Jaques Wagner e Rui Costa são eleitos senadores na Bahia, mesmo citados no caso Banco Master

Os dois políticos foram eleitos para o Senado pela Bahia mesmo depois de o Credcesta, a PKL One e relações com integrantes do grupo Master aparecerem em investigações, documentos e na proposta de delação de Daniel Vorcaro

Rui Costa e Jaques Wagner foram eleitos para o Senado pela Bahia em 4 de outubro de 2026, com 4.335.196 e 3.986.690 votos, respectivamente. O resultado ocorreu depois de uma sequência de investigações que colocou Wagner diretamente no radar da Polícia Federal no caso Banco Master e levou o nome de Rui Costa à cronologia da criação e expansão do Credcesta e à proposta de colaboração premiada apresentada por Daniel Vorcaro.

Jaques Wagner era líder do governo Lula no senado, após o escândalo do Master envolver seu nome saiu da liderança de Lula, antes das eleições.

No eixo envolvendo Wagner, a PF investiga um apartamento de cerca de R$ 2,45 milhões, uma transferência de R$ 3,5 milhões para a BN Financeira, ingressos de R$ 63,3 mil, uso de aeronaves e dezenas de contatos com Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro no Master.

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No eixo que envolve Rui Costa, a principal conexão está na trajetória do Credcesta, criado dentro da estrutura da antiga Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), privatizada durante seu governo, e na proposta de delação em que Vorcaro afirmou que um grupo político associado a Wagner e Rui Costa receberia R$ 3 milhões por mês. Essa colaboração, porém, foi rejeitada pela PF e pela Procuradoria-Geral da República por falta de elementos de corroboração suficientes.

A combinação dos fatos levanta uma questão que permanece para o eleitor: como dois políticos que aparecem em diferentes capítulos de uma investigação de grande repercussão chegaram às urnas e receberam, juntos, mais de 8,3 milhões de votos?

A origem: Ebal, Credcesta e a privatização de 2018

A história começa antes do Banco Master.

O Credcesta estava ligado à Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), estatal responsável pela rede Cesta do Povo.

Em 2018, durante o governo de Rui Costa, a Ebal foi leiloada por R$ 15 milhões. Na época, Jaques Wagner ocupava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia.

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A vencedora foi a NGV Empreendimentos.

Segundo a proposta de delação de Vorcaro, posteriormente divulgada, Augusto Lima teria participado da estrutura por meio de uma pessoa interposta. A PF investiga suspeitas relacionadas ao processo de privatização.

Dezesseis dias depois do leilão, dois decretos assinados por Rui Costa ampliaram as possibilidades de exploração do Credcesta e alteraram seu enquadramento no sistema de consignações. Posteriormente, os direitos de exploração foram transferidos para a PKL One Participações.

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O negócio de R$ 30 milhões

Em 2018, o grupo ligado ao Credcesta firmou parceria com o então Banco Máxima, posteriormente transformado no Banco Master.

Segundo a proposta de delação de Vorcaro, o banco pagou R$ 30 milhões pela parceria com a PKL One e estabeleceu uma divisão dos lucros.

O Credcesta passou, assim, de uma operação relacionada à antiga estrutura da estatal baiana para um negócio integrado à expansão do grupo financeiro que posteriormente seria comandado por Daniel Vorcaro.

O contrato é relevante porque representa a ponte empresarial entre os dois universos.

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O contrato de cerca de R$ 2 milhões por mês

A proposta de delação apresenta outro número central.

Segundo Vorcaro, o contrato entre Master e PKL previa aproximadamente R$ 2 milhões mensais, classificados como despesas operacionais e pagos à PKL ou a prestadores indicados pelos controladores.

O contrato, de acordo com os documentos divulgados, existe.

O documento, porém, não identifica Jaques Wagner, Rui Costa ou qualquer outro político como beneficiário desses R$ 2 milhões.

A transformação desse pagamento contratual em suposta vantagem política é uma afirmação de Vorcaro na proposta de colaboração.

Essa diferença é fundamental para entender o caso.

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Os R$ 3 milhões mensais atribuídos por Vorcaro

Na proposta de colaboração, Vorcaro afirmou que o grupo político associado a Jaques Wagner e Rui Costa receberia R$ 3 milhões por mês.

A narrativa apresentada divide o valor em duas partes:

R$ 2 milhões por mês por meio da estrutura contratual envolvendo a PKL;

R$ 1 milhão por mês em dinheiro vivo.

Vorcaro também mencionou distribuição de lucros, dividendos e contratos que, segundo seu relato, seriam utilizados para beneficiar pessoas indicadas por Wagner.

O ponto decisivo é que a proposta não apresenta uma demonstração financeira consolidada com datas, valores individuais e destinatários que comprove os R$ 3 milhões mensais como pagamentos a Wagner ou Rui Costa.

A PF deixou as negociações da delação e a PGR recusou o acordo por considerar insuficientes os elementos de corroboração apresentados.

Portanto, R$ 3 milhões mensais é uma alegação constante da proposta de Vorcaro, não um valor comprovadamente recebido pelos dois políticos.

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O elo societário de Guilherme Sodré

Outro elemento aparece na estrutura de fundos ligada à PKL.

Documentos sobre os cotistas mostram que Guilherme Sodré detinha 22,45% do fundo Gardênia até dezembro de 2018.

O Gardênia tinha participação indireta na PKL One.

A proposta de Vorcaro afirma que Sodré representaria Wagner na estrutura. Os documentos confirmam a participação societária, mas não comprovam que ela estivesse em nome de Wagner.

O vínculo societário, portanto, é documentado; a interpretação sobre quem seria o beneficiário final permanece objeto de investigação e alegação.

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O que a PF investiga diretamente sobre Jaques Wagner

A situação de Wagner ganhou uma dimensão diferente da de Rui Costa.

A Polícia Federal realizou busca e apreensão contra o senador no âmbito da Operação Compliance Zero e investiga se ele recebeu vantagens econômicas relacionadas ao Banco Master.

Entre os principais elementos estão:

R$ 2,45 milhões, apartamento

Mensagens mostram Wagner tratando com Augusto Lima de um imóvel em Salvador.

Em novembro de 2024, o senador informou a unidade e o preço de R$ 2,45 milhões.

A PF investiga se a operação imobiliária representou vantagem indevida e se estruturas interpostas foram utilizadas na aquisição.

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R$ 3,5 milhões, transferência para a BN Financeira

Em 17 de outubro de 2025, a PKL One transferiu R$ 3,5 milhões para a BN Financeira.

A empresa tinha como sócia-administradora Bonnie Toaldo Bonilha, nora de Wagner.

A PF investiga se o pagamento teve relação com vantagens indevidas. O documento policial registra ainda que os repasses a empresas relacionadas ao núcleo familiar poderiam ser superiores àquela transferência específica.

R$ 2,34 milhões, pagamentos mencionados em planilhas

A investigação também encontrou referência a aproximadamente R$ 2,34 milhões pagos ao enteado de Wagner, Eduardo Sodré, em material apreendido.

Esse valor é diferente dos R$ 3,5 milhões transferidos à BN Financeira: trata-se de outro fluxo e outro destinatário. A própria documentação disponível alerta para não somar automaticamente os números.

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R$ 63,3 mil — ingressos

A PF identificou a compra de ingressos para um show internacional no valor de aproximadamente R$ 63,3 mil, destinados a familiares de Wagner, segundo os documentos da investigação.

Aeronaves

Os investigadores também apontaram o uso de aeronaves ligadas a Augusto Lima e ao grupo Master.

Entre os episódios analisados está um deslocamento de Wagner com familiares e outro em que o senador pediu a Lima o contato de um piloto para uma viagem ao Rio.

74 ligações e mais de cinco horas e meia

Um dos elementos mais objetivos da investigação é o volume de comunicação entre Wagner e Augusto Lima.

A PF identificou 74 ligações atendidas entre novembro de 2023 e maio de 2025, totalizando aproximadamente 5 horas e 30 minutos de conversas.

Os registros mostram que os dois chegaram a conversar várias vezes no mesmo dia.

A existência dos contatos é documental.

O conteúdo das conversas e sua relação com as operações investigadas é parte da apuração.

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O contrato de R$ 12 milhões envolvendo a família

A investigação também alcançou uma empresa ligada ao núcleo familiar de Wagner.

Segundo a apuração divulgada sobre o caso, uma empresa de sua nora manteve contrato de aproximadamente R$ 12 milhões com o Banco Master.

O contrato aparece separado da transferência de R$ 3,5 milhões feita posteriormente pela PKL One.

Essa separação importa porque são operações distintas e não devem ser apresentadas como um único pagamento.

O dinheiro encontrado nas buscas

As diligências também localizaram dinheiro em espécie.

Segundo os documentos divulgados sobre a investigação, foram encontrados:

  • US$ 49 mil em Brasília;
  • US$ 16.795 em Salvador;
  • € 39.675 em Salvador;
  • R$ 16.500 em Salvador.

Os valores foram incorporados à investigação.

A origem declarada dos recursos também faz parte da apuração.

O que liga Rui Costa ao caso

A ligação de Rui Costa apresenta outra natureza.

O ex-governador era chefe do Executivo baiano quando ocorreram:

  • a privatização da Ebal por R$ 15 milhões;
  • as mudanças regulatórias posteriores relacionadas ao Credcesta;
  • a transferência da operação para a estrutura da PKL.

Esses fatos são anteriores às suspeitas financeiras atualmente investigadas contra Wagner.

Rui Costa também aparece na proposta de delação de Vorcaro como integrante do grupo político que, segundo o ex-banqueiro, receberia vantagens relacionadas ao Credcesta.

Mas o documento não individualiza um pagamento feito a Rui Costa.

Também não há, no material divulgado, demonstração documental de que ele tenha recebido os R$ 3 milhões mensais citados por Vorcaro.

A diferença entre os dois casos precisa ser preservada.

O mapa financeiro do caso

ValorOperaçãoSituação
R$ 15 milhõesPrivatização da EbalDocumentado
R$ 30 milhõesParceria Master–PKL/CredcestaDocumentado na documentação divulgada
R$ 2 milhões/mêsDespesas operacionais previstas no contrato Master–PKLContrato documentado; destinação ilícita é alegação
R$ 1 milhão/mêsSuposto pagamento em espécieAlegação de Vorcaro
R$ 3 milhões/mêsSoma atribuída por Vorcaro ao grupo políticoAlegação da proposta de delação
R$ 2,45 milhõesApartamento ligado à investigação de WagnerInvestigado pela PF
R$ 3,5 milhõesPKL One → BN FinanceiraTransferência documentada e investigada
R$ 2,34 milhõesValor mencionado em planilhas relativo a Eduardo SodréInvestigado
R$ 63,3 milIngressos para showInvestigado
R$ 12 milhõesContrato de empresa ligada à família com MasterDocumentado; finalidade investigada
22,45%Participação de Guilherme Sodré no GardêniaDocumentada
74 ligaçõesWagner–Augusto LimaRegistro da PF
5h30Duração acumulada das ligaçõesRegistro da PF

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O que é fato, o que é investigação e o que é alegação

Fatos documentados

A Ebal foi privatizada por R$ 15 milhões.

O Credcesta passou posteriormente à estrutura da PKL One.

Master e PKL estabeleceram uma parceria de negócios.

O contrato previa pagamentos mensais de aproximadamente R$ 2 milhões.

Houve transferência de R$ 3,5 milhões para a BN Financeira.

Guilherme Sodré aparece com 22,45% do Gardênia em 2018.

A PF identificou 74 ligações entre Wagner e Augusto Lima.

Rui Costa era governador quando ocorreram a privatização e as alterações regulatórias do Credcesta.

Elementos investigados pela PF

A eventual natureza ilícita do apartamento de R$ 2,45 milhões.

A transferência de R$ 3,5 milhões.

Os pagamentos relacionados ao núcleo familiar.

Ingressos e utilização de aeronaves.

A eventual atuação de Wagner em interesses do Banco Master.

A possível utilização de estruturas empresariais para ocultar beneficiários.

Alegações de Vorcaro

Os supostos R$ 3 milhões mensais.

O pagamento de R$ 1 milhão mensal em espécie.

A existência de participação oculta de Wagner na PKL.

A utilização de contratos fictícios para distribuir vantagens políticas.

Esses pontos estão na proposta de colaboração que não foi aceita pelas autoridades.

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O que aconteceu nas urnas

Depois de toda essa sequência, a Bahia escolheu os dois nomes para o Senado.

Com 100% das urnas apuradas, Rui Costa recebeu 4.335.196 votos, ou 30,07% dos votos válidos.

Jaques Wagner recebeu 3.986.690 votos, ou 27,65%.

Somados, foram 8.321.886 votos para os dois candidatos.

A eleição teve 19,98% de abstenção, além de 6,74% de votos brancos e 13,57% de votos nulos.

Os dois assumirão as cadeiras em 1º de fevereiro de 2027.

O resultado encerra a disputa eleitoral, mas não encerra as investigações.

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O que permanece em aberto

O caso apresenta dois níveis diferentes.

No caso de Jaques Wagner, existem operações financeiras, registros de comunicação, benefícios e movimentações patrimoniais que estão sob análise da Polícia Federal.

No caso de Rui Costa, o principal eixo documental é a posição que ocupava na Bahia quando a Ebal foi privatizada e o Credcesta teve seu modelo alterado, além das afirmações feitas por Vorcaro em sua proposta de colaboração.

A investigação ainda precisa estabelecer, entre outros pontos:

quem efetivamente recebeu cada valor;

qual foi a causa econômica de cada pagamento;

se existiram contrapartidas políticas;

quem eram os beneficiários finais das estruturas societárias;

e se as alegações feitas por Vorcaro podem ser comprovadas por documentos independentes.

Essas respostas são diferentes da pergunta eleitoral.

A pergunta que fica para o eleitor

Rui Costa e Jaques Wagner receberam mais de 8,3 milhões de votos na Bahia e ocuparão as duas cadeiras do estado no Senado a partir de 2027. Jaques Wagner era líder do governo Lula no senado, após o escândalo do Master envolver seu nome saiu da liderança de Lula.

Ao mesmo tempo, o caso Master colocou sob investigação uma sequência de contratos, transferências, imóveis, benefícios e relações empresariais que alcançam diferentes momentos da trajetória política e empresarial dos envolvidos.

A dimensão dessa contradição está nos próprios números.

R$ 15 milhões na privatização da Ebal.

R$ 30 milhões na parceria Master–PKL.

R$ 2 milhões mensais previstos no contrato.

R$ 3 milhões mensais atribuídos por Vorcaro ao grupo político.

R$ 3,5 milhões em uma transferência investigada pela PF.

R$ 2,45 milhões no imóvel sob investigação.

R$ 2,34 milhões em pagamentos mencionados em planilhas.

R$ 63,3 mil em ingressos.

R$ 12 milhões em contrato envolvendo empresa ligada à família.

E, apesar de todo esse conjunto de informações ter chegado ao debate público antes da votação, 4,335 milhões de baianos escolheram Rui Costa e 3,987 milhões escolheram Jaques Wagner.

O que levou esses eleitores a separar, pesar ou relativizar cada informação é uma questão que os números da eleição não respondem.

Os documentos, as investigações e os processos, por sua vez, ainda precisam responder às perguntas financeiras que permanecem abertas.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Estrategista focada em proteger o investidor pessoa física dos conflitos de interesse dos grandes bancos e corretoras. Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado de Capitais. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia
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