
Revelação publicada pela Gazeta do Paraná coloca novos personagens no centro das discussões sobre o caso Banco Master e amplia o debate sobre transparência, relações institucionais e potenciais conflitos de interesse em Brasília.
Resumo Executivo
Uma reportagem publicada pela Gazeta do Paraná colocou novos elementos no centro das investigações que cercam o caso Banco Master. Segundo o veículo, a jornalista Renata Varandas, apresentadora do programa Poder em Foco, do SBT News, integra um escritório de relações institucionais que recebeu pagamentos da Ambipar, empresa que a reportagem relaciona ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso preventivamente no âmbito das investigações sobre o Banco Master.
A publicação também destaca que Renata mantém relacionamento com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, circunstância que, segundo a reportagem, reacendeu discussões nos bastidores de Brasília sobre transparência e potenciais conflitos de interesse. Até o momento, não há decisão judicial atribuindo irregularidade à jornalista, ao diretor-geral da PF ou ao SBT News em relação aos fatos narrados.
O que diz a reportagem
De acordo com a reportagem publicada pela Gazeta do Paraná, Renata Varandas é sócia de um escritório especializado em comunicação estratégica, relações governamentais e representação institucional. Segundo o veículo, o escritório recebeu pagamentos da Ambipar, empresa apontada pela publicação como ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A reportagem afirma ainda que a Ambipar firmou, em 2024, contratos com o governo federal que somariam cerca de R$ 480,9 milhões para prestação de serviços em terras indígenas, incluindo contratações realizadas por dispensa de licitação.
Ambipar ampliou presença em contratos federais para atuação em terras indígenas
A Ambipar, multinacional brasileira conhecida pela atuação em gestão ambiental, resposta a emergências e serviços de logística especializada, ampliou significativamente sua presença em contratos com o governo Lula ao longo de 2024.
Levantamento divulgado anteriormente por diferentes veículos de imprensa mostra que a empresa firmou cinco contratos que somam R$ 480,9 milhões com órgãos da administração federal, todos relacionados à logística e ao atendimento em territórios indígenas. Desse total, três contratações ocorreram sem licitação, utilizando mecanismos previstos na legislação para situações específicas ou adesões a atas de registro de preços.
O maior contrato foi celebrado em dezembro de 2024 com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), no valor de R$ 266,7 milhões, para executar a logística aérea de distribuição de alimentos, medicamentos, equipamentos e transporte de equipes destinadas ao atendimento de aproximadamente 27 mil indígenas Yanomami e Ye’kwana, em uma área de cerca de 9,6 milhões de hectares entre Amazonas e Roraima. Segundo informações oficiais, a Ambipar foi escolhida após a desclassificação da empresa que havia apresentado o menor preço no pregão eletrônico.
Outro contrato de grande porte, de R$ 185,9 milhões, foi firmado com o Ministério dos Povos Indígenas para a locação de aeronaves destinadas ao apoio das ações emergenciais na Terra Indígena Yanomami. Nesse caso, a contratação ocorreu por dispensa de licitação, sob a justificativa da emergência humanitária provocada pela crise sanitária e pelo avanço do garimpo ilegal na região. Além disso, o Ministério da Saúde celebrou outros dois contratos com a empresa, também para operações aéreas voltadas à saúde indígena.
A parceria com o Ministério dos Povos Indígenas gerou controvérsia
Além dos contratos administrativos, a Ambipar assinou um protocolo de intenções com o Ministério dos Povos Indígenas durante o Fórum Econômico Mundial de Davos. O acordo prevê cooperação em projetos ligados ao desenvolvimento sustentável, gestão territorial e prevenção de emergências climáticas em áreas indígenas que correspondem a aproximadamente 14% do território brasileiro.
A iniciativa provocou forte reação de parlamentares da oposição, que passaram a questionar a dimensão da parceria, os contratos públicos firmados com a empresa e a ausência de maior transparência sobre o alcance do protocolo. O governo federal respondeu afirmando que o documento não transfere a gestão das terras indígenas à iniciativa privada, não representa concessão de território e consiste apenas em um protocolo de intenções para futuras ações de cooperação.
Como Daniel Vorcaro aparece conectado à Ambipar
A relação entre Daniel Vorcaro e a Ambipar vai além da citação feita pela reportagem da Gazeta do Paraná. Documentos de mercado e investigações conduzidas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que empresas e fundos vinculados ao ecossistema financeiro do antigo Banco Master tiveram participação relevante em operações envolvendo ações da companhia ambiental.
Segundo reconstrução publicada pelo Valor Econômico e repercutida por diversos veículos, fundos ligados ao universo do Banco Master adquiriram aproximadamente 25,1 milhões de ações da Ambipar entre junho e agosto de 2024, movimentando cerca de R$ 754 milhões. No mesmo período, os papéis da empresa acumularam valorização de aproximadamente 883%, movimento que posteriormente passou a ser analisado pela CVM diante de suspeitas sobre a dinâmica das operações.
As compras foram realizadas por fundos como Esna, Texas e Kyra, apontados nas investigações como integrantes do ecossistema financeiro estruturado em torno do Banco Master. A autarquia apura se houve atuação coordenada entre participantes do mercado e eventual alinhamento de interesses privados durante as negociações. Até o momento, a investigação regulatória não representa conclusão definitiva sobre responsabilidades dos envolvidos.

As conexões também aparecem em outros documentos públicos. Dados analisados pela imprensa mostram que fundos posteriormente incorporados ao conglomerado do BRB possuíam investimentos em ativos relacionados tanto ao universo empresarial de Daniel Vorcaro quanto em ações da Ambipar, reforçando a interligação financeira entre esses agentes.
Além disso, as investigações sobre o Banco Master apontam que recursos captados pela instituição eram direcionados para fundos que investiam em empresas em processo de reestruturação ou com forte exposição ao mercado de capitais, entre elas a própria Ambipar. Esse conjunto de operações passou a integrar a apuração conduzida pelas autoridades no âmbito do caso Banco Master.
É nesse contexto que ganha relevância a reportagem da Gazeta do Paraná, ao afirmar que o escritório de relações institucionais do qual a jornalista Renata Varandas é sócia recebeu pagamentos da Ambipar. A notícia não sustenta, por si só, a existência de irregularidades envolvendo a jornalista, o escritório ou a empresa, mas insere um novo elemento em um caso que já mobiliza a Polícia Federal, o Ministério Público, o Banco Central, a CVM e o Supremo Tribunal Federal.
SAIBA: Lula foi inaugurar fábrica do Dono do Banco Master em 2024
Foi justamente essa relação que levou a Gazeta do Paraná a destacar que o escritório de relações institucionais do qual a jornalista Renata Varandas é sócia recebeu pagamentos da empresa, acrescentando um novo elemento ao debate sobre o caso Banco Master.
Até o momento, a existência dessa ligação, por si só, não constitui prova de irregularidade por parte da Ambipar, de Renata Varandas ou do escritório citado. A relevância jornalística decorre do fato de envolver uma empresa associada pela reportagem ao principal personagem de uma das maiores investigações financeiras em andamento no país.
Quem é Renata Varandas
Renata Varandas possui mais de duas décadas de atuação no jornalismo político. Em 2024, foi demitida da Record após o vazamento antecipado ao mercado financeiro de trechos de uma entrevista com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, episódio confirmado pela emissora na época. Posteriormente, tornou-se sócia do escritório Figueiredo & Velloso Advogados Associados, reforçando a área de comunicação e relações governamentais, antes de assumir a apresentação do programa Poder em Foco, do SBT News.

A ligação com Daniel Vorcaro
Daniel Vorcaro tornou-se um dos principais personagens do caso Banco Master, investigação que apura um amplo esquema de supostas fraudes financeiras. O ex-controlador da instituição encontra-se preso preventivamente por determinação do Supremo Tribunal Federal e continua sendo alvo de investigações conduzidas pela Polícia Federal e por outros órgãos de controle.
Segundo a Gazeta do Paraná, os pagamentos feitos ao escritório do qual Renata Varandas participa tiveram origem na Ambipar, empresa que o veículo relaciona ao universo empresarial de Vorcaro. Essa informação faz parte da reportagem publicada pelo jornal e integra o contexto apresentado pelo veículo.
Procurados os citados não se manifestaram até a publicação desta reportagem. O espaço pemanece aberto.
A decisão do STF que aumentou a repercussão
O tema ganhou ainda mais relevância após decisões do ministro André Mendonça, relator de procedimentos relacionados ao caso Banco Master, restringindo o compartilhamento de determinadas informações consideradas sensíveis durante a investigação. As medidas reforçaram o grau de sigilo envolvendo documentos apreendidos e personagens citados no inquérito.
Por que isso importa
Embora a reportagem da Gazeta do Paraná não apresente, por si só, prova de ilegalidade por parte da jornalista, do diretor-geral da Polícia Federal ou do SBT News, a divulgação dos fatos amplia o debate sobre transparência, governança e gestão de potenciais conflitos de interesse quando atividades privadas de representação institucional coexistem com funções de elevada exposição pública e relações com autoridades responsáveis por investigações de grande repercussão nacional.