Dia das Mães confirma consumidor pressionado: inflação e juros expõem fragilidade do consumo

INVESTIDORES BRASIL

Dados do varejo mostram crescimento nas vendas do Dia das Mães, mas inflação elevada, juros altos e perda de poder de compra continuam pressionando o consumo das famílias brasileiras.

O Dia das Mães voltou a movimentar bilhões no varejo brasileiro, mas os números de 2026 revelam um cenário menos otimista do que parte do mercado tenta transmitir.

Embora as vendas tenham crescido no comparativo anual, os dados mostram que inflação elevada, juros altos e perda de poder de compra continuam pressionando o consumo das famílias. Na prática, boa parte da expansão observada no faturamento veio do aumento dos preços — e não necessariamente de uma melhora consistente na demanda.

O resultado reforça uma tendência cada vez mais visível na economia brasileira:
o consumidor continua comprando em datas emocionalmente importantes, mas de forma mais cautelosa, seletiva e financeiramente pressionada.

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Varejo teve crescimento real quase inexistente

O Ibevar/FIA apontou crescimento nominal de 5%, mas expansão real inferior a 1%, explicitando que inflação corroeu praticamente todo o avanço do faturamento

O desempenho mantém a data como uma das mais relevantes do calendário varejista nacional, atrás apenas do Natal em diversos segmentos.

No comércio eletrônico, os números também vieram fortes.

Estimativas ainda não consolidadas da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) apontaram faturamento próximo de R$ 11 bilhões no e-commerce durante o período, avanço estimado em cerca de 10,8% na comparação anual.

O digital segue ampliando participação no varejo brasileiro, especialmente em categorias como:

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  • moda,
  • cosméticos,
  • perfumaria,
  • acessórios,
  • chocolates,
  • e itens de ticket médio intermediário.
  • A FecomercioSP estimou crescimento de apenas 3% no varejo paulista, citando explicitamente alto endividamento e comprometimento de renda das famílias como limitadores do consumo.

E há um terceiro ponto muito importante:

  • A percepção de inflação pelo consumidor chegou a 66% segundo CNDL/SPC, enquanto parte dos consumidores cumpriu intenção de reduzir gastos ou comprar presentes mais baratos

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Crescimento nominal não significa consumo forte

Apesar da leitura positiva inicial, os dados exigem uma análise mais cuidadosa.

Levantamento do Ibevar/FIA estimou crescimento nominal de aproximadamente 5% nas vendas monitoradas durante o período do Dia das Mães.

Quando descontada a inflação, porém, o crescimento real ficou abaixo de 1%.

Esse detalhe muda completamente a interpretação do cenário.

Na prática, significa que parte relevante da alta no faturamento foi sustentada por preços mais altos, e não necessariamente por aumento robusto no volume consumido pelas famílias.

O efeito é clássico em ambientes de inflação persistente:

  • o faturamento sobe,
  • mas o poder de compra segue fragilizado.

Para o consumidor, a percepção é imediata.

Pesquisas do setor mostram que a maioria dos brasileiros percebeu aumento nos preços dos presentes em relação ao ano anterior.

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Consumidor compra, mas reduz valor e quantidade

O comportamento observado no Dia das Mães reforça um padrão já visto em outros eventos do varejo recente:
o brasileiro continua consumindo, porém de maneira mais racional.

Entre os movimentos identificados nas pesquisas do setor:

  • redução da quantidade de presentes;
  • migração para itens mais baratos;
  • maior comparação de preços;
  • busca intensa por promoções;
  • crescimento do cashback;
  • parcelamento mais seletivo;
  • e avanço das compras via Pix.

O consumidor segue presente no varejo, mas claramente mais defensivo financeiramente.

O comportamento do consumidor durante o Dia das Mães reforça o efeito cumulativo de quase três anos de juros elevados na economia brasileira, especialmente sobre famílias de renda média e baixa mais dependentes de crédito parcelado

Isso ajuda a explicar porque diversos segmentos continuam enfrentando:

  • margens pressionadas,
  • promoções agressivas,
  • estoques elevados,
  • e dificuldade de repassar custos sem perda de demanda.

Pix acelera transformação do varejo

Outro destaque importante foi o avanço do Pix durante o período.

Dados divulgados pela Getnet apontaram forte crescimento das transações instantâneas na comparação anual.

O movimento reforça uma mudança estrutural relevante:
varejistas tentam reduzir dependência do cartão de crédito, das taxas das adquirentes e do parcelamento longo.

Para o consumidor, o Pix também virou ferramenta de controle financeiro em um ambiente onde:

  • juros seguem elevados;
  • crédito permanece caro;
  • e o endividamento das famílias continua pressionando a renda disponível.

Esse cenário favorece operações mais eficientes e menos dependentes de receitas financeiras associadas ao crédito parcelado.

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pix golpe criminosos

Pequenas empresas continuam ganhando espaço

As pequenas e médias empresas também apareceram entre os destaques positivos do período.

Dados da Olist mostraram crescimento relevante nas vendas de PMEs durante a semana do Dia das Mães, reforçando a força crescente de:

  • marketplaces,
  • sellers independentes,
  • social commerce,
  • e operações digitais mais enxutas.

Enquanto grandes varejistas continuam pressionadas por:

  • custo financeiro elevado,
  • estruturas pesadas,
  • despesas operacionais maiores,
  • e margens comprimidas,

operações digitais menores conseguem reagir mais rapidamente ao comportamento do consumidor.

O que os números realmente mostram

O Dia das Mães confirma que o consumo brasileiro ainda não entrou em colapso, mesmo com juros elevados.

Mas os dados também deixam claro que a qualidade desse consumo mudou.

O brasileiro continua comprando em datas relevantes porque eventos emocionais possuem forte apelo cultural e social. Porém, o padrão atual é de:

  • menor poder de compra;
  • maior sensibilidade a preços;
  • dependência crescente de promoções;
  • e consumo mais defensivo.

Isso desmonta parcialmente a narrativa de consumo amplamente aquecido que parte do mercado tenta sustentar olhando apenas para números nominais.

O faturamento sobe.
Mas o crescimento real continua limitado.

Para investidores e empresas do varejo, o recado é importante:
companhias com operação eficiente, forte presença digital, logística competitiva e menor dependência do crédito ao consumidor continuam mais preparadas para atravessar um ambiente de juros altos e desaceleração gradual da demanda.

Já empresas excessivamente dependentes:

  • de parcelamento longo,
  • expansão financiada,
  • ou consumo impulsivo de baixa renda

O Dia das Mães mostrou que o consumo brasileiro continua resiliente, mas também deixou claro que boa parte dessa resistência vem sendo sustentada por promoções, compressão de margens e maior sensibilidade ao preço — um ambiente que tende a continuar pressionando o varejo enquanto juros elevados limitarem o avanço real da renda e do crédito.

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Lucy Costa
Lucy Costa
Jornalista especializada em finanças e estatística. Você gosta de meus conteúdos? Entre em contato; email: [email protected]
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