Um documento apreendido pela Polícia Federal durante as investigações sobre o Banco Master pode ampliar ainda mais a crise envolvendo a instituição financeira, o BRB e o BTG Pactual. Segundo informações reveladas pelo material mostra que executivos do Banco Master discutiam internamente um “plano B” antes mesmo do avanço definitivo da operação envolvendo o banco estatal de Brasília.
O documento foi apreendido no âmbito da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, que investiga possíveis irregularidades financeiras relacionadas ao Banco Master. De acordo com a reportagem, o material teria sido enviado em abril de 2025 por Daniel Vorcaro ao ex-sócio Augusto Lima e apresentava alternativas para reorganização financeira da instituição caso a negociação principal não avançasse.
A revelação é considerada sensível porque sugere que a deterioração financeira do Banco Master já vinha sendo discutida internamente antes do agravamento da crise e antes da tentativa de venda ao BRB ganhar força no mercado.
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O que dizia o “plano B” apreendido pela PF
Segundo os documentos obtidos pela investigação, o plano discutia uma possível reorganização do Banco Master com participação do BTG Pactual e apoio do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A ideia envolveria uma divisão de ativos da instituição, separando operações em uma estrutura distinta enquanto outra parcela poderia permanecer dentro de uma reorganização coordenada entre agentes do mercado financeiro.
O objetivo seria criar uma alternativa caso a negociação principal envolvendo o BRB não avançasse ou enfrentasse obstáculos regulatórios.
O Banco Master discutiu com o BTG Pactual (BPAC11), antes da tentativa frustrada de venda ao Banco de Brasília (BRB), uma operação de reestruturação que previa a transferência de parte dos ativos e passivos da instituição para uma nova estrutura administrada pelo BTG, com apoio do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A proposta, atribuída ao banqueiro Daniel Vorcaro, foi encaminhada em 10 de abril de 2025 ao ex-sócio Augusto Lima, segundo mensagens extraídas do celular de Vorcaro e analisadas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero.
O FGC aparecia como peça importante dentro da estrutura discutida internamente. O fundo é responsável por proteger depósitos e determinadas aplicações financeiras em caso de quebra bancária dentro dos limites previstos pelo sistema financeiro nacional.

“Irmão pelo amor de Deus. Não passe isso pra ninguém”, escreveu Vorcaro às 20h46, segundo os registros do celular citados na apuração. Na sequência, Augusto Lima respondeu: “Lógico irmão. Tá doido”.
Até o momento, não há informação pública indicando participação do BTG Pactual em irregularidades investigadas pela Polícia Federal. O banco aparece citado no documento como possível participante de uma alternativa de mercado discutida internamente pelo Banco Master.
BTG teria taxa anual sobre carteira bilionária
Pelo plano atribuído a Vorcaro, o BTG Pactual receberia uma remuneração anual de 1,25% sobre o valor contábil inicial dos ativos do BMI. Considerando a base de R$ 43,5 bilhões mencionada no documento, a taxa poderia alcançar cerca de R$ 544 milhões por ano.
Além da remuneração de gestão, todas as despesas relacionadas à recuperação dos ativos transferidos seriam reembolsadas pelo FGC. O fundo também arcaria com custos operacionais vinculados ao processo de administração, cobrança e tentativa de recuperação da carteira.
O plano previa ainda indenizações ao BTG Pactual por eventuais contingências envolvendo o BMI, o próprio BTG, empresas do grupo Master e seus controladores. Esse ponto era central para limitar a exposição jurídica e patrimonial do banco que assumiria a gestão da estrutura.
Na prática, o BTG atuaria como gestor da carteira, com remuneração definida, proteção contratual e reembolso de despesas. O risco principal ficaria concentrado no veículo criado a partir dos ativos e passivos do Master, com suporte do FGC para reduzir perdas e permitir o pagamento de obrigações imediatas.

Lula aconselhou Vorcaro a não vender o banco ao BTG
O caso também ganhou dimensão política após reportagens indicarem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria aconselhado Daniel Vorcaro, ainda em 2024, a não avançar em uma eventual venda do Banco Master ao BTG naquele momento.
Segundo relato em outra reportagem sobre o caso, Lula afirmou que em dias ocorreria a mudança na direção do Banco Central, com a entrada de seu indicado presente na reunião com Vorcaro, Gabriel Galípolo. O episódio aumentou ainda mais o interesse político e institucional em torno da crise envolvendo o Banco Master e das negociações discutidas nos bastidores do sistema financeiro.
Investigação envolve suspeitas de ativos sem lastro
As investigações da Polícia Federal avançam sobre suspeitas envolvendo negociação de carteiras de crédito com possíveis problemas de lastro financeiro. Segundo reportagens sobre o caso, o volume analisado pelas autoridades já alcança aproximadamente R$ 12,2 bilhões.
A Operação Compliance Zero apura possíveis crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, lavagem de dinheiro, organização criminosa e outras irregularidades financeiras que teriam ocorrido durante tentativas de reorganização do banco.
O caso acabou se transformando em uma das maiores crises recentes envolvendo bancos médios no Brasil e passou a chamar atenção de autoridades regulatórias, investidores e integrantes do mercado financeiro.
Banco Central liquidou o Banco Master
A crise atingiu um novo patamar após a decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025.
A medida é utilizada quando uma instituição financeira perde condições de operar normalmente ou apresenta riscos relevantes ao sistema financeiro. A liquidação extrajudicial busca preservar a estabilidade do mercado e proteger credores dentro das regras previstas pela legislação bancária brasileira.

Desde então, a atuação do Banco Central e do Fundo Garantidor de Créditos passou a ser acompanhada de perto por investidores, analistas e especialistas do setor financeiro.
Caso amplia pressão sobre governança do sistema financeiro
A descoberta do documento apreendido pela PF também aumentou a pressão sobre mecanismos de supervisão bancária e governança financeira no país.
Especialistas do mercado observam que o episódio reacende discussões sobre:
- transparência no crédito privado;
- fiscalização de bancos;
- qualidade de ativos financeiros;
- responsabilidade regulatória;
- riscos sistêmicos;
- uso de estruturas emergenciais para evitar colapsos bancários.
Além disso, o caso levanta questionamentos sobre quando exatamente os problemas financeiros do Banco Master passaram a ser conhecidos internamente e até que ponto operações discutidas naquele período buscavam reorganizar riscos já considerados relevantes dentro da instituição.
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Garantias incluíam caixa do BRB e direitos ligados a precatórios
O documento citado na apuração indicava que Daniel Vorcaro ofereceria garantias com patrimônio líquido estimado em R$ 10,5 bilhões. A composição incluía R$ 2 bilhões em caixa provenientes da negociação com o BRB e R$ 8,5 bilhões em direitos ligados a precatórios.
Esse ponto, porém, era considerado sensível. As investigações apontam que parte desses ativos tinha liquidez limitada, uma vez que a carteira seria formada também por direitos creditórios ainda não convertidos oficialmente em precatórios judiciais.
A diferença entre precatórios formalmente reconhecidos e direitos creditórios com expectativa de conversão é relevante para qualquer operação financeira. Precatórios já constituídos podem ser avaliados com base em critérios jurídicos mais objetivos, embora dependam de prazos de pagamento e deságios de mercado. Direitos ainda não convertidos carregam risco adicional, porque dependem de reconhecimento judicial, tramitação processual e validação futura.
Essa limitação de liquidez poderia afetar a capacidade de uso das garantias em uma reestruturação. Quanto mais incerto o valor realizável dos ativos, maior a dependência de suporte externo, negociação com credores e capacidade de recuperação da carteira transferida.

Crise do Banco Master pode virar marco regulatório
O avanço das investigações pode transformar o caso Banco Master em um dos episódios mais relevantes recentes do sistema financeiro brasileiro.
Caso as suspeitas investigadas pela Polícia Federal sejam confirmadas pelas autoridades responsáveis, o episódio poderá ampliar a pressão por mudanças em áreas como supervisão bancária, transparência de ativos financeiros, governança corporativa e fiscalização de operações estruturadas envolvendo crédito privado e bancos de médio porte.
Para o mercado, a principal dúvida continua sendo entender quando a deterioração financeira do Banco Master atingiu níveis críticos e quais medidas estavam sendo discutidas internamente antes da tentativa de operação envolvendo BRB e BTG ganhar dimensão pública.








