a conta de luz para o consumidor final.
O paradoxo da energia brasileira
Enquanto o ONS corta geração de usinas solares e eólicas por excesso pontual de oferta, o consumidor final paga contas mais caras quando a Aneel ativa bandeiras tarifárias amarela ou vermelha devido à baixa geração hidrelétrica e ao uso de térmicas caras.
Esse desequilíbrio ganhou força a partir de 2022 e se agravou significativamente entre 2024 e 2025 na gestão do governo Lula.
Quem ganha e quem perde?
- Acionistas da RIOS3 — sofrem com desvalorização e incerteza.
- BTG (BPAC11) e XP — protegem seus balanços ao tomar ativos.
- Investidores qualificados — podem encontrar oportunidades de compra com desconto.
- Setor renovável — perde credibilidade junto aos financiadores.
Quem ganha e quem perde com esse caso?
| Parte envolvida | Situação | Ganha ou Perde? | Explicação |
|---|---|---|---|
| Acionistas da Rio Alto (RIOS3) | Empresa em recuperação | Perde forte | Ações sofrem pressão, diluição possível e incerteza alta |
| BTG Pactual | Tomou as usinas como garantia | Ganha | Consegue ativos a preço baixo ou recupera o crédito |
| Banco do Nordeste | Empréstimo original | Neutro a positivo | Recupera parte do dinheiro via BTG |
| Compradores potenciais | Quem comprar a empresa ou ativos | Pode ganhar | Oportunidade de comprar ativos bons com desconto |
| Setor de renováveis como um todo | Imagem do setor | Perde | Aumenta percepção de risco |
| Consumidor final | Conta de luz | Neutro | Impacto indireto |
Resumo: Perdem principalmente os acionistas minoritários da Rio Alto. Ganham bancos e investidores com caixa disposto a comprar em momento de distress.

Papel da regulação (ONS e Aneel)
Como autarquias federais, ONS e Aneel administradas por indicados do governo Lula são responsáveis pela operação segura do sistema e pela regulação. Embora o curtailment seja uma medida técnica de segurança, há críticas recorrentes sobre a lentidão na expansão da transmissão e na implantação de baterias de armazenamento.
A culpa é da regulação do governo Lula / é culpa estatal?
A culpa é da regulação do governo / é culpa estatal? Não é 100% culpa estatal, mas a regulação tem responsabilidade grande.Causas principais (ordem de importância):
- Expansão muito rápida das renováveis (boom solar e eólico) → O Brasil adicionou capacidade mais rápido que a rede de transmissão e o crescimento da demanda.
- Curtailment (cortes de geração) → Começou a piorar fortemente a partir de 2022/2023 e explodiu em 2024/2025.
- Falta de armazenamento (baterias) → Ainda incipiente no Brasil.
- Regras de modulação e precificação → Não acompanharam o crescimento.
- Juros altos por mais tempo → Aumentou o custo da dívida de todo mundo.
Contradições da política energética do governo Lula
Enquanto o setor renovável enfrenta dificuldades, o governo Lula tem mantido e, em alguns casos, ampliado o apoio a fontes fósseis, como usinas a carvão fazendo o brasileiro pagar 50% a mais pela geração. Ao mesmo tempo, o aumento de impostos sobre a importação de equipamentos de energia solar (painéis, inversores e componentes) encareceu ainda mais os projetos, reduzindo a competitividade das renováveis.
BlackRock e o sinal de alerta dos grandes investidores
Recentemente, a BlackRock — uma das maiores gestoras de recursos do mundo — sinalizou a decisão de congelar R$ 1 bilhão em investimentos em projetos de energia renovável no Brasil, citando principalmente a falta de infraestrutura (transmissão e armazenamento) e incertezas regulatórias.
Quem é responsável pela infraestrutura?
A expansão da rede de transmissão e a implantação de baterias de grande porte são responsabilidades compartilhadas:
- Governo Federal / Ministério de Minas e Energia — define a política e os leilões de transmissão.
- ONS e Aneel — planejam a operação e a regulação.
- Empresas privadas — executam os projetos após os leilões.
Especialistas apontam que os leilões de transmissão têm ocorrido, mas com atrasos na execução e ritmo insuficiente para acompanhar o boom das usinas solares e eólicas.
O que esperar para os próximos meses?
O sucesso ou fracasso da venda da Rio Alto será um importante termômetro para o setor. Uma transação bem-sucedida pode sinalizar oportunidades em ativos distressed. Caso contrário, novas execuções de garantia por parte de bancos e debenturistas devem ocorrer.
O caso reforça que o setor de energias renováveis no Brasil vive um momento de ajuste de contas: após anos de forte expansão, agora precisa lidar com maior seletividade de capital, juros elevados e desafios operacionais.



