Brasil pode perder nota de crédito antes das eleições? Mercado vê risco maior com piora fiscal e alerta para pacote do governo Lula

Economista do ASA afirma que não há garantia de que as agências de classificação de risco esperarão 2027 para revisar a nota do Brasil, na atual gestão Lula. Para o mercado, o comportamento das contas públicas, da dívida e das medidas fiscais anunciadas pelo governo será decisivo.

Brasil pode ser rebaixado antes de 2027?

A percepção de que o Brasil estaria “protegido” de um eventual rebaixamento da nota de crédito até depois das eleições de 2026 começou a ser questionada pelo mercado.

Segundo Jefferson Bittencourt, head de Macroeconomia do ASA, não existe garantia de que as principais agências internacionais de classificação de risco adiarão uma decisão negativa apenas por causa do calendário eleitoral brasileiro.

Na avaliação do economista, embora exista histórico de cautela por parte das agências para evitar influência direta em processos eleitorais, isso não impede uma revisão antes de 2027 caso a deterioração fiscal continue avançando.

O alerta aumenta a atenção dos investidores justamente em um momento em que o Brasil enfrenta crescimento acelerado da dívida pública, aumento das operações parafiscais e dúvidas sobre a capacidade do governo de estabilizar as contas públicas.

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O que significa um rebaixamento da nota de crédito?

A nota de crédito soberana representa uma avaliação sobre a capacidade de um país honrar suas obrigações financeiras.

Ela funciona como uma espécie de “termômetro de risco” utilizado por investidores institucionais, fundos internacionais, bancos e gestores de recursos.

Hoje o Brasil permanece abaixo do chamado grau de investimento, classificação reservada aos emissores considerados de baixo risco de inadimplência.

Atualmente, o país possui:

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  • Moody’s: Ba1
  • S&P Global: BB
  • Fitch Ratings: BB

Todas mantêm perspectiva estável, mas nenhuma coloca o Brasil entre os países considerados de menor risco.

Na prática, permanecer abaixo do grau de investimento reduz o universo de investidores que podem comprar títulos brasileiros, já que muitos fundos internacionais possuem regras que impedem aplicações em ativos classificados como especulativos.

O último rebaixamento relevante ocorreu em janeiro de 2018, quando a S&P Global reduziu a nota soberana do Brasil de BB para BB-, citando a frustração com o avanço das reformas fiscais e o aumento das incertezas políticas.

Antes disso:

  • 2015: a S&P retirou o grau de investimento do Brasil (BBB- → BB+). (governo Dilma)
  • 2015: a Fitch também retirou o grau de investimento. (governo Dilma)
  • 2016: a Moody’s retirou o grau de investimento do país. (governo Dilma)

Desde 2018, nenhuma das três grandes agências voltou a rebaixar a nota soberana brasileira.

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Por que isso importa para quem investe?

A classificação de risco influencia diretamente o custo de financiamento do governo.

Quanto maior o risco percebido pelos investidores, maior tende a ser o prêmio exigido para financiar a dívida pública.

Na prática, isso pode resultar em:

  • juros estruturalmente mais elevados;
  • maior custo para emissão de títulos públicos;
  • pressão adicional sobre o déficit nominal;
  • aumento do custo de captação para empresas brasileiras;
  • menor entrada de capital estrangeiro.

Embora um eventual rebaixamento não provoque automaticamente uma crise financeira, ele costuma elevar a percepção de risco sobre toda a economia.

O que muda na vida do brasileiro se o Brasil perder mais uma vez sua nota de crédito?

Embora um eventual rebaixamento seja uma decisão técnica das agências de classificação de risco, seus efeitos acabam chegando ao bolso da população.

Na prática, quando um país passa a ser visto como mais arriscado pelos investidores internacionais, o governo precisa pagar juros maiores para captar recursos no mercado.

Esse custo maior tende a se espalhar por toda a economia.

Os principais impactos podem incluir:

  • financiamentos imobiliários mais caros;
  • crédito para empresas com juros maiores;
  • aumento do custo de empréstimos bancários;
  • menor entrada de investimentos estrangeiros;
  • pressão sobre o dólar;
  • dificuldade para reduzir a taxa Selic de forma sustentável;
  • menor crescimento econômico e geração de empregos.

Em outras palavras, o risco soberano funciona como um “teto” para toda a economia: quando ele sobe, praticamente todos os agentes passam a pagar mais caro para captar recursos.

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Quem ganha e quem perde com um eventual rebaixamento?

Os efeitos não atingem todos da mesma forma.

Quem tende a perder

  • Governo Federal, que paga juros maiores sobre novas emissões da dívida;
  • Empresas brasileiras, que encontram maior dificuldade para captar recursos no exterior;
  • Consumidores, diante do encarecimento do crédito;
  • Investidores em renda variável, caso aumente a saída de capital estrangeiro da Bolsa;
  • Pequenas empresas, mais dependentes do crédito bancário.

Quem pode ganhar

Alguns investidores conseguem se beneficiar em determinados cenários.

Entre eles:

  • detentores de títulos públicos indexados à inflação ou prefixados adquiridos antes da alta dos juros (desde que carregados até o vencimento);
  • instituições financeiras que ampliam receitas com spreads maiores;
  • exportadoras, caso um dólar mais valorizado aumente suas receitas em reais.

No entanto, esses ganhos costumam ser concentrados, enquanto o aumento do custo do capital afeta grande parte da economia.

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O alerta chama atenção porque nem durante a Pandemia de Covid-19 o Brasil foi rebaixado

O risco ganha peso justamente porque o Brasil atravessou um dos maiores choques econômicos da história recente, sob gestão de Jair Bolsonaro, sem sofrer um novo rebaixamento de sua classificação soberana.

Durante a pandemia de Covid-19, o país registrou forte aumento da dívida pública, retração econômica e gastos extraordinários, mas as principais agências optaram por manter as notas soberanas, e as questões econômicas foram estabilizadas já em 2022.

Agora, o debate sobre uma possível revisão negativa ocorre em um contexto diferente.

Segundo analistas, a preocupação deixou de estar concentrada em uma crise temporária e passou a recair sobre a trajetória estrutural das contas públicas na gestão de Lula, especialmente diante do crescimento das despesas obrigatórias, da expansão das operações parafiscais e das dúvidas sobre a capacidade de estabilizar a dívida ao longo dos próximos anos.

Isso torna o alerta do ASA particularmente relevante: um eventual rebaixamento ocorreria não por causa de um choque externo extraordinário, mas pela percepção de deterioração fiscal doméstica.

Enquanto o Brasil enfrenta dúvidas, a Argentina segue o caminho inverso

O contraste regional também chama atenção dos investidores.

Depois de anos acumulando sucessivos rebaixamentos, a Argentina passou a receber avaliações mais favoráveis do mercado após a implementação de um forte ajuste fiscal pelo governo de Javier Milei.

Embora o país ainda permaneça em categoria especulativa e enfrente desafios relevantes, parte dos analistas passou a enxergar melhora na trajetória fiscal argentina, refletida na queda do risco-país, na desaceleração da inflação e na recuperação gradual da confiança dos investidores.

No Brasil, ocorre o movimento oposto.

Apesar de possuir uma economia muito maior, reservas internacionais robustas e sistema financeiro sólido, as discussões voltaram a se concentrar na expansão da dívida pública, na dificuldade de controlar o crescimento das despesas e na credibilidade do ajuste fiscal.

Para investidores estrangeiros, a direção das contas públicas costuma pesar mais do que o tamanho da economia. Por isso, enquanto a Argentina tenta recuperar credibilidade após um ajuste severo, o Brasil corre o risco de ver aumentar a percepção de risco caso não consiga convencer o mercado de que sua dívida seguirá uma trajetória sustentável.

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Fiscal continua sendo o maior problema

Segundo Jefferson Bittencourt, os fundamentos externos do Brasil continuam relativamente sólidos.

Entre eles, o economista destaca:

  • elevado volume de reservas internacionais;
  • financiamento consistente via investimento estrangeiro direto;
  • economia diversificada;
  • exportações distribuídas entre diversos mercados.

O principal ponto de fragilidade permanece sendo o quadro fiscal.

Na avaliação do ASA, a situação piorou ao longo de 2026.

Além do aumento das despesas tradicionais, o economista chama atenção para o crescimento das chamadas operações parafiscais, mecanismo que pode ampliar o endividamento sem aparecer integralmente no resultado primário.

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O que são operações parafiscais?

As operações parafiscais envolvem financiamentos, empréstimos ou mecanismos realizados pelo governo que nem sempre aparecem de forma integral no resultado primário das contas públicas.

Apesar disso, elas podem gerar aumento da dívida pública e impactar o resultado nominal do setor público.

Segundo estimativas citadas por Bittencourt, essas operações podem alcançar entre R$ 140 bilhões e R$ 160 bilhões.

Para economistas, esse tipo de instrumento exige atenção porque pode elevar o endividamento futuro mesmo quando o déficit primário parece controlado.

Dívida líquida acelera mais rapidamente

Outro ponto destacado pelo ASA é a evolução da dívida líquida do setor público.

Segundo o economista, ela vem crescendo em velocidade superior à dívida bruta.

Isso ocorre porque parte das operações gera ativos para a União, mas com baixa rentabilidade, deteriorando a posição patrimonial do setor público ao longo do tempo.

Para analistas de risco, não basta observar apenas o déficit de um determinado ano.

O foco está na trajetória futura da dívida e na capacidade do governo estabilizar seu crescimento.

Pacote fiscal pode definir decisão das agências

Um dos principais eventos aguardados pelo mercado é o pacote de ajuste fiscal esperado para o fim do ano.

Na avaliação do ASA, esse conjunto de medidas poderá influenciar diretamente a percepção das agências de classificação de risco.

Caso o governo apresente propostas consideradas robustas para conter o crescimento das despesas obrigatórias e melhorar a sustentabilidade das contas públicas, a pressão por uma revisão negativa tende a diminuir.

Por outro lado, um pacote considerado insuficiente ou acompanhado de medidas que ampliem gastos pode produzir o efeito contrário.

Mercado lembra pacote de 2024

Bittencourt citou como exemplo o pacote fiscal da gestão Lula apresentado no fim de 2024.

Na ocasião, parte do mercado esperava medidas de consolidação das contas públicas.

Entretanto, o anúncio foi acompanhado por propostas de desoneração do Imposto de Renda, o que, segundo o economista, reduziu a credibilidade do ajuste perante investidores.

A avaliação reforça um ponto recorrente nas análises das agências de rating: não basta anunciar contenção de despesas se outras medidas aumentarem simultaneamente a pressão sobre o orçamento.

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Histórico recente aumenta cautela

O economista também lembrou episódios ocorridos após as eleições de 2022, quando Lula assumiu e novas despesas permanentes foram aprovadas posteriormente, alterando novamente as expectativas fiscais.

Na visão do ASA, esse histórico faz com que investidores acompanhem não apenas os anúncios iniciais, mas toda a execução da política fiscal ao longo do tempo.

Isso significa que a avaliação das agências poderá considerar tanto o conteúdo do eventual pacote de ajuste quanto a consistência das decisões tomadas nos meses seguintes.

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O que as agências de rating observam antes de mudar a nota do Brasil?

Entre os principais fatores analisados pelas agências estão:

  • trajetória da dívida pública;
  • capacidade de estabilização fiscal;
  • crescimento econômico;
  • credibilidade da política econômica;
  • previsibilidade institucional;
  • sustentabilidade das despesas obrigatórias;
  • custo de financiamento da dívida;
  • capacidade de geração de receitas.

O conjunto desses indicadores determina se o país apresenta melhora, estabilidade ou deterioração do risco de crédito.

O que pode acontecer daqui para frente?

O cenário traçado pelo ASA indica que o calendário político, por si só, não garante proteção ao Brasil contra uma eventual revisão da nota soberana.

Se as contas públicas continuarem se deteriorando ou se o pacote fiscal decepcionar o mercado, cresce a possibilidade de que alguma agência antecipe uma reavaliação.

Por outro lado, caso o governo apresente medidas consideradas críveis para controlar o crescimento da dívida e melhorar a sustentabilidade fiscal, a pressão sobre o rating pode diminuir.

Assim, a evolução da política fiscal nos próximos meses tende a ser um dos principais fatores acompanhados por investidores nacionais e estrangeiros.

Perguntas frequentes

O Brasil pode perder sua nota de crédito antes de 2027?

Sim. Segundo avaliação apresentada pelo economista Jefferson Bittencourt, do ASA, não existe garantia de que as agências de classificação de risco esperarão o fim do ciclo eleitoral para revisar o rating soberano caso percebam deterioração relevante das contas públicas.

O Brasil tem grau de investimento?

Não. Atualmente, as três principais agências internacionais classificam o Brasil abaixo do grau de investimento, mantendo o país na categoria considerada especulativa.

Um rebaixamento aumenta os juros?

Pode aumentar. Uma piora na percepção de risco normalmente leva investidores a exigir remuneração maior para financiar a dívida pública, elevando o custo de captação do governo e, potencialmente, de empresas brasileiras.

O que mais preocupa as agências?

Os principais pontos observados são a trajetória da dívida pública, o equilíbrio fiscal, a credibilidade das políticas econômicas e a capacidade do governo de controlar o crescimento das despesas ao longo do tempo.

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Lucas Lopes Lopes
Lucas Lopes Lopes
Jornalista cubro editorias de economia há 10 anos. Especializado em criptoativos e-mail: [email protected]
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