Juros futuros avançam nesta quarta-feira (23) com forte alta dos rendimentos dos Treasuries e nova pesquisa eleitoral que devolveu Lula à liderança numérica sobre Flávio Bolsonaro; no Brasil, desdobramentos do caso Banco Master e do ambiente institucional mantêm a curva sensível ao risco doméstico.
As taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) fecharam em alta nesta quarta-feira (23), acompanhando a disparada dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos e reagindo à nova fotografia da corrida presidencial. O DI para janeiro de 2028 avançou 10 pontos-base, para 13,585%, enquanto o contrato para janeiro de 2035 subiu 7 pontos-base, para 14,035%.
No exterior, o Treasury de dez anos chegou a 5,11%, enquanto o Brent avançou para US$ 103,65 por barril. No cenário doméstico, a pesquisa Atlas/Bloomberg mostrou Lula com 47,7% e Flávio Bolsonaro com 47,4% em um eventual segundo turno, empate técnico pela margem de erro de um ponto percentual.
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O movimento dos juros, portanto, combina pressão externa, nova informação eleitoral e um ambiente doméstico de maior sensibilidade ao risco político e institucional. Os desdobramentos do Banco Master, que envolvem Daniel Vorcaro, autoridades e integrantes do STF, fazem parte desse contexto, embora não seja possível atribuir a alta desta sessão diretamente ao caso.
Resumo executivo
- DI Jan/28: 13,585%, alta de 10 pontos-base.
- DI Jan/35: 14,035%, alta de 7 pontos-base.
- Treasury de 10 anos: 5,11%, alta de 14 pontos-base.
- Brent: US$ 103,65, alta de 4,45%.
- Atlas/Bloomberg: Lula 47,7% x Flávio 47,4%, empate técnico.
- Selic: 13,75%, com a curva ainda precificando possibilidade de corte de 25 pontos-base em novembro.
- Risco doméstico: caso Banco Master, STF, eleição e cenário fiscal continuam no radar.
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Treasuries puxam os juros para cima
O principal vetor externo da sessão foi a forte alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano.
Às 16h36, o Treasury de dez anos, referência global para a precificação de ativos, subia 14 pontos-base, para 5,11%.
O movimento ocorreu em meio à divulgação de novos dados de atividade nos Estados Unidos. O PMI composto da S&P Global avançou de 56,0 em agosto para 58,4 em setembro, maior nível desde julho de 2021.
Leituras mais fortes de atividade podem aumentar a preocupação com a persistência das pressões inflacionárias e, consequentemente, reduzir o espaço para uma política monetária americana mais expansionista.
A consequência é relevante para países emergentes: quanto maior o rendimento dos títulos americanos considerados referência global, maior tende a ser o retorno exigido para posições em ativos de maior risco.
O petróleo acrescentou outra pressão. O Brent avançou 4,45%, para US$ 103,65 por barril, em meio aos desdobramentos geopolíticos envolvendo Estados Unidos e Irã.
A combinação de petróleo elevado e juros americanos mais altos cria um ambiente menos favorável para a curva brasileira.
Pesquisa eleitoral devolve Lula à liderança numérica
No ambiente doméstico, a nova pesquisa Atlas/Bloomberg acrescentou outro componente ao movimento.
No cenário de segundo turno, Lula apareceu com 47,7% das intenções de voto, contra 47,4% de Flávio Bolsonaro.
A diferença de 0,3 ponto percentual está dentro da margem de erro de 1 ponto percentual. Portanto, o resultado configura empate técnico.
No levantamento anterior, Flávio tinha 47,2% e Lula, 46,8%.
A mudança é pequena do ponto de vista estatístico, mas relevante para um mercado que passou a acompanhar a eleição de 2026 como variável para câmbio, juros e ativos de risco.
Nas últimas semanas, a melhora relativa de Flávio em diferentes pesquisas vinha sendo associada ao chamado “trade eleitoral”, expressão usada no mercado para descrever movimentos de preços relacionados às expectativas sobre o próximo governo.
Com a nova pesquisa, parte desse movimento foi parcialmente revertida.
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Por que a pesquisa mexe com os juros
A eleição importa para a curva de juros porque diferentes cenários políticos podem produzir expectativas distintas para política fiscal, trajetória da dívida, inflação e câmbio.
Essa relação não significa que uma pesquisa isolada determine os preços dos DIs.
O que ocorre é que, em um mercado já sensível às expectativas para o próximo governo, pequenas alterações nas pesquisas podem provocar ajustes nas posições de investidores.
A sessão desta quarta-feira mostra justamente essa combinação: um choque externo forte, acompanhado por uma nova informação eleitoral doméstica.
Por isso, atribuir a alta dos DIs exclusivamente à pesquisa seria simplificar o movimento.
Caso Master mantém o risco doméstico no radar
Enquanto os fatores externos pressionavam a curva nesta quarta-feira, o ambiente doméstico continua marcado pelos desdobramentos do caso Banco Master.
As investigações envolvendo o banco e Daniel Vorcaro revelaram contatos com autoridades e integrantes do Judiciário. O episódio passou a envolver também discussões sobre a atuação da Polícia Federal, decisões no STF e o acesso a mensagens relacionadas às relações de Vorcaro com autoridades.
O tema já havia aparecido na formação dos preços dos juros em sessões anteriores.
Em 15 de setembro, por exemplo, os juros futuros intermediários e longos subiram em um pregão no qual o risco institucional relacionado ao caso Master foi apontado entre os fatores acompanhados pelos investidores.
A diferença importante é temporal: o caso ajuda a explicar a sensibilidade do prêmio de risco doméstico, mas não deve ser apresentado como explicação isolada para a alta dos DIs desta quarta-feira.
As mensagens envolvendo Vorcaro e Lula
Outro episódio relacionado ao caso ganhou espaço no debate político nesta semana.
Mensagens do advogado Walfrido Warde, que atuava para Vorcaro, mencionam um presente destinado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tratam de contatos entre o empresário e o entorno presidencial.
O episódio foi levado ao STF em pedido apresentado pelo senador Flávio Bolsonaro.
A Presidência, porém, nega que Lula tenha recebido presentes de Vorcaro.
A distinção é fundamental: as mensagens constituem um elemento documental da investigação, mas a existência de uma alegação ou relato em mensagens não equivale, por si só, à comprovação de que o fato ocorreu como descrito.
Para o mercado, o aspecto relevante é mais amplo: o caso Master passou a envolver diferentes autoridades e instituições, aumentando a atenção sobre possíveis efeitos políticos e institucionais.
Lula endurece retórica contra Trump na reta final da eleição
A passagem de Lula pela Assembleia-Geral da ONU ocorreu a apenas 12 dias do primeiro turno, em um momento no qual a disputa presidencial aparece apertada nas pesquisas. O discurso combinou defesa da soberania brasileira, críticas às políticas de Donald Trump e referências diretas ao processo eleitoral, ainda que o presidente americano e seu adversário brasileiro, Flávio Bolsonaro, não tenham sido citados nominalmente.
Analistas ouvidos pelo Estadão avaliaram que a escolha do tom teve componente eleitoral. Para o pesquisador Lucas de Souza Martins, da Temple University, a menção ao pleito e ao adversário em uma plataforma internacional pouco usual para esse tipo de mensagem indicaria a intenção de alcançar diretamente o eleitor brasileiro. A CNN também classificou a parte final do discurso como de forte conteúdo eleitoral, destacando os acenos de Lula ao cenário interno.
A contradição de Lula pela eleição
Lula afirmou que o momento exigia uma escolha entre “soberania ou subordinação”, criticou o uso de tarifas como instrumento de pressão e declarou que o Brasil não cabe no “quintal de ninguém”. Embora não tenha citado Trump nominalmente, analistas identificaram nas declarações recados ao presidente americano.
O movimento cria uma contradição relevante entre retórica eleitoral e negociação econômica. Poucos dias antes da viagem a Nova York, Lula havia dito que o Brasil manteria as negociações comerciais com Washington e não acionaria imediatamente a Lei da Reciprocidade enquanto houvesse diálogo sobre as tarifas americanas.
Mas até o momento Lula não tem reunião agendada com Trump para resolver os problemas das tarifas, que passou a atingir o Brasil em seu governo.
Na prática, Brasília precisa administrar simultaneamente dois objetivos: evitar uma escalada comercial com os Estados Unidos e, no ambiente eleitoral doméstico, explorar politicamente a defesa da soberania diante das pressões de Washington.
É justamente esse segundo componente que analistas passaram a destacar. A Folha, antes do discurso, já apontava que a proximidade das eleições dificultava separar completamente a estratégia diplomática da campanha. A avaliação de especialistas ouvidos pelo jornal foi de que Lula poderia defender a soberania diante do eleitorado sem necessariamente romper o canal de negociação com Trump.
O efeito político dessa estratégia ainda não pode ser medido. O que já está documentado é que o governo passou a utilizar a disputa com Washington como parte importante de sua comunicação sobre soberania, enquanto mantém as negociações comerciais em andamento.
Para o mercado, a questão é menos retórica do que econômica: qualquer deterioração adicional na relação com Washington pode afetar tarifas, exportações, câmbio e inflação, justamente em um momento no qual os juros americanos e o petróleo já pressionam os ativos brasileiros.
A curva ainda precifica corte da Selic
Mesmo com a alta dos DIs, a curva brasileira continuava indicando expectativa de redução da Selic na reunião de novembro.
A taxa básica está atualmente em 13,75% ao ano.
Durante a tarde, os preços dos contratos indicavam aproximadamente 60% de probabilidade de corte de 25 pontos-base, contra 40% de chance de manutenção.
Isso mostra que a alta dos juros futuros não representa necessariamente uma mudança completa na expectativa para a próxima decisão do Copom.
O movimento ocorre dentro de uma curva que incorpora, simultaneamente, expectativas para a Selic e prêmios adicionais associados ao cenário fiscal, eleitoral, externo e institucional.
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Banco Central fala em “calibração”
Também nesta quarta-feira, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, afirmou que o processo atual de redução da Selic é de “calibração”, e não de afrouxamento monetário.
Segundo ele, diante de um ambiente de incerteza, a política monetária deve avançar de maneira gradual e cautelosa.
A declaração ajuda a explicar por que o mercado continua trabalhando com possibilidade de novos cortes, mas sem interpretar a trajetória atual como um ciclo agressivo de flexibilização.
O que realmente moveu os DIs nesta quarta-feira
A sessão pode ser dividida em quatro vetores principais:
Exterior: forte alta dos Treasuries e petróleo acima de US$ 100.
Estados Unidos: atividade econômica mais forte, aumentando a preocupação com inflação e juros.
Eleição brasileira: nova pesquisa Atlas/Bloomberg devolvendo Lula à liderança numérica, mas em empate técnico com Flávio.
Risco doméstico: ambiente político e institucional ainda sensível aos desdobramentos do Banco Master, STF e demais acontecimentos que podem alterar a percepção sobre o cenário de 2026.
Essa separação é importante porque evita transformar um único acontecimento em explicação para toda a curva.
O que fica para o investidor
A principal informação da sessão não está apenas nos 10 pontos-base de alta do DI Jan/28.
O movimento mostra que os juros brasileiros continuam expostos simultaneamente a fatores externos e domésticos.
No exterior, o nível dos Treasuries e o preço do petróleo podem alterar as expectativas para inflação e juros nos Estados Unidos.
No Brasil, a eleição adiciona incerteza sobre a política econômica a partir de 2027, enquanto os acontecimentos envolvendo o Banco Master e instituições do Judiciário mantêm o risco doméstico no radar.
A curva, portanto, segue funcionando como um termômetro das expectativas para a combinação de Selic, inflação, câmbio, política fiscal e prêmio de risco.



