Jornal centenário enfrenta prejuízo milionário, traz investidores para dentro do controle e se conecta a engrenagens sob investigação
O O Estado de S. Paulo (Estadão), recorreu a uma gestora ligada ao Banco Master — hoje no radar da Polícia Federal — para viabilizar uma captação de R$ 142,5 milhões em meio a prejuízos milionários. A operação, que ajudou a manter o caixa do jornal, expõe conexões sensíveis entre crise financeira, investidores e estruturas sob investigação.
Uma crise que já vinha se agravando
Antes mesmo da captação, os números já acendiam alerta máximo:
- Prejuízo acumulado: R$ 159 milhões
- Caixa inferior ao prejuízo
- Novo resultado negativo em 2025: R$ 16,8 milhões
Na prática:
o jornal entrou em modo sobrevivência financeira
A operação de R$ 142 milhões — e o detalhe que muda tudo
A captação foi feita via debêntures em duas etapas:
- R$ 45 milhões (março de 2024)
- R$ 97,5 milhões (maio de 2024)
O ponto crítico não é o formato — é a estrutura envolvida.
O papel da Trustee DTVM
A Trustee atuou como agente fiduciário, responsável por:
- acompanhar pagamentos
- monitorar a operação
- garantir cumprimento de regras
Mas a empresa está no centro de investigações.
Ligada a Maurício Quadrado, a gestora:
- já teve bens bloqueados pela Justiça
- é alvo da PF por suspeita de lavagem de dinheiro
- aparece em apurações ligadas ao crime organizado
Além disso, mantém conexões com o Banco Master, ampliando o nível de sensibilidade do caso.
A gestora de investimentos tem como controlador o empresário Maurício Quadrado, sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master e em outros negócios.
E o ponto mais relevante:
a contratação ocorreu quando esses fatos já eram conhecidos.
Atualmente, Maurício Quadrado e a Trustee são investigados pela PF por suspeita de lavar dinheiro do Banco Master. A gestora também é alvo da PF em um esquema de ocultação de dinheiro oriundo da adulteração de combustíveis, operada, inclusive, por integrantes do PCC.
A contratação da Trustee foi decidida em reunião da Assembleia Geral Extraordinária do Estadão, presidida, na ocasião, por Francisco Mesquita Neto. A decisão consta em ata datada de 25 de março de 2024.
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Quem colocou dinheiro — e ganhou poder
A segunda etapa trouxe investidores diretamente para dentro do controle:
- Grupo Cutrale → R$ 15 milhões
- Galápagos Capital → R$ 82,5 milhões
Em troca, houve exigências claras:
- assentos no conselho
- influência estratégica
- mudança no comando executivo
Na prática: entrada de capital + redistribuição de poder
Com sede em Araraquara (SP) e atuação no cultivo de laranja, a Santalice integra o grupo Cutrale, um dos maiores produtores de suco do mundo. A empresa da família Cutrale colocou R$ 15 milhões no Estadão, na modalidade DPL (Debênture de Projeto de Longo Prazo).
Já o Província é gerido pela Galápagos Capital Investimentos e Participações Ltda., que tem entre os donos Carlos Fonseca (ex-sócio de André Esteves no BTG) e Marco Bologna. Ao todo, o fundo aportou R$ 82,5 milhões.
Após a Galápagos colocar dinheiro no Estadão, Bologna virou membro do Conselho de Administração do periódico. A entrada do executivo foi registrada na mesma ata que validou a operação financeira (confira abaixo). Bologna terá mandato até 13 de maio de 2026, admitida a reeleição. Assim como a Galápagos, outros investidores indicaram representantes em instâncias decisórias do jornal.
O grupo de investidores também exigiu a substituição do CEO do jornal por um nome do mercado, e não da família Mesquita para a vaga. O negócio foi divulgado pelo Metrópole.
Veja parte da Ata abaixo:

Dívida longa: alívio agora, risco depois
A estrutura prevê:
- início dos pagamentos em 2034
- possibilidade de extensão até 2044
Isso gera:
fôlego imediato
pressão futura concentrada
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A declaração que gerou ruído
O CEO minimizou o papel da gestora:
“é quase um despachante”
No mercado, isso não é consenso.
O agente fiduciário tem função relevante na proteção da operação — e esse tipo de fala pode afetar a percepção de governança.
No mercado, o agente fiduciário é responsável por:
- proteger investidores
- fiscalizar contratos
- monitorar riscos
Reduzir essa função pode gerar:
- perda de confiança
- questionamentos sobre governança
Um padrão que o mercado já reconhece
O caso reúne elementos que vêm se repetindo:
- empresas em crise buscando capital fora do sistema tradicional
- uso de estruturas menos transparentes
- conexões com instituições sob investigação
Um padrão associado, em diferentes episódios, ao Banco Master
O que está realmente em jogo
Mais do que uma captação, o caso mostra:
- fragilidade da mídia tradicional
- avanço de investidores privados
- transformação no controle de grandes veículos
e uma nova dinâmica entre informação e capital
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Diagnóstico final
O cenário atual do Estadão:
- crise estrutural instalada
- dependência de capital externo
- mudança no centro de poder
- exposição a risco reputacional
Apesar dos esforços dos empresários para sanear as contas do jornal, o último balanço da empresa, publicado na quinta-feira (9/4), registrou novo prejuízo de R$ 16,8 milhões no ano de 2025.
A captação de R$ 142 milhões não é apenas um movimento financeiro.
Pode marcar o início de uma nova fase —
onde o controle, a estratégia e o futuro do jornal passam a ser influenciados por novos atores.
E no mercado, a leitura já está feita:
não é só sobre dinheiro.
É sobre quem passa a mandar.



