Eurasia eleva chance de vitória de Flávio a 80% e mercado já precifica mudança fiscal em 2027

INVESTIDORES BRASIL

Consultoria amplia favoritismo do senador a dez dias do segundo turno e aponta dificuldade de Lula para reverter o cenário. Por trás da eleição, investidores começam a antecipar uma possível mudança na política fiscal, com reflexos sobre juros, Bolsa e dívida pública.

A dez dias do segundo turno da eleição presidencial, a Eurasia Group elevou de 70% para 80% a probabilidade atribuída a uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A revisão consolida uma mudança importante na leitura da consultoria depois do primeiro turno e ocorre em um momento no qual o mercado financeiro já começa a olhar além das urnas.

Mais do que tentar antecipar quem ocupará o Palácio do Planalto a partir de 2027, investidores passaram a precificar a possibilidade de uma mudança na condução das contas públicas, com maior controle de gastos, melhora da trajetória da dívida e, consequentemente, espaço para juros menores.

Mas existe uma diferença fundamental: os 80% calculados pela Eurasia não representam intenção de voto e não significam que a eleição esteja decidida.

Trata-se de uma estimativa de probabilidade política baseada no resultado das urnas, nas pesquisas do segundo turno e na dinâmica das duas campanhas.

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O que fez a Eurasia elevar Flávio para 80%

A principal mudança ocorreu depois do primeiro turno.

Flávio Bolsonaro terminou a votação à frente de Lula, contrariando a expectativa de que o presidente pudesse chegar à segunda etapa da disputa em posição mais confortável.

Na avaliação de Silvio Cascione, diretor da Eurasia Group para o Brasil, a campanha de Flávio conseguiu interpretar melhor um sentimento de desejo por mudança existente em parte do eleitorado.

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Segundo Cascione, a eleição também tem sido marcada por menor entusiasmo entre parcelas das bases tradicionais dos dois principais campos políticos.

Enquanto parte do eleitorado petista demonstraria menor mobilização em torno de uma nova candidatura de Lula, Flávio também não teria despertado inicialmente o mesmo entusiasmo que Jair Bolsonaro provocou entre seus apoiadores.

Nesse ambiente, o eleitor de centro ganhou importância.

A avaliação da Eurasia é que Flávio conseguiu construir uma imagem mais moderada que a do pai e concentrar sua campanha em temas ligados à mudança.

“Ele conseguiu construir uma imagem um pouco mais moderada do que a do pai e focou em temas que indicavam mudança. Isso acabou funcionando melhor do que a campanha do Lula”, afirmou Cascione.

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Uma aposta do PT teria falhado

Existe outro ponto importante na análise da consultoria.

Durante boa parte da disputa, Flávio Bolsonaro foi considerado por setores do PT um adversário potencialmente mais conveniente para Lula no segundo turno devido à elevada rejeição associada ao sobrenome Bolsonaro.

Essa leitura perdeu força depois do primeiro turno.

“O Flávio era sempre o candidato que o PT queria enfrentar. Existia a percepção de que, no final, o Lula acabaria vencendo porque o Flávio teria muita rejeição. Acho que essa ideia quebrou com o primeiro turno”, avaliou Cascione.

A rejeição ao candidato do PL continua elevada, mas não foi suficiente até agora para produzir a vantagem que a campanha governista esperava obter.

Esse é um dos fatores que levaram a Eurasia a aumentar significativamente o favoritismo atribuído ao senador.

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O mercado já olha para 2027

Para investidores, porém, a discussão começa a ir além de quem vencerá a eleição.

A melhora das perspectivas eleitorais de Flávio Bolsonaro passou a ser acompanhada por expectativas de maior disciplina fiscal a partir de 2027.

Segundo a Eurasia, um eventual governo do candidato do PL poderia adotar um ajuste fiscal mais robusto, capaz de melhorar a confiança na trajetória das contas públicas.

Esse cenário teria consequências diretas sobre juros, Bolsa, câmbio e custo de capital das empresas.

“Entendemos que haverá um ajuste fiscal robusto e que isso abre espaço para uma redução significativa do custo de capital e das taxas de juros. É por isso que a Bolsa brasileira está sendo reprecificada”, afirmou Cascione.

A lógica é simples.

Se investidores passam a acreditar que o governo conseguirá controlar as despesas e estabilizar a dívida pública, o prêmio de risco exigido para financiar o país tende a diminuir.

E juros futuros menores podem beneficiar grande parte dos ativos brasileiros.

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Não seria simplesmente a volta do teto de gastos

A expectativa descrita pela Eurasia não se limita à implantação de um teto tradicional de despesas.

A discussão envolveria mecanismos automáticos de controle fiscal vinculados à própria trajetória da dívida pública.

Na prática, determinadas medidas de contenção poderiam ser acionadas caso o endividamento ultrapassasse parâmetros previamente estabelecidos.

“O que deve vir não é simplesmente a volta de um teto de gastos mais rígido. A ideia é ter instrumentos automáticos de controle fiscal vinculados à trajetória da dívida pública. Isso torna a trajetória dos próximos anos mais crível”, explicou Cascione.

Esse é um ponto particularmente importante para o mercado.

O problema brasileiro não está apenas no tamanho atual da dívida, mas na dificuldade de convencer investidores de que o endividamento poderá ser estabilizado nos próximos anos.

Quanto maior o risco percebido, maior tende a ser a taxa exigida para financiar o governo.

E quanto maiores os juros pagos sobre a dívida, mais difícil se torna justamente estabilizá-la.

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O grande ponto de interrogação: onde cortar gastos?

É justamente aqui que aparece a principal ressalva à leitura otimista.

A própria Eurasia considera ambiciosa a possibilidade de uma melhora fiscal equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto.

O problema é conhecido: ainda falta clareza sobre quais despesas seriam efetivamente reduzidas para produzir um ajuste dessa dimensão.

Esse será um dos maiores testes de qualquer governo que assumir em janeiro de 2027.

Uma parcela relevante do Orçamento brasileiro está comprometida com despesas obrigatórias ou politicamente difíceis de reduzir.

Previdência, benefícios sociais, folha de pagamentos, saúde, educação e transferências limitam o espaço disponível para cortes imediatos.

Por isso, existe uma diferença enorme entre anunciar compromisso fiscal durante uma campanha e produzir um ajuste estrutural depois da eleição.

Cortes precisam ser aprovados, implementados e mantidos.

E frequentemente dependem de negociações complexas com o Congresso. Contudo, Flávio conseguiu uma base forte no Congresso para 2027.

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Mercado está comprando expectativa antes dos fatos

Este é o ponto central para o investidor.

O mercado financeiro não espera que todos os acontecimentos se concretizem para depois ajustar os preços dos ativos.

Ele tenta antecipá-los.

Se aumenta a probabilidade de um governo considerado mais comprometido com o controle das despesas, juros, ações e câmbio podem começar a refletir essa expectativa muito antes da posse.

Foi exatamente essa mudança de percepção que ganhou força depois do primeiro turno.

Mas existe risco nesse processo.

Caso um eventual governo Flávio Bolsonaro não consiga entregar o ajuste fiscal esperado, parte dessa reprecificação poderá ser revertida.

O contrário também é verdadeiro.

Se o programa econômico apresentado depois das eleições for mais profundo e crível do que atualmente esperado, poderá existir espaço para uma nova rodada de queda dos juros futuros e valorização de ativos brasileiros.

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Quem pode ganhar com juros menores

Uma melhora estrutural da percepção fiscal poderia beneficiar principalmente os setores mais sensíveis ao custo do dinheiro.

Varejistas, construtoras, incorporadoras, empresas de consumo e companhias altamente dependentes de financiamento costumam sofrer quando os juros permanecem elevados.

Em um ambiente de taxas menores, o custo das dívidas cai, o crédito tende a melhorar e novos investimentos tornam-se economicamente mais viáveis.

O efeito também chega à renda fixa.

Títulos prefixados e papéis indexados à inflação podem registrar valorização quando as taxas futuras recuam.

Na Bolsa, empresas voltadas à economia doméstica poderiam passar por uma reprecificação caso investidores enxerguem um ciclo mais longo de redução do custo de capital.

O real também poderia se beneficiar caso uma melhora da percepção fiscal aumentasse o fluxo de recursos estrangeiros para o Brasil.

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Quem pode perder

Nem todos os ativos seriam beneficiados da mesma maneira.

Instituições e estratégias fortemente favorecidas por um ambiente prolongado de juros elevados podem perder parte dessa vantagem relativa caso as taxas recuem de maneira estrutural.

Empresas incapazes de transformar juros menores em crescimento ou melhora dos resultados também podem ficar para trás.

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Por que importa

A decisão da Eurasia de elevar de 70% para 80% a probabilidade de vitória de Flávio Bolsonaro é importante porque mostra como uma das principais consultorias internacionais de risco político passou a interpretar o cenário brasileiro depois do primeiro turno.

Mas existe algo ainda mais relevante para quem investe.

O mercado começa a antecipar não apenas uma possível mudança de presidente, mas uma mudança na condução da política econômica brasileira.

Controle de gastos, trajetória da dívida, juros e custo de capital estão entrando no centro dessa reprecificação.

A eleição será decidida em 25 de outubro.

A partir daí, a pergunta deixará rapidamente de ser quem venceu.

Passará a ser outra: o próximo governo conseguirá transformar promessas de responsabilidade fiscal em medidas concretas capazes de estabilizar a dívida e reduzir estruturalmente o custo do dinheiro no Brasil?

É essa resposta — e não apenas o resultado das urnas — que poderá determinar a próxima grande direção da Bolsa, dos juros e dos ativos brasileiros.

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Re Hunter
Re Hunter
Jornalista especialista em Mercado de Capitais pela Metodista. [email protected]
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