Esquerda da Espanha perde apoio, chega rachada à eleição e abre caminho para maioria de PP e Vox

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Fragmentação entre Podemos e Frente Ampla ocorre quando o eleitorado governista mostra menor fidelidade e maior desmobilização. Pesquisas privadas apontam maioria para PP e Vox, enquanto o instituto estatal CIS apresenta cenário bastante diferente.

A esquerda espanhola chegará dividida às eleições gerais antecipadas de 29 de novembro em um momento especialmente delicado para o primeiro-ministro Pedro Sánchez.

Podemos e Frente Ampla não conseguiram fechar uma candidatura nacional conjunta para o Congresso, justamente quando indicadores eleitorais mostram menor mobilização entre os eleitores que sustentaram a esquerda em 2023 e pesquisas privadas projetam vantagem para o Partido Popular (PP) e o Vox.

O problema vai além de uma briga entre partidos.

Na Espanha, a divisão de votos entre legendas próximas pode significar perda efetiva de cadeiras no Parlamento, principalmente nas províncias que elegem poucos deputados.

Para Sánchez, portanto, o desafio não é apenas fazer o PSOE crescer. Ele precisa também que seus potenciais aliados consigam transformar votos em deputados suficientes para construir uma maioria depois da eleição.

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Resumo Executivo

A esquerda espanhola chega às eleições de 29 de novembro enfrentando três problemas simultâneos:

desgaste entre parte de seu eleitorado;

fragmentação dos partidos à esquerda do PSOE;

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um sistema eleitoral que pode penalizar votos pulverizados entre pequenas legendas.

Podemos e Frente Ampla fracassaram na tentativa de apresentar uma candidatura conjunta ao Congresso.

A ruptura ocorreu após divergências sobre a composição das listas eleitorais, especialmente em Madri e Barcelona.

Ao mesmo tempo, levantamentos mostram que os eleitores de PSOE e do antigo Sumar estão menos mobilizados e apresentam menor fidelidade de voto que os eleitores de PP e Vox.

Simulações eleitorais indicam ainda que PP e Vox poderiam chegar próximos de 200 deputados caso as atuais tendências das pesquisas privadas se confirmem.

A maioria absoluta no Congresso espanhol exige 176 cadeiras.

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Problema da esquerda não começou com o racha

A divisão entre Podemos e Frente Ampla agrava uma dificuldade que já aparecia antes das negociações fracassarem.

Parte do eleitorado que apoiou a esquerda nas eleições de 2023 demonstra hoje menor disposição para repetir o voto.

Uma análise baseada em pesquisas do estatal CIS e do instituto 40dB mostrou que 65,7% dos eleitores do PSOE de 2023 declaravam intenção de votar novamente no partido.

Entre os antigos eleitores do Sumar, a fidelidade era ainda menor: 35,8%.

Do outro lado, o índice chegava a 74% entre eleitores do PP e 81,3% entre eleitores do Vox.

Também havia diferença nos índices de indecisão, abstenção declarada e voto branco ou nulo.

Entre antigos eleitores do PSOE, esse grupo representava cerca de 15,5%. Entre os que haviam votado no Sumar, aproximadamente 12,5%.

No PP, eram cerca de 8%. No Vox, pouco mais de 5%.

Os números indicam um eleitorado de esquerda mais desmobilizado neste momento da campanha, embora ainda haja tempo para mudanças até a votação.

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Pesquisas privadas colocam PP e Vox à frente

As pesquisas privadas também apresentam um cenário difícil para a atual coalizão governista.

Uma média de levantamentos analisada pelo jornal espanhol El País colocou PP e Vox acima de 50% dos votos somados e próximos de 200 cadeiras no Congresso.

Nas simulações realizadas a partir desses números, os dois partidos alcançavam maioria absoluta em aproximadamente 92% dos cenários.

O resultado, se confirmado nas urnas, permitiria que o campo de direita formasse maioria parlamentar sem depender do PSOE ou dos partidos que sustentaram Sánchez nos últimos anos.

Isso, porém, ainda é projeção.

Pesquisas medem intenção de voto em determinado momento e não determinam antecipadamente o resultado de uma eleição.

CIS estatal mostra cenário completamente diferente

Existe ainda uma divergência relevante que precisa ser considerada.

Enquanto pesquisas privadas apontam vantagem do PP e possibilidade de maioria com o Vox, o Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS), instituto público espanhol, divulgou levantamento no qual o PSOE aparece com 34% das intenções de voto, contra 22,2% do PP.

A diferença entre o CIS e grande parte das pesquisas privadas é significativa.

Por isso, qualquer afirmação de que a eleição espanhola já estaria definida seria prematura.

A disputa real será determinada não apenas pelo percentual nacional de votos, mas pela distribuição desses votos nas diferentes províncias e pela quantidade de deputados conquistada por cada legenda.

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Racha pode custar deputados à esquerda

É justamente nesse ponto que a divisão entre Podemos e Frente Ampla ganha importância.

O Congresso espanhol possui 350 deputados.

A maioria absoluta exige 176.

Os deputados são distribuídos por circunscrições provinciais e o número de vagas varia significativamente entre elas.

Nas províncias menores, poucas cadeiras estão em disputa.

Isso favorece partidos com votação concentrada e pode prejudicar legendas menores que dividem um mesmo eleitorado.

Dois partidos podem, juntos, ter votos suficientes para eleger um deputado, mas perder a vaga caso disputem separadamente e nenhum alcance força suficiente para conquistar uma das cadeiras disponíveis.

É por isso que a fragmentação da esquerda pode beneficiar PP e Vox mesmo sem transferência direta de votos para os dois partidos.

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Simulação mostra diferença entre disputar juntos e separados

Simulações eleitorais ajudam a dimensionar o problema.

Cálculos realizados a partir da média de pesquisas indicaram que os partidos à esquerda do PSOE poderiam conquistar aproximadamente 12 deputados se disputassem separadamente.

Em uma candidatura conjunta, poderiam chegar a cerca de 18 cadeiras.

A diferença seria de seis deputados sem necessidade de uma grande alteração no número total de eleitores do campo político.

Em uma eleição na qual a formação de governo depende da soma de diferentes partidos, seis cadeiras podem ter peso relevante.

Ainda assim, nas simulações atuais, mesmo uma união das forças à esquerda do PSOE não seria suficiente, por si só, para eliminar a vantagem projetada para PP e Vox.

Disputa por posições nas listas impediu acordo

A ruptura não ocorreu principalmente por grandes divergências sobre políticas públicas.

Parte relevante do impasse esteve relacionada à composição das listas eleitorais.

Podemos, que tem Irene Montero como um de seus principais nomes, defendia a realização de primárias abertas para definir candidatos de uma eventual coalizão.

A Frente Ampla rejeitou a proposta alegando falta de tempo até a eleição e defendia a manutenção de seus próprios candidatos em posições competitivas das listas.

Madri e Barcelona estiveram entre os principais pontos de disputa.

Sem acordo nacional, Podemos avançou em uma articulação própria com a Esquerra Republicana de Catalunya, a ERC.

A Frente Ampla reúne organizações como Izquierda Unida, Movimiento Sumar, Más Madrid e Comuns e tem a ex-prefeita de Barcelona Ada Colau entre seus principais nomes.

Em 2023, estratégia havia sido justamente a união

A situação é diferente daquela encontrada nas últimas eleições gerais.

Em julho de 2023, diversas forças à esquerda do PSOE concorreram reunidas sob a coalizão Sumar, da qual o Podemos também participava.

O resultado eleitoral foi:

PP: 137 deputados

PSOE: 121

Vox: 33

Sumar: 31

ERC: 7

Junts: 7

EH Bildu: 6

PNV: 5

O PP foi o partido com maior número de deputados, mas não conseguiu formar uma maioria parlamentar suficiente para governar.

Pedro Sánchez permaneceu no cargo após construir uma aliança que reuniu o PSOE, o Sumar e o apoio de diferentes partidos regionais, nacionalistas e independentistas.

A matemática parlamentar foi decisiva.

Em 2026, essa matemática tornou-se mais difícil para a esquerda.

Sánchez precisa recuperar eleitores na Espanha e preservar aliados

O PSOE pode até se beneficiar parcialmente da fragmentação.

Eleitores de partidos menores podem optar pelo chamado voto útil e migrar para Sánchez numa tentativa de impedir uma maioria de PP e Vox.

O problema é que essa transferência dificilmente será integral.

Em determinadas províncias, votos mantidos em pequenas legendas podem não produzir cadeiras.

Assim, o PSOE enfrenta dois desafios simultaneamente.

Precisa recuperar eleitores que se mostram hoje indecisos ou desmobilizados e, ao mesmo tempo, necessita que seus possíveis aliados mantenham representação parlamentar suficiente para uma eventual nova coalizão.

PP também enfrenta a pressão do crescimento do Vox

A disputa não ocorre apenas dentro da esquerda.

O PP também enfrenta competição dentro de seu próprio campo político.

Pesquisas recentes mostram transferência relevante de antigos eleitores populares para o Vox.

Um levantamento do 40dB apontou fidelidade de 92,8% entre eleitores do Vox, contra 74,5% no PP.

A pesquisa também indicava que aproximadamente 15,6% dos antigos eleitores do PP pretendiam votar no Vox.

Isso significa que parte do avanço do Vox ocorre dentro do próprio eleitorado conservador.

A diferença é que, nas projeções atuais, essa redistribuição tende a permanecer dentro de um bloco que pode formar maioria conjuntamente.

A eleição será decidida pelas cadeiras

Os números nacionais de intenção de voto contam apenas parte da história espanhola.

Para governar, um partido ou bloco precisa chegar a uma maioria parlamentar.

Em 2023, o PP venceu em número de votos e deputados, mas Pedro Sánchez permaneceu no governo porque conseguiu construir maioria suficiente no Congresso.

Em 2026, a situação pode se inverter.

Pesquisas privadas apontam hoje PP e Vox em posição mais favorável, enquanto a esquerda chega à campanha com menor mobilização entre parte de seus antigos eleitores e uma divisão justamente entre os partidos que poderiam completar uma eventual maioria do PSOE.

O CIS estatal apresenta um cenário muito mais positivo para Sánchez e impede tratar uma mudança de governo como fato consumado.

Mas há um dado objetivo antes mesmo da abertura das urnas:

a esquerda espanhola chega à eleição mais fragmentada do que em 2023, enquanto uma parcela de seu eleitorado demonstra menor fidelidade e maior desmobilização.

Se essa combinação permanecer até 29 de novembro, não será necessário que todos esses votos migrem para PP ou Vox para modificar o equilíbrio de poder.

Em determinadas províncias, basta que deixem de se transformar em deputados.


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Re Hunter
Re Hunter
Jornalista especialista em Mercado de Capitais pela Metodista. [email protected]
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