André Esteves chama modelo do Banco Master de “pirâmide” — mas mercado agora questiona quem lucrou bilhões distribuindo os CDBs

INVESTIDORES BRASIL

A declaração do chairman do BTG Pactual, André Esteves, sobre o Banco Master provocou forte reação no mercado financeiro — não apenas pelo tom da crítica, mas também pelo histórico de relações entre grandes plataformas financeiras e os produtos emitidos por bancos médios.

Durante evento em Nova York, Esteves afirmou que o mercado assistiu ao nascimento de um “esquema meio de pirâmide” e citou uma “falha regulatória grande” no sistema de supervisão bancária, mas não mencionou o Banco Central.

“A gente viu nascer um esquema meio de pirâmide.”

A fala rapidamente elevou a temperatura do debate financeiro porque atinge um ponto extremamente sensível: os mesmos grandes grupos financeiros que hoje criticam o modelo dos bancos médios ajudaram durante anos a distribuir agressivamente seus produtos de renda fixa.

SAIBA: Dono do Banco Master vende ativos para o BTG Pactual

O detalhe que muda completamente a leitura do caso

O mercado financeiro brasileiro não descobriu o Banco Master ontem.

Durante anos, plataformas ligadas aos maiores grupos financeiros do país distribuíram CDBs de bancos médios oferecendo:

  • retornos muito acima do CDI;
  • liquidez atraente;
  • forte cobertura publicitária;
  • e uso intenso da proteção do Fundo Garantidor de Créditos como argumento comercial.

Entre as plataformas mais agressivas na expansão desse mercado estavam grandes distribuidoras ligadas ao próprio sistema financeiro tradicional e às fintechs de investimento.

O problema central é que esse modelo era altamente lucrativo:

  • o banco médio captava;
  • a plataforma distribuía;
  • o investidor buscava yield elevado;
  • e todos ganhavam enquanto a confiança permanecia intacta.

Agora, depois que parte do mercado passou a enxergar risco estrutural no modelo, o discurso mudou radicalmente.

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A contradição que o mercado começou a discutir

A fala de André Esteves abriu espaço para uma pergunta desconfortável:

se o modelo era tão problemático, por que tantos grandes players ajudaram a expandi-lo durante anos?

O debate ficou ainda mais sensível porque o próprio BTG já demonstrou interesse em ativos ligados à estrutura envolvendo o Banco de Brasília após o agravamento da crise.

Além disso, circularam no mercado relatos de propostas extremamente depreciadas envolvendo ativos ligados ao ecossistema do Master — incluindo especulações sobre tentativas de aquisição simbólica da operação em momentos de forte estresse, o BTG Pactual teria oferecido R$ 1 pelo Master.

MAIS: Mensagens sugerem que Banco Central incentivou reunião entre Vorcaro e Esteves do BTG para negócio durante crise do Banco Master

Vorcaro dizia que bancos médios “incomodavam os grandes”

O fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, vinha sustentando há meses a narrativa de que bancos médios passaram a incomodar os grandes conglomerados financeiros brasileiros justamente porque conseguiam competir pagando mais ao investidor.

Segundo essa visão defendida por Vorcaro e por parte do mercado:

  • bancos médios quebraram o oligopólio da captação;
  • elevaram remuneração do investidor;
  • pressionaram spreads;
  • e passaram a disputar espaço com bancões e grandes plataformas.

Dentro dessa narrativa, o aumento recente da pressão regulatória seria também uma reação competitiva do sistema tradicional.

Esse ponto é importante porque existe, de fato, um movimento crescente de endurecimento prudencial sobre bancos médios por parte do Banco Central do Brasil nos últimos anos.

VORCARO

Ao mesmo tempo, reguladores argumentam que o avanço era necessário diante do crescimento acelerado de estruturas consideradas mais frágeis em liquidez e capitalização.

LEIA: Vorcaro acusa Bancos maiores de promoverem “mudança no FGC que causou a quebra do Master”

O caso Master expôs um problema maior do que um único banco

A crise acabou revelando algo muito mais profundo:

o sistema inteiro se acostumou a um ciclo onde risco elevado era empacotado como “renda fixa turbinada”.

Enquanto o fluxo de captação crescia:

  • plataformas ganhavam comissão;
  • bancos médios expandiam balanços;
  • investidores recebiam taxas muito acima dos grandes bancos;
  • e o FGC funcionava como amortecedor psicológico do mercado.

O problema surgiu quando investidores começaram a perguntar algo que quase nunca era enfatizado nas campanhas comerciais:

por que algumas instituições precisavam pagar tão acima da média para captar dinheiro?

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O FGC virou peça central da discussão

O episódio também colocou o Fundo Garantidor de Créditos no centro do debate financeiro brasileiro.

Durante anos, muitos investidores passaram a enxergar CDBs de bancos médios quase como equivalentes a títulos soberanos de baixo risco — desde que respeitados os limites de cobertura do FGC.

Mas o mercado sabe que o FGC não elimina:

  • risco sistêmico;
  • risco de liquidez;
  • risco operacional;
  • nem efeitos de contágio psicológico.

Na prática, o sistema inteiro funcionava enquanto havia confiança de que:

  1. o investidor continuaria comprando;
  2. o banco continuaria captando;
  3. e o FGC sustentaria a percepção de segurança.

Agora, parte do mercado teme que o episódio provoque revisão estrutural desse modelo.

FGC
Imagem: Divulgação

A fala de André Esteves pode marcar uma virada regulatória

Ao usar expressões como “pirâmide” e “explosão”, o chairman do BTG elevou a pressão sobre supervisão bancária e sobre modelos agressivos de captação.

Mas o caso também abriu outra discussão delicada:

até que ponto grandes plataformas financeiras participaram da expansão justamente do modelo que agora criticam publicamente?

BTG Pactual, XP Investimentos e Nubank foram distribuidores destes CDBs do Master e lucraram muito com eles.

Essa pergunta tende a permanecer no centro do debate financeiro brasileiro porque envolve:

  • conflito concorrencial;
  • incentivo econômico;
  • concentração bancária;
  • distribuição de risco ao varejo;
  • e uso comercial da proteção do FGC.

No fim, o caso Master talvez tenha revelado algo ainda mais desconfortável para o mercado:

não era apenas um banco apostando alto.

Era um ecossistema inteiro lucrando enquanto a engrenagem continuava funcionando.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Estrategista focada em proteger o investidor pessoa física dos conflitos de interesse dos grandes bancos e corretoras. Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado de Capitais. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia
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