Caio Junqueira, da CNN Brasil, afirmou que empresários de São Paulo teriam recebido ligações de autoridades de Brasília com referências a processos que poderiam ser “desenterrados” caso mantivessem apoio a manifestações críticas ao Supremo
Empresários de São Paulo teriam recebido telefonemas de autoridades de Brasília em tom ameaçador para retirar seus nomes de manifestos que cobram providências do Supremo Tribunal Federal (STF). O relato foi apresentado pelo jornalista Caio Junqueira, da CNN Brasil, durante o jornal WW, na segunda-feira (14). Segundo ele, empresários teriam sido alertados sobre possíveis problemas judiciais caso mantivessem apoio aos documentos. Até o momento, porém, o relato não foi acompanhado de identificação pública dos empresários ou das autoridades que teriam feito as ligações.
O que foi relatado
Durante o programa, Junqueira afirmou ter recebido relatos de empresários que teriam sido procurados para retirar suas assinaturas de um manifesto que cobra providências do STF diante das denúncias e controvérsias envolvendo a Corte.
“A gente tem ouvido, por exemplo, de alguns empresários em São Paulo que receberam telefonemas de autoridades aqui de Brasília também em tons ameaçadores.”
Na sequência, o jornalista descreveu o conteúdo atribuído às ligações:
“Temos relatos de empresários que receberam ligações pedindo para tirar o nome do manifesto, dizendo que tem um processo aqui ou acolá, que pode ser desenterrado.”
O contexto: empresários passaram a cobrar o STF publicamente
O relato surge poucos dias depois de uma mobilização empresarial que ganhou dimensão nacional.
Em 9 de setembro, 157 empresários, economistas, executivos, profissionais liberais e outras personalidades divulgaram o manifesto “Pela Lei e pelo Brasil”, acompanhado de uma petição aberta à adesão pública. O documento pede “apuração completa, célere e independente dos fatos e responsabilidades”, o afastamento cautelar de quem estiver formalmente investigado e a adoção de um código de conduta vinculante para cortes superiores e órgãos de investigação e acusação.
O manifesto afirma que as informações relacionadas ao caso Banco Master “mina[m] a confiança da população na Justiça” e sustenta que a lei precisa valer igualmente para todos.
A iniciativa não surgiu isoladamente. Desde o início de setembro, empresários e representantes da sociedade civil vinham articulando documentos cobrando maior transparência na apuração das relações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes.
A CNN informou que a discussão vinha sendo organizada antes da publicação do manifesto e que os acontecimentos recentes aumentaram a pressão pela apuração.
A versão do manifesto também mudou antes da publicação
Outro dado relevante para compreender a dimensão da pressão é que a versão final do manifesto foi mais moderada do que uma versão anterior.
Segundo reportagem de Caio Junqueira publicada pela CNN, uma versão preliminar defendia que o plenário do STF realizasse uma discussão pública e presencial e que autoridades “suspeitas ou acusadas” fossem afastadas da análise de processos relacionados a elas.
Esse trecho foi retirado da versão final.
A mudança mostra que o documento passou por negociação antes de sua divulgação e ajuda a dimensionar o ambiente de cautela que envolveu a mobilização empresarial.
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Sete entidades empresariais também cobraram resposta pública
A pressão não ficou restrita a empresários individualmente.
Entidades como CNI, Fiesp e CNC participaram de outro manifesto, divulgado em 9 de setembro, no qual cobraram que o Supremo examinasse publicamente os fatos relacionados à crise que atingia a Corte.
O documento afirmou que a sociedade brasileira exigia que o plenário analisasse os acontecimentos “sem subterfúgios e sem corporativismo”.
A manifestação colocou uma parte relevante do setor empresarial diante de uma questão que tradicionalmente envolve elevado grau de cautela: a possibilidade de questionar publicamente a atuação de ministros do Supremo.
O ponto mais sensível do relato
É justamente nesse ambiente que surge a denúncia feita por Caio Junqueira.
Se empresários efetivamente foram procurados para retirar assinaturas de documentos públicos e receberam como argumento a possibilidade de processos serem “desenterrados”, o episódio teria uma dimensão diferente de uma simples divergência política.
Isso porque a liberdade de manifestação de empresários, executivos e cidadãos não depende de concordância com o conteúdo de um manifesto. Eventuais irregularidades cometidas por um signatário devem ser tratadas pelos mecanismos legais próprios, com identificação do fato, investigação e direito de defesa.
O que ainda não está esclarecido é quem teria realizado as ligações, em nome de qual órgão, com qual fundamento e quais processos teriam sido mencionados.
Essas são as perguntas que precisam ser respondidas para que o relato deixe o campo das informações de bastidor e possa ser submetido à verificação documental.


