XP foi sócia do banco controlado pelo Master, recebeu CDBs na saída e virou principal distribuidora dos títulos que agora são alvo de ação judicial

INVESTIDORES BRASIL

A relação financeira entre a XP Inc., o Banco Master e o Will Bank tornou-se um dos episódios mais debatidos do mercado financeiro brasileiro após a liquidação da instituição e o surgimento de uma ação civil pública que questiona a venda de títulos do banco a investidores de varejo.

Documentos de mercado e dados do processo indicam que a XP chegou a dividir participação societária com o grupo controlado por Daniel Vorcaro no Will Bank, saiu da operação recebendo CDBs emitidos pelo próprio Banco Master e posteriormente tornou-se a principal plataforma de distribuição desses títulos no mercado.

Após a liquidação da instituição financeira, essa cadeia — sociedade indireta, pagamento em títulos e distribuição aos clientes — passou a ser discutida judicialmente.

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A entrada da XP no Will Bank

A origem da relação começa em 2021, quando fundos ligados à XP participaram de uma rodada de capital no Will Bank.

Estrutura da operação:

  • investimento aproximado: R$ 150 milhões
  • participação adquirida: 14,9% do capital do banco digital
  • posição: investidor minoritário estratégico.

O banco digital buscava ampliar sua presença no mercado dominado por fintechs como Nubank e Banco Inter, oferecendo contas digitais e crédito ao consumidor.

Após o Banco Master assumir o controle do Will Bank, a XP negociou a saída do investimento. A corretora trocou sua participação pela compra de R$ 410 milhões em CDBs do Master, títulos de renda fixa emitidos por bancos para captação de recursos.

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A compra do Will Bank pelo Banco Master

A estrutura acionária mudou em 23 de fevereiro de 2024, quando o Banco Master anunciou a aquisição do controle do Will Bank.

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Com a transação:

  • o Master tornou-se acionista controlador do banco digital
  • investidores minoritários permaneceram temporariamente na estrutura.

Nesse período de transição societária, XP e Banco Master passaram a ser co-acionistas da mesma instituição financeira, ainda que com posições distintas na governança.

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A saída da XP e o pagamento em CDBs

Após a mudança de controle, a XP negociou a venda de sua participação.

Segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o fundo XP Private Equity I investiu R$ 150 milhões no Will Bank em 2021, em uma rodada que somou R$ 250 milhões ao lado da Atmos Capital. Com o aporte, a XP passou a deter 14,9% do capital da instituição financeira.

Em março de 2022, a participação foi reavaliada em R$ 301,5 milhões. Já em 2024, o valor caiu para R$ 253 milhões, refletindo a deterioração do desempenho do banco digital.

Após o Banco Master assumir o controle do Will Bank, a XP negociou a saída do investimento. A corretora trocou sua participação pela compra de R$ 410 milhões em CDBs do Master, títulos de renda fixa emitidos por bancos para captação de recursos.

Na mesma operação, a XP vendeu R$ 205 milhões desses papéis a investidores. À época, os CDBs do Master ofereciam rentabilidade acima da média de mercado, o que ampliou a demanda pelos títulos.

Dados mais recentes do fundo, divulgados em março de 2025, mostram que a XP comprou outros R$ 180 milhões em CDBs do Master e repassou R$ 308 milhões ao mercado, mantendo ainda R$ 73,5 milhões em carteira.

Os números referentes ao período entre março e setembro do ano passado (quando as investigações sobre o Master se intensificaram) ainda não foram divulgados.

Os papéis tinham características típicas da estratégia de captação do banco:

  • remuneração entre 110% e 120% do CDI
  • prazos entre 2 e 5 anos
  • cobertura do Fundo Garantidor de Créditos até o limite de R$ 250 mil por CPF por instituição. Com um valor máximo por CPF de R$ 1 milhão e um prazo de 4 anos.

Posteriormente, títulos emitidos pelo Banco Master passaram a aparecer nas plataformas de investimento.

A estratégia agressiva de captação do banco

Nos anos que antecederam a crise, o Banco Master expandiu rapidamente sua captação via renda fixa.

Enquanto grandes instituições como Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil ofereciam CDBs próximos ao CDI, o Master pagava retornos significativamente superiores.

Essa estratégia permitiu que o volume de títulos emitidos pelo banco crescesse rapidamente.

Segundo dados apresentados na ação judicial, R$ 40,6 bilhões em CDBs do Banco Master estavam em circulação quando a instituição foi liquidada.

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XP aparece como principal distribuidora dos títulos do Banco Master

A petição inicial da ação civil pública aponta que a distribuição dos papéis ocorreu principalmente por plataformas digitais.

Segundo os dados citados no processo:

  • XP distribuiu cerca de R$ 26 bilhões em CDBs do banco
  • BTG Pactual distribuiu aproximadamente R$ 6,7 bilhões
  • Nubank cerca de R$ 2,9 bilhões.

Esses números colocam a XP como a maior distribuidora dos títulos do Banco Master no mercado de varejo.

A liquidação do Banco Master

A expansão do banco acabou sendo interrompida quando o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025.

A decisão ocorre quando o regulador conclui que a instituição não possui condições de continuar operando normalmente.

Com a liquidação:

  • operações da instituição foram suspensas
  • investidores passaram a acionar o Fundo Garantidor de Créditos.

Segundo dados citados no processo judicial, cerca de 800 mil investidores solicitaram ressarcimento após a intervenção.

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Os investidores que ficaram com prejuízo

Luiz Simões, que mora em Uberlândia (MG), era um desses investidores. Embora ele tivesse essa garantia do FGC, o medo de perder tudo o que investiu nas carteiras do Banco Master rondava a sua mente devido à própria burocracia e demora para obter o reembolso.

“Eu fiquei muito apreensivo, tenso e alguns dias sem dormir. O site e o aplicativo [do FGC são] completamente pobres em informações. Era robótico e precário. Era até difícil de acreditar que o fundo mantido pelos principais bancos do nosso país tinha um atendimento daquele”.

Ele recebeu os R$ 20 mil investidos no Master quase dois meses depois da liquidação do banco, muito depois das 48 horas estimadas pelo FGC para os reembolsos. O valor caiu na conta em fevereiro de 2026 sem correção monetária do tempo parado desde novembro de 2025.

“A impressão é a de que as irregularidades com o banco eram conhecidas há muito tempo, mas isso foi escondido dos investidores em geral”, afirmou ele.

 A segurança dos CDBs tornou esse título a “moda” do mercado financeiro. Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram que eles somaram R$ 1,33 trilhão em 2025, uma alta de 27,7%. Os CDBs lideram em todas as regiões do país como o preferido dos investidores.

Depois do caso, parte dos investidores entrevistados dizem que mudaram a maneira de olhar para a renda fixa bancária. Alguns ainda defendem que investir continua sendo necessário, mas afirmam que passaram a desconfiar mais de taxas fora da curva e a reduzir exposição em instituições menores. E neste ponto os Bancos grandes que lucraram mais e oferecem menos ao investidor estão comemorando.

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A ação judicial contra plataformas

Após o episódio, a Abradecont ingressou com uma Ação Civil Pública contra plataformas que distribuíram os títulos do banco.

A ação foi encaminhada em 23 de janeiro de 2026 e tramita na 6ª Vara Empresarial da Comarca do Rio de Janeiro.

Entre as instituições citadas como rés estão:

  • XP
  • BTG Pactual
  • Nubank.

O que a ação questiona

O processo sustenta que os investidores teriam adquirido CDBs do Banco Master sem informação adequada sobre os riscos associados ao emissor.

Entre os pontos levantados:

  • suposta insuficiência de transparência na oferta dos títulos
  • possível uso predominante da garantia do FGC como argumento comercial
  • questionamentos sobre adequação dos produtos ao perfil de risco dos investidores.

A ação pede R$ 100 milhões em danos morais coletivos, além de indenizações individuais.

Até o momento, não há decisão judicial definitiva.

Defesa das instituições

A XP Inc. afirmou publicamente que a ação é “oportunista”, sustentando que não haveria dano aos investidores porque os títulos contam com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos dentro dos limites legais.

O Nubank declarou que deixou de oferecer CDBs do Banco Master em 2024.

Já o BTG Pactual não apresentou posicionamento público detalhado até o momento.

Linha do tempo do caso

2021 — XP investe cerca de R$ 150 milhões no Will Bank.

23 fev 2024 — Banco Master anuncia aquisição do controle do banco digital.

2024 — XP e Banco Master tornam-se co-acionistas temporários do Will Bank.

2024 — XP vende participação e recebe aproximadamente R$ 410 milhões em CDBs do Master e repassa a clientes dos quais muitos não foram cobertos pelo FGC.

2024–2025 — títulos do banco são distribuídos em plataformas de investimento.

Novembro de 2025 — Banco Central decreta liquidação extrajudicial do Banco Master.

Janeiro de 2026 — ação civil pública é apresentada contra plataformas que venderam os títulos.

XP é sócia do Banco Master
A rota dos CDBs podres do Banco Master

O debate que o caso abriu no mercado financeiro

O episódio expôs fragilidades no crescimento do mercado de crédito privado no Brasil, especialmente na distribuição de títulos bancários para investidores pessoa física.

Analistas do setor apontam três pontos centrais:

  • transparência na venda de produtos de renda fixa
  • governança em situações de relações societárias prévias entre emissores e distribuidores
  • dependência de bancos médios de captação via CDBs de alto rendimento.

Dependendo do desfecho judicial, especialistas avaliam que o caso poderá levar a novas exigências regulatórias na distribuição de títulos bancários por plataformas digitais.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Estrategista focada em proteger o investidor pessoa física dos conflitos de interesse dos grandes bancos e corretoras. Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado de Capitais. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia
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