Levantamento obtido via Lei de Acesso à Informação mostra que lobista amiga de Lulinha e investigada pela Polícia Federal entrou ao menos 42 vezes em órgãos do governo, mas apenas uma visita apareceu nas agendas oficiais das autoridades.
Uma nova revelação amplia as dúvidas sobre a relação entre pessoas investigadas no escândalo dos descontos ilegais do INSS e integrantes do governo federal. Levantamento realizado com base na Lei de Acesso à Informação (LAI) mostra que a lobista Roberta Luchsinger, apontada como amiga de Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), realizou 42 visitas a órgãos do governo Lula entre janeiro de 2023 e abril de 2024, mas 41 delas ficaram fora das agendas oficiais das autoridades visitadas.
O caso aumenta a pressão sobre o governo porque a publicidade das agendas de autoridades é uma exigência da legislação de transparência. Quando encontros não aparecem nos registros oficiais, cresce o questionamento sobre quem participou das reuniões, quais interesses estavam sendo defendidos e por que esses compromissos não foram divulgados.
A lobista Roberta Luchsinger fez visitas a órgãos do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de janeiro de 2023 a abril de 2024. Das 42 agendas no período, 41 não constam nos compromissos oficiais das autoridades, o que contraria a legislação sobre transparência. As informações foram publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo nesta 4ª feira (5.ago.2026).
O que revela o levantamento
Segundo os dados obtidos por meio da LAI, Roberta Luchsinger esteve diversas vezes em ministérios estratégicos do governo.
Os principais destinos foram:
- Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social: 17 visitas;
- Ministério da Saúde: 17 visitas, sendo 16 sem registro oficial;
- Palácio do Planalto e outros órgãos federais também receberam a lobista durante o período.
- O gabinete do ministro Wellington Dias (Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome) foi o local mais frequentado por Roberta. Em 4 visitas, ela estava acompanhada por Efrain Saavedra, gerente comercial da empresa Duosystem. Em 2 outros encontros, ela esteve acompanhada de Fernando Bittar, então sócio de Lulinha.
LEITURA SUGERIDA: Indústria brasileira sofre tombo duas vezes maior que o previsto e mostra discrepância entre o discurso oficial e a força da desaceleração da economia
O levantamento indica que apenas um dos encontros apareceu oficialmente na agenda das autoridades.
Em uma das visitas, em 9 de março de 2023, Roberta levou presentes a Wellington Dias: uma caixa de bombons suíços Sprüngli e uma edição rara e autografada do livro “O Alquimista“, de Paulo Coelho. Há uma foto do momento. Segundo a reportagem, 5 dias após uma outra visita realizada em 30 de março de 2023, o ministério firmou um contrato de R$ 31 milhões com a empresa 3STRUCTURE IT, que foi cliente da lobista.
Na Saúde, os locais mais frequentados foram os gabinetes de autoridades e do então secretário-executivo do ministério Swedenberger Barbosa, com quem se reuniu em março de 2024 acompanhada de Antunes. No encontro, o empresário tratou de negócios da World Cannabis para comercializar medicamentos à base de canabidiol e da atuação em benefício de empresas na Dataprev.
Quem é Roberta Luchsinger amiga de Lulinha
Roberta Luchsinger passou a ocupar espaço nas investigações da Polícia Federal por aparecer em apurações relacionadas ao esquema de fraudes no INSS.
Ela também é citada por ter mantido relações próximas com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, preso durante a Operação Sem Desconto e apontado pela PF como um dos operadores financeiros do esquema investigado.
Além disso, Roberta é conhecida por ser amiga de Lulinha e sua esposa, que se qualificam nas redes sociais como “best friends forever” na tradução para o português, melhores amigas para sempre, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A defesa de Luchsinger declarou “Em respeito as autoridades a defesa só se manifestará nos autos“.
O que diz a investigação
A Polícia Federal investiga a existência de uma possível estrutura de tráfico de influência, na qual relações pessoais e acesso a integrantes do governo poderiam facilitar interesses privados junto à administração pública.
Até o momento, as investigações seguem em andamento e não há condenações relacionadas a esses fatos.
A existência das visitas, por si só, não comprova prática de crime, mas o elevado número de encontros sem registro oficial passou a integrar o conjunto de elementos analisados pelos investigadores.
Transparência entra no centro do debate
O episódio também reacende uma discussão importante sobre transparência na administração pública.
A divulgação das agendas oficiais permite que cidadãos, órgãos de controle, imprensa e Ministério Público acompanhem quais grupos econômicos, empresários, representantes de entidades ou lobistas mantêm contato com integrantes do governo.
Quando reuniões deixam de ser registradas, torna-se muito mais difícil verificar:
- quem participou dos encontros;
- quais assuntos foram tratados;
- se houve pedidos ou defesa de interesses privados;
- se alguma decisão administrativa foi influenciada posteriormente.
É justamente por isso que a Lei de Acesso à Informação e normas internas do Executivo exigem publicidade dos compromissos oficiais das autoridades.
O escândalo do INSS continua crescendo
A revelação surge enquanto a Operação Sem Desconto amplia o alcance das investigações sobre o maior escândalo já registrado envolvendo descontos ilegais em benefícios previdenciários.
Segundo as investigações da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU), entidades associativas realizaram cobranças sem autorização de aposentados e pensionistas durante anos.
As estimativas apontam que os descontos suspeitos podem alcançar bilhões de reais, afetando milhões de beneficiários do INSS ao longo do período investigado, embora o valor final ainda dependa da conclusão das auditorias e dos processos judiciais.
SAIBA: Lulinha usa avião da FAB pega carona com ministros
Investigação já alcança pessoas próximas ao governo
Nos últimos dias, o avanço da Operação Sem Desconto passou a atingir pessoas ligadas ao entorno político do governo.
Além da investigação envolvendo Roberta Luchsinger, vieram à tona informações sobre repasses financeiros realizados por ela ao ex-chefe de gabinete da Presidência Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que afirmou tratar-se de um empréstimo pessoal já quitado e negou qualquer irregularidade.
Em paralelo, novas fases da operação também alcançaram outros investigados apontados pela PF como integrantes da estrutura financeira do esquema dos descontos ilegais no INSS
O que ainda precisa ser esclarecido
Apesar das novas informações, permanecem perguntas relevantes para a investigação:
- Por que 41 visitas não apareceram nas agendas oficiais?
- Quem participou efetivamente de cada reunião?
- Quais temas foram discutidos?
- Houve decisões administrativas relacionadas aos encontros?
- As visitas tiveram alguma ligação com interesses investigados pela Polícia Federal?
Essas respostas deverão depender do avanço das investigações conduzidas pela PF, do Ministério Público e dos órgãos de controle.







