A tentativa de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas entrou definitivamente na agenda geopolítica regional — com implicações que ultrapassam segurança pública e avançam sobre soberania, fluxo de capitais e arquitetura jurídica internacional.
O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, afirmou que grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) “geram um sentimento de terrorismo”, ao descrever os efeitos dessas organizações na estabilidade institucional e social da região.
A fala ocorre após encontros diretos com Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, inserindo o tema no eixo de negociação entre dois modelos distintos de abordagem: soberania jurídica versus securitização internacional.
Reclassificação como terrorismo: mudança de regime, não de nomenclatura
A proposta defendida pelos Estados Unidos, especialmente sob a influência política de Donald Trump, busca enquadrar PCC e CV como organizações terroristas internacionais.
Essa mudança desloca o problema de:
- crime organizado transnacional → terrorismo internacional
O efeito prático é estrutural:
1. Expansão de jurisdição
Permite atuação extraterritorial mais agressiva, inclusive com base em legislação antiterrorismo norte-americana.
2. Sistema financeiro sob pressão
Instituições passam a operar sob risco ampliado de:
- sanções secundárias
- bloqueios de ativos
- restrições de liquidez internacional
3. Compliance e custo de capital
Empresas brasileiras expostas a fluxos internacionais podem sofrer:
- aumento de custo regulatório
- due diligence reforçada
- reprecificação de risco-país
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O gatilho operacional: prisão de Sebastián Marset
A declaração de Paz não é abstrata — ela se ancora em evento concreto.
A Bolívia prendeu e extraditou para os EUA o narcotraficante uruguaio Sebastián Marset, apontado como operador relevante no ecossistema regional e associado ao PCC.
Segundo o presidente boliviano, a atuação de Marset produzia:
“uma espécie de terrorismo, de instabilidade e submissão”
Após a operação, Paz afirmou que a sociedade boliviana está “mais livre”, consolidando a narrativa de que o crime organizado atua com mecanismos de coerção comparáveis ao terrorismo: controle territorial, intimidação sistemática e erosão institucional.
“Ciclo de terrorismo”: tentativa de reclassificação conceitual
Rodrigo Paz introduz um elemento-chave ao debate:
- o terrorismo não seria binário, mas graduado
- facções poderiam integrar um “ciclo de terrorismo”
Essa formulação busca legitimar a equiparação entre:
- grupos ideológicos clássicos
- organizações criminosas com alto grau de violência e controle social
O ponto de fricção está na ausência de motivação política explícita — critério tradicional do terrorismo — o que torna a reclassificação juridicamente controversa, porém politicamente funcional.
Resistência brasileira de Lula na classificação de PCC e CV como terrorismo: soberania, eleição e risco de ingerência
O Brasil resiste à classificação por razões estratégicas e sistêmicas:
1. Narrativa de soberania operacional
A desculpa de Lula é que a designação pode abrir espaço para intervenção indireta ou direta de potências estrangeiras, sob o arcabouço do combate ao terrorismo. Contudo, esta determinação não tem este significado, mas facilita o combate as facções que estão invadindo os países vizinhos inclusive os EUA.
2. Ano eleitoral e risco de captura política
O tema possui alto potencial de instrumentalização doméstica, elevando:
- volatilidade institucional
- polarização
- risco regulatório
3. Mudança de doutrina de segurança ajuda o Brasil
A reclassificação implicaria transição para uma lógica de:
- inteligência militarizada
- cooperação internacional intensiva
- possível envolvimento de estruturas de defesa
Cooperação Brasil–Bolívia: integração operacional apesar da divergência
Mesmo com diferenças conceituais, Brasil e Bolívia avançaram pragmaticamente.
Durante visita oficial a Brasília, foram firmados acordos que incluem:
- busca ativa de criminosos transnacionais
- intercâmbio de inteligência
- capacitação de forças de segurança
- coordenação operacional
O escopo cobre:
- narcotráfico
- tráfico de pessoas
- lavagem de dinheiro
- contrabando
- crimes ambientais
- crimes cibernéticos
Ou seja, há alinhamento tático — mesmo sem convergência estratégica sobre a classificação jurídica.
Bolívia como vetor de equilíbrio geopolítico
Rodrigo Paz explicitou a estratégia diplomática do país:
“Se em oito dias a Bolívia pode estar com Trump e com Lula, deem um crédito à Bolívia.”
A sinalização é clara:
- posicionamento como ator de mediação regional
- tentativa de capturar benefícios de ambos os polos
- adaptação a um ambiente de crescente disputa por influência na América Latina
Tendência regional: endurecimento e isolamento relativo do Brasil
O movimento não é isolado.
Países como Argentina e Paraguai já passaram a tratar facções brasileiras sob ótica de narcoterrorismo e agora Bolívia, reforçando:
- controle de fronteiras
- integração de inteligência
- alinhamento com padrões internacionais mais rígidos
Isso coloca o Brasil de Lula em posição potencialmente dissonante — elevando pressão diplomática e regulatória.
Impacto sistêmico do Brasil ficar de fora com opção de Lula: onde o risco realmente está
O ponto central não está na retórica — mas na mecânica de mercado e Estado.
Financeiro
- aumento do risco-país implícito
- pressão sobre câmbio e CDS
- maior custo de funding externo
Bancário
- reforço de controles AML/KYC
- risco de desbancarização seletiva
- maior escrutínio de operações internacionais
Corporativo
- due diligence ampliada
- risco reputacional em cadeias globais
- impacto em M&A e investimentos estrangeiros
Institucional
- potencial erosão de autonomia decisória
- ampliação da dependência de cooperação externa
Leitura técnica (ponto de atenção crítico)
A classificação de PCC e CV como terrorismo representa uma mudança de regime jurídico-financeiro, não apenas de segurança pública.
O Brasil enfrenta um trade-off claro:
- manter a narrativa de Lula de soberania, enquanto a China cresce no país.
vs - absorver e passar para brasileiros o custo crescente de isolamento regulatório e pressão internacional
A tendência global — especialmente sob influência dos EUA — indica avanço do modelo de securitização ampliada.
A declaração de Rodrigo Paz não é episódica — ela funciona como vetor de pressão e sinalização de mudança estrutural.
O debate sobre PCC e CV deixou de ser doméstico e passou a integrar:
- a agenda geopolítica
- o sistema financeiro internacional
- e a arquitetura de segurança regional
O desfecho desse processo terá impacto direto sobre:
- risco-país
- custo de capital
- e grau de autonomia estratégica do Brasil








