Revista britânica, que havia tratado o Brasil como exemplo de resistência institucional após a eleição de 2022, afirma agora que o Supremo entrou no centro de um escândalo de corrupção em expansão e que a crise envolvendo Alexandre de Moraes, Daniel Vorcaro e o Banco Master pode comprometer a confiança nas instituições às vésperas da eleição de 2026
O Supremo Tribunal Federal, que há menos de um ano era apresentado pela The Economist como uma das instituições responsáveis por preservar a democracia brasileira diante da suposta tentativa de Jair Bolsonaro de permanecer no poder, mesmo estando fora do Brasil, agora aparece na revista britânica com viés esquerdista como parte do problema que pode ameaçar a confiança nessa mesma democracia. Em artigo publicado em 10 de setembro, na seção The Americas, com dateline no Rio de Janeiro, a publicação mudou o tom e colocou o STF no centro de um alerta sobre corrupção, conflitos internos, transparência e risco eleitoral.
O título escolhido resume a mudança: “When the defenders of democracy turn their backs on it instead”, ou “Quando os defensores da democracia viram as costas para ela”. O argumento da revista é que o tribunal que enfrentou Bolsonaro e ajudou a impedir uma ruptura institucional depois da eleição de 2022 passou a enfrentar uma crise própria, agravada pelas revelações do caso Banco Master e pelas relações entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A Economist não trata o episódio como uma controvérsia isolada dentro do Judiciário. Seu diagnóstico é de uma crise com potencial para alcançar a eleição presidencial de 2026, porque o desgaste do STF pode evidenciar a desconfiança sobre decisões judiciais.
O contraste que sustenta toda a reportagem
A força do artigo está justamente no contraste.
A revista começa lembrando que o STF segundo a visão da publicação foi decisivo na “reação brasileira à tentativa de contestar o resultado eleitoral de 2022. A Corte enfrentou Bolsonaro, seus aliados e as ameaças decorrentes do movimento que culminou nos ataques de 8 de janeiro”.
A Economist também em sua visão afirma que o Supremo enfrentou pressão externa, inclusive do governo Donald Trump, e que sua atuação foi celebrada por grande parte da sociedade brasileira como uma demonstração de resistência institucional.
Essa era a narrativa predominante apresentada pela publicação: o Brasil havia conseguido preservar suas instituições quando uma parcela relevante do sistema político tentou pressioná-las.
Agora, a pergunta mudou.
Para a revista, o risco não está mais apenas na possibilidade de um político tentar romper as regras democráticas. Está também na possibilidade de as próprias instituições perderem legitimidade perante a população.
É nesse ponto que o caso Banco Master entra no centro da análise.
O escândalo que colocou Moraes novamente no foco
A Economist descreve o caso Banco Master como um “escândalo de corrupção feio e em constante expansão” e relaciona sua dimensão política às informações envolvendo Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes.
Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tornou-se um dos principais personagens da investigação. As mensagens encontradas pela Polícia Federal em seus dispositivos passaram a ocupar posição central no caso porque mostram contatos com autoridades e políticos e revelam a proximidade mantida pelo empresário com diferentes integrantes do poder.
Entre os interlocutores estava Moraes.
A revista chama atenção para a frequência das comunicações entre o ministro e Vorcaro e para mensagens nas quais o banqueiro buscava orientação de Moraes sobre sua situação.
Em uma delas, Vorcaro pergunta ao ministro se deveria deixar o país, pouco antes de ser preso pela Polícia Federal.
O episódio ganhou ainda mais peso porque não se trata apenas de uma relação registrada em agenda ou de um contato ocasional. As mensagens colocadas sob investigação passaram a permitir uma reconstrução mais ampla da relação entre os dois.
É justamente essa proximidade que a Economist coloca no centro de sua crítica.
O escritório da mulher de Moraes também aparece
Outro elemento citado pela revista é o contrato do Banco Master com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
O escritório recebeu valores do banco por serviços jurídicos. No contexto da reportagem, ele é apresentado ao lado das mensagens entre Vorcaro e Moraes e da posição ocupada pelo ministro no sistema de Justiça.
Essa combinação levou a revista a questionar os mecanismos de transparência aplicáveis aos integrantes da Corte.
A discussão, portanto, não está restrita ao que Vorcaro dizia nas mensagens. O que a Economist considera relevante é a soma de relação pessoal, contratação profissional e posição institucional.
É essa sobreposição que passou a produzir uma crise de imagem para o Supremo.
A proposta de Fachin e a reação de Moraes
A crise ganhou um componente interno quando Edson Fachin assumiu a presidência do STF.
Depois que as relações de Moraes com Vorcaro vieram a público, Fachin propôs a adoção de um código de ética para ministros da Corte, incluindo mecanismos de transparência sobre rendimentos e atividades externas.
A Economist afirma que Moraes ridicularizou a proposta.
O episódio é importante porque mostra que a discussão deixou de ser uma crítica externa ao Supremo. A própria presidência da Corte passou a defender mudanças nas regras de transparência em meio à controvérsia envolvendo um de seus ministros.
Para a revista, isso reforça a percepção de que o problema não pode mais ser tratado apenas como uma disputa política promovida por adversários do STF.
Mendonça de relator do caso Master a alvo de Moraes
A situação se tornou ainda mais grave em 3 de setembro.
André Mendonça, relator do caso Banco Master, autorizou a divulgação de mensagens relacionadas à investigação. Entre elas estavam comunicações envolvendo Vorcaro e Moraes.
Moraes reagiu pedindo a investigação de Mendonça por suposto abuso de autoridade e alegada motivação política.
A partir daí, a crise ganhou uma característica incomum: ministros do próprio Supremo passaram a ocupar posições opostas em torno de uma investigação que envolve pessoas próximas à Corte.
A Economist considera a reação de Moraes mais grave do que as controvérsias envolvendo Mendonça.
A revista, contudo, registra que Mendonça teve ligação com o governo Bolsonaro, o que não significa que os demais ministro não tenham col LUla. O artigo lembra que ele foi ministro da Justiça de Bolsonaro.
A ressalva não muda a conclusão da publicação sobre o episódio atual: para a Economist, a reação de Moraes levanta uma questão mais profunda sobre a capacidade do STF de permitir que uma investigação avance quando suas próprias autoridades aparecem no material investigado.
Fachin intervém e o sigilo passa a ser parte da crise
A disputa chegou a outro estágio quando Fachin determinou medidas relacionadas ao sigilo do caso, após pedido de Moraes e de Gonet também citado em mensagens do Master.
O presidente do STF determinou que Mendonça retirasse o sigilo do material da investigação do Banco Master, preservando apenas informações cuja divulgação pudesse prejudicar diligências ainda em andamento.
A decisão ocorreu depois de uma sequência de decisões conflitantes e de uma escalada pública entre integrantes do tribunal.
O problema para a eleição de 2026
A revista considera especialmente preocupante o momento em que a crise ocorre.
O Brasil entra no ciclo eleitoral de 2026 com o STF profundamente envolvido na disputa política dos últimos anos.
A Corte condenou Bolsonaro, participou de processos contra integrantes de seu governo e de seu grupo político enquanto defendeu ideias controversas do governo atual.
Para a Economist, isso pode produzir um efeito político difícil de controlar: qualquer decisão da Corte sobre o caso poderá ser interpretada à luz da disputa eleitoral.
Flávio Bolsonaro entra na equação
A revista também destaca Flávio Bolsonaro.
O senador aparece nas investigações relacionadas ao universo de Daniel Vorcaro e do Banco Master e é citado no contexto de patrocínio do projeto cinematográfico Dark Horse.
Ao mesmo tempo, Flávio é um dos principais nomes do campo bolsonarista para 2026.
Uma crise que atravessa o espectro político
Um aspecto importante do caso é que o material da investigação não se restringe ao bolsonarismo.
As informações relacionadas ao Banco Master alcançam políticos de diferentes partidos e grupos. Tem itens mais sensíveis sobre políticos do núcleo petista, mas também sobre partidos de centro.
O caso envolve dinheiro, instituições financeiras, autoridades, empresários, partidos e diferentes centros de poder.
Da Lava Jato ao Banco Master: a memória que pesa sobre o STF
A Economist também trabalha com a memória dos grandes escândalos brasileiros.
O STF construiu parte importante de sua autoridade pública durante o julgamento do Mensalão e, posteriormente, ao participar dos processos relacionados à Lava Jato onde prendeu corruptos confessos.
A Corte tornou-se símbolo da responsabilização de políticos e empresários poderosos que agora em sua maioria estão todos soltos e livres, mesmo após provas e confissões, soltos pelo próprio STF.
A mudança na persepção internacional da mídia aliada
O artigo também é relevante pelo que representa fora do Brasil.
A Economist é uma publicação acompanhada por investidores, governos, empresários e instituições internacionais. Uma mudança de tom em relação ao Brasil, mostra que o debate sobre a qualidade institucional brasileira deixou de estar concentrado no ambiente político doméstico.
O Brasil que a revista anteriormente apresentava como exemplo de resistência democrática agora é apresentado como um país diante de uma nova ameaça: não uma tentativa explícita de ruptura, mas o desgaste gradual da confiança nas instituições.
A revista afirma que a população já está cansada dos sucessivos ciclos de corrupção envolvendo a classe política. Durante anos, o STF foi uma das instituições que prometiam romper esse ciclo, responsabilizando pessoas que pareciam intocáveis. Mas agora as soltou e ainda se envolveu nos escândalos.


