JPMorgan rebaixa Banco do Brasil e eleva Bradesco; BBAS3 cai 6,42%

INVESTIDORES BRASIL

Banco americano reduz recomendação para BBAS3 mesmo após elevar preço-alvo e passa a ver maior potencial no Bradesco; crédito agrícola e ritmo de recuperação pesam na análise

O JPMorgan mudou sua preferência entre dois dos maiores bancos da Bolsa brasileira. A instituição americana rebaixou o Banco do Brasil (BBAS3) de neutro para underweight, enquanto elevou o Bradesco (BBDC4) de neutro para overweight.

A reação do mercado foi imediata. Na sessão de 6 de outubro, BBAS3 caiu 6,42%, enquanto BBDC4 avançou 4,40%. O movimento ocorreu depois de um forte rali das ações financeiras na sessão anterior, o que significa que parte da queda do Banco do Brasil também refletiu realização de lucros.

O detalhe mais importante do relatório, porém, está em outro lugar: o JPMorgan elevou o preço-alvo do Banco do Brasil de R$ 22 para R$ 23 e, mesmo assim, reduziu sua recomendação.

No Bradesco, ocorreu o movimento completo na direção oposta: o preço-alvo subiu de R$ 22 para R$ 26 e a recomendação passou a overweight.

Essa aparente contradição explica a essência da revisão: o JPMorgan não está necessariamente dizendo que o Banco do Brasil perdeu qualidade como franquia. A avaliação é de que, aos preços atuais, o potencial de retorno não compensa os riscos e o tempo necessário para a recuperação dos resultados.

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Resumo executivo

Banco do Brasil — BBAS3

  • Recomendação: neutro → underweight
  • Preço-alvo: R$ 22 → R$ 23
  • Cotação de referência utilizada pelo mercado: cerca de R$ 24,67
  • Principal risco: qualidade da carteira de crédito agrícola
  • Recuperação: JPMorgan vê um processo mais demorado
  • ROE projetado: 8,7% em 2026; 11,8% em 2027; 13% em 2028

Bradesco — BBDC4

  • Recomendação: neutro → overweight
  • Preço-alvo: R$ 22 → R$ 26
  • JPMorgan vê melhora da rentabilidade e redução do custo de risco
  • Parte das dificuldades recentes já estaria incorporada à cotação

As projeções e mudanças de recomendação foram divulgadas pelo JPMorgan e reportadas por Reuters, Broadcast e outros veículos de mercado.

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Por que o Banco do Brasil foi rebaixado?

O JPMorgan considera que a recuperação operacional do Banco do Brasil deve levar mais tempo do que o mercado pode estar precificando.

O principal problema apontado está na qualidade do crédito ligado ao agronegócio.

Segundo o relatório, os dados observados em julho e agosto levaram os analistas a incorporar uma perspectiva mais difícil para a inadimplência agrícola. Entre os fatores mencionados estão a valorização do real e os riscos relacionados ao fenômeno El Niño, apesar da melhora de algumas commodities.

O peso dessa questão é particularmente relevante para o Banco do Brasil devido à importância do agronegócio em sua carteira de crédito.

O JPMorgan estima que a deterioração recente dessa carteira poderá pressionar lucro, rentabilidade e distribuição de dividendos.

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O problema não é apenas a inadimplência

Existe uma segunda questão menos evidente na análise.

Uma eventual queda da Selic pode ajudar alguns bancos por meio da melhora da capacidade de pagamento de empresas e consumidores. Mas o efeito sobre o Banco do Brasil é mais complexo.

O JPMorgan destaca que a instituição possui uma forte base de depósitos, elevada liquidez e custos de captação relativamente baixos.

Essas características são vantajosas em um ambiente de juros elevados.

Quando os juros caem, porém, parte dessa vantagem diminui.

Ou seja:

juros menores podem ajudar a qualidade do crédito, mas também podem reduzir uma fonte importante de benefício financeiro do Banco do Brasil.

É uma das razões pelas quais o JPMorgan não espera uma recuperação rápida.

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A contradição: por que o preço-alvo subiu se a recomendação caiu?

À primeira vista, parece contraditório elevar o preço-alvo de R$ 22 para R$ 23 e, simultaneamente, rebaixar a ação.

Não é.

O JPMorgan reduziu em aproximadamente 1,5 ponto percentual sua premissa de custo de capital próprio para grande parte das empresas acompanhadas, acompanhando a queda dos juros longos brasileiros.

Essa alteração, isoladamente, aumenta o valor presente dos fluxos de caixa e ajuda a elevar os preços-alvo.

Mas, no caso do Banco do Brasil, esse efeito positivo não foi suficiente para eliminar as preocupações com a recuperação operacional.

Por isso, o preço-alvo aumentou marginalmente, mas a recomendação caiu.

Em outras palavras

Preço-alvo: quanto o JPMorgan estima que a ação pode valer no horizonte analisado.

Recomendação: considera esse valor, mas também o preço atual, os riscos, o tempo necessário para a recuperação e as alternativas existentes no setor.

É justamente essa diferença que explica o downgrade.

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O Banco do Brasil continua sendo uma franquia sólida

O relatório não descreve o Banco do Brasil como uma instituição sem fundamentos.

Ao contrário.

O JPMorgan afirma que o BB continua sendo uma franquia sólida, destacando sua base de depósitos, liquidez e custos de financiamento.

O problema está na rentabilidade atual.

Segundo as estimativas do banco americano, o ROE do Banco do Brasil deve ficar em apenas 8,7% em 2026, avançando para 11,8% em 2027 e 13% em 2028.

O lucro líquido ajustado estimado é de:

AnoLucro líquido ajustado estimado
2025R$ 20,7 bilhões
2026R$ 16,0 bilhões
2027R$ 22,6 bilhões
2028R$ 27,1 bilhões

A trajetória, portanto, é de recuperação.

Bradesco recebe sinal oposto

Enquanto o Banco do Brasil teve a recomendação reduzida, o Bradesco recebeu uma revisão positiva.

O JPMorgan elevou o preço-alvo do BBDC4 de R$ 22 para R$ 26 e mudou a recomendação de neutra para overweight.

O argumento é diferente do utilizado para o Banco do Brasil.

Segundo o JPMorgan, o plano de recuperação do Bradesco vem apresentando evolução, com melhora da rentabilidade, redução do custo de risco e melhora das margens.

Os analistas projetam ROE de:

  • 15,9% em 2026
  • 16,1% em 2027
  • 16,8% em 2028

O lucro líquido ajustado estimado pelo banco é de R$ 28,1 bilhões em 2026, R$ 30,5 bilhões em 2027 e R$ 34,8 bilhões em 2028.

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O que mudou na leitura sobre o Bradesco

O JPMorgan considera que parte dos problemas enfrentados pelo Bradesco já está incorporada ao preço da ação.

O banco também vê como menos relevante uma discussão anterior relacionada à posição de capital tangível e à gestão de ativos e passivos.

O relatório aponta ainda que o Bradesco negociava próximo de 1,2 vez o valor patrimonial, enquanto o múltiplo considerado justo pelo JPMorgan seria de aproximadamente 1,5 vez.

Isso ajuda a explicar por que a instituição americana passou a enxergar uma relação diferente entre risco e potencial de retorno.

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BBAS3 x BBDC4: a diferença em uma tabela

IndicadorBanco do BrasilBradesco
TickerBBAS3BBDC4
Recomendação anteriorNeutroNeutro
Nova recomendaçãoUnderweightOverweight
Preço-alvo anteriorR$ 22R$ 22
Novo preço-alvoR$ 23R$ 26
Principal ponto citadoCrédito agrícolaRecuperação operacional
ROE 2026 estimado8,7%15,9%
ROE 2028 estimado13%16,8%

Fonte: JPMorgan

O que ninguém comenta sobre o downgrade

O ponto mais fácil de perder na leitura do relatório é que o JPMorgan não está simplesmente dizendo que o Banco do Brasil é um banco pior que o Bradesco.

A questão é relativa.

O Banco do Brasil pode continuar apresentando recuperação e, ainda assim, sua ação pode oferecer uma relação de risco e retorno menos atraente naquele determinado preço.

É por isso que o JPMorgan conseguiu, ao mesmo tempo:

elevar o preço-alvo do BBAS3 e reduzir sua recomendação.

No caso do Bradesco, a situação é inversa: a recuperação operacional já observada, combinada com a percepção de que parte dos problemas está refletida na cotação, tornou a relação entre preço e expectativa mais favorável na avaliação dos analistas.

O mercado respondeu imediatamente

A reação dos investidores deixou o contraste evidente.

No pregão de 6 de outubro:

BBAS3: -6,42%

BBDC4: +4,40%

O movimento do Banco do Brasil, entretanto, não pode ser atribuído exclusivamente ao relatório.

A ação havia avançado cerca de 11% na sessão anterior, acompanhando o forte movimento de alta das ações brasileiras. Parte da queda seguinte foi, portanto, uma realização de lucros.

Ainda assim, a revisão do JPMorgan criou um fator específico de pressão sobre BBAS3 e, simultaneamente, ajudou a sustentar a procura por BBDC4.

O que o JPMorgan fez com os outros bancos

A revisão foi mais ampla que apenas Banco do Brasil e Bradesco.

O JPMorgan:

  • manteve Itaú em overweight e elevou o preço-alvo de R$ 51 para R$ 60;
  • manteve BTG Pactual em overweight e elevou o alvo de R$ 66 para R$ 87;
  • manteve XP em overweight e elevou o alvo de US$ 26 para US$ 38;
  • manteve Nubank em overweight e elevou o alvo de US$ 20 para US$ 23;
  • manteve Inter em overweight e elevou o alvo de R$ 45 para R$ 55;
  • manteve B3 em neutro, embora tenha elevado o preço-alvo de R$ 18,50 para R$ 24,50;
  • manteve Santander em neutro.

A amplitude das revisões mostra que o movimento não foi simplesmente uma mudança de visão sobre o setor bancário brasileiro, mas uma reavaliação relativa entre diferentes modelos de negócio e níveis de rentabilidade.

O próximo teste será o resultado do Banco do Brasil

A análise do JPMorgan coloca os próximos resultados do Banco do Brasil sob atenção especial.

O calendário oficial de Relações com Investidores do banco prevê a divulgação das Informações Trimestrais do terceiro trimestre de 2026 em 11 de novembro. O Banco do Brasil também disponibiliza em sua Central de Resultados demonstrações contábeis, análise de desempenho, relatório da administração e informações sobre gerenciamento de riscos.

Esses documentos serão importantes para verificar se a deterioração do crédito agrícola está evoluindo de acordo com as premissas incorporadas pelo JPMorgan e como isso está afetando provisões, lucro, ROE e capital.

Quem ganha e perde

Banco do Brasil

Ganha

  • Forte base de depósitos;
  • elevada liquidez;
  • custo de captação competitivo;
  • exposição relevante ao agronegócio e a outros segmentos da economia brasileira.

Perde

  • deterioração recente do crédito agrícola;
  • ROE muito abaixo dos níveis históricos;
  • recuperação projetada mais lenta;
  • menor benefício relativo de uma queda da Selic sobre algumas fontes de margem.

Bradesco

Ganha

  • melhora da rentabilidade;
  • redução do custo de risco;
  • recuperação das margens;
  • percepção de que parte dos problemas já está refletida no preço.

Perde

  • receitas de seguros podem se beneficiar menos de juros menores;
  • a recuperação ainda depende da continuidade das melhorias operacionais.

Conclusão

A revisão do JPMorgan criou uma diferença clara entre dois dos maiores bancos brasileiros.

Para o Banco do Brasil, o banco americano elevou marginalmente o preço-alvo, mas reduziu a recomendação porque considera que a recuperação dos resultados será mais lenta, especialmente diante dos riscos na carteira agrícola e da rentabilidade ainda deprimida.

Para o Bradesco, o movimento foi inverso: preço-alvo maior e recomendação elevada, apoiados pela melhora operacional e pela avaliação de que parte das dificuldades já está incorporada à cotação.

A principal mensagem do relatório não é que o Banco do Brasil deixou de ser uma instituição sólida. É que, na avaliação do JPMorgan, o preço atual não oferece uma compensação suficiente pelos riscos e pelo tempo necessário para a recuperação.

E é justamente por isso que o episódio merece atenção: uma ação pode ter seu preço-alvo elevado e, ainda assim, perder recomendação.

No mercado, o que importa não é apenas quanto uma empresa pode valer no futuro, mas quanto se paga hoje, quais riscos existem no caminho e quanto tempo será necessário para que a tese se materialize.

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Re Hunter
Re Hunter
Jornalista especialista em Mercado de Capitais pela Metodista. [email protected]
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