ETF que funciona como referência das ações brasileiras do Ibovespa, em dólar reage à liderança de Flávio Bolsonaro e à nova composição do Senado; economista vê espaço para Ibovespa chegar a 230 mil pontos se mudança de governo se confirmar
O mercado financeiro recebeu com forte alta o resultado do primeiro turno das eleições de 2026. O EWZ, ETF negociado em Nova York que é usado como uma referência para as ações brasileiras em dólar, avançava 8,72%, a US$ 41,52, por volta das 21h48 deste domingo (4), após Flávio Bolsonaro (PL) terminar a disputa presidencial numericamente à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O movimento chama atenção porque representa uma reação imediata de um dos principais ativos utilizados por investidores estrangeiros para se posicionar em empresas brasileiras.
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O resultado que surpreendeu as pesquisas
Com 99,45% das seções totalizadas no dado consultado às 21h35, Flávio Bolsonaro aparecia com 47,14% dos votos válidos, contra 45,03% de Lula. Augusto Cury (Avante) teve 2,90%, Renan Santos (Missão), 2,25%, e Ronaldo Caiado (PSD), 2,19%.
O resultado foi relevante para o mercado porque parte das pesquisas divulgadas na reta final colocava Lula à frente no primeiro turno. O Datafolha, por exemplo, apontava Lula com 45% dos votos válidos e Flávio com 40%, enquanto a CNT/MDA registrava 47,8% para Lula e 42,1% para Flávio.
A eleição, portanto, produziu uma diferença importante entre a fotografia das pesquisas e o resultado das urnas.
O que o mercado está precificando
Para Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, a votação de brancos e nulos ficou em patamar semelhante ao observado em 2022. Na avaliação dele, a diferença entre as pesquisas e as urnas pode estar relacionada à migração de votos de candidatos que ficaram fora do segundo turno para Flávio Bolsonaro.
A leitura central, porém, está na possibilidade de alternância de poder.
Segundo Saadia, essa possibilidade é bem avaliada pelo investidor estrangeiro. Ele ressalta, contudo, que o dinheiro que entra nos fundos de ações brasileiras nesse movimento tem caráter especulativo.
Essa distinção é importante: a alta do EWZ não significa que o mercado já tenha concluído que haverá mudança de governo. O ativo está reagindo à alteração das probabilidades percebidas após a abertura das urnas.
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O segundo fator: um Senado mais à direita
Além da disputa presidencial, a composição do Senado tornou-se outro elemento relevante para a precificação.
Nas eleições deste domingo, foram renovadas 54 das 81 cadeiras do Senado, o equivalente a dois terços da Casa. O resultado ampliou a presença de partidos de direita, com forte desempenho do PL em diferentes estados.
O PL, partido de Flávio Bolsonaro, deverá ampliar significativamente sua bancada e aparece como uma das forças centrais da nova composição do Senado.
Entre os resultados que ilustram essa mudança estão as eleições de Carlos Bolsonaro e Carol de Toni pelo PL em Santa Catarina, de Michelle Bolsonaro e Bia Kicis pelo PL no Distrito Federal, além de Ubiratan Sanderson (PL) e Marcel van Hattem (Novo) no Rio Grande do Sul.
Para Saadia, essa composição pode reduzir o risco de um eventual governo enfrentar um Congresso excessivamente desalinhado.
A consequência econômica potencial é direta: caso Flávio confirme a liderança no segundo turno e consiga construir uma base compatível com o novo Senado, propostas de política econômica poderiam encontrar menos obstáculos políticos.
Isso, porém, dependerá da formação efetiva da coalizão governista e, principalmente, do conteúdo das medidas econômicas.

Ibovespa pode buscar 200 mil — e 230 mil em cenário mais favorável
Na avaliação de Saadia, o primeiro movimento do mercado pode levar o Ibovespa para a região de 200 mil pontos, mas a sustentação da alta dependerá da evolução das pesquisas do segundo turno e da percepção dos investidores sobre a probabilidade de vitória de cada candidato.
Em um cenário no qual Flávio Bolsonaro confirme a vitória em 25 de outubro, o economista estima que o índice possa chegar a 230 mil pontos.
A projeção, entretanto, não está condicionada apenas ao resultado eleitoral.
O fator decisivo para uma valorização adicional seria a apresentação de um ajuste fiscal estrutural capaz de alterar a percepção sobre a trajetória das contas públicas brasileiras.
Esse ponto é especialmente relevante porque o mercado pode reagir positivamente a uma mudança política no curto prazo, mas manter a valorização exige melhora das expectativas sobre crescimento, dívida pública, juros e resultado fiscal.
O que ninguém comenta sobre a disparada do EWZ
A reação do EWZ mostra uma diferença importante entre resultado eleitoral e avaliação econômica.
O mercado não está reagindo à possibilidade de uma mudança no equilíbrio político brasileiro, combinada a uma composição legislativa que pode facilitar a aprovação de determinadas propostas.
Ao mesmo tempo, o movimento de 8,72% ocorreu em uma sessão de negociação fora do pregão doméstico e deve ser interpretado como uma primeira precificação, não como uma conclusão definitiva sobre o próximo governo.
O segundo turno ainda será disputado em 25 de outubro, e a campanha terá três semanas para alterar as probabilidades eleitorais.
Resumo executivo
- EWZ: +8,72%, a US$ 41,52, por volta das 21h48.
- Flávio Bolsonaro: 47,14% dos votos válidos na apuração consultada.
- Lula: 45,03%.
- Segundo turno: marcado para 25 de outubro.
- Senado: 54 das 81 cadeiras foram renovadas.
- Leitura de mercado: possibilidade de alternância de poder e Congresso mais alinhado à direita.
- Ibovespa: projeção de 200 mil pontos no curto prazo, segundo Beto Saadia.
- Cenário de vitória de Flávio: possibilidade de 230 mil pontos, condicionada também a um ajuste fiscal estrutural.
A disparada do EWZ após o primeiro turno é o primeiro sinal financeiro relevante produzido pelas urnas. O mercado está precificando não apenas quem terminou na frente, mas a possibilidade de uma mudança de governo acompanhada por um Congresso potencialmente mais favorável à nova orientação política.
A reação, contudo, ainda é uma aposta sobre o segundo turno. Para que a valorização dos ativos brasileiros se transforme em tendência, o resultado eleitoral precisará ser acompanhado por credibilidade fiscal, redução do prêmio de risco e capacidade de execução da agenda econômica.
É nesse ponto que a disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula deixa de ser apenas eleitoral e passa a ser também uma disputa sobre qual trajetória econômica o mercado espera para o Brasil a partir de 2027.



