Como um dos executivos mais influentes do mercado financeiro brasileiro passou de presidente da Elo e executivo da Visa a alvo da Operação Juro Zero que investiga o PicPay dos irmãos Batista

Durante décadas, Eduardo Chedid construiu uma trajetória considerada uma das mais sólidas do mercado brasileiro de meios de pagamento. Com passagens por gigantes como Visa, Credicard, Cielo e Elo, o executivo chegou ao comando do PicPay, fintech controlada pelo grupo dos irmãos Joesley e Wesley Batista, proprietários da J&F Investimentos.

Agora, porém, o nome do executivo aparece no centro de uma das maiores investigações envolvendo crédito consignado e antecipação salarial para servidores públicos do Distrito Federal.

A Operação Juro Zero, conduzida pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), apura um suposto esquema que teria movimentado dezenas de milhões de reais por meio de contratos apresentados como antecipação salarial sem juros, mas que, segundo os investigadores, escondiam cobranças financeiras consideradas irregulares.

A investigação colocou Eduardo Chedid entre os principais alvos das medidas autorizadas pela Justiça, incluindo mandados de busca e apreensão.

Entre os investigados estão o secretário de Economia do Distrito Federal, Ney Ferraz, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que está preso.

Para a operação desta sexta-feira, a Justiça do Distrito Federal expediu 50 mandados de busca e apreensão, que estão sendo cumpridos em Brasília, São Paulo (SP) e Curitiba (PR).

Os mandados têm como alvo endereços ligados aos investigados, ao BRB, aos Serviços S.A., à Secretaria de Economia do Distrito Federal, ao Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (Iprev-DF) e à Associação dos Servidores Públicos do Distrito Federal.

Além das buscas, a Justiça determinou o bloqueio de quase R$ 90 milhões em contas da PicPay e da Associação dos Servidores do Distrito Federal. As ações foram executadas por agentes do Departamento de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado (Decor), da Polícia Civil.

O BRB no caso da Operação Juro Zero

Ney Ferraz já havia sido alvo de outra operação realizada pelo MPDFT , TCDF e pela Polícia Civil na quarta-feira (17), que apura possíveis crimes contra a administração pública.

Já Paulo Henrique Costa e outros ex-dirigentes do BRB também são investigados pela Polícia Federal (PF) em outro caso envolvendo o Banco Master.

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Apesar de envolver alguns dos mesmos investigados, a Operação Juros Zero não está relacionada ao chamado caso Master.

No âmbito dessa investigação conduzida pela Polícia Federal, Paulo Henrique Costa e outros ex-dirigentes do BRB são apurados por transações realizadas com o Banco Master, instituição ligada ao empresário preso Daniel Vorcaro, que teria causado prejuízos bilionários ao banco estatal.

O BRB também tentou adquirir o Banco Master. O negócio acabou sendo impedido pelo Banco Central (BC), que posteriormente liquidou a instituição financeira. Daniel Vorcaro também está preso.

O caso Master é investigado pela Polícia Federal por meio da Operação Compliance Zero. O processo tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) por envolver pessoas com foro privilegiado, entre elas deputados e senadores.

brb
Banco Master e BRB

Da Visa e Elo ao comando do PicPay

Antes de assumir a presidência do PicPay, Eduardo Chedid acumulou mais de três décadas de atuação no sistema financeiro.

Sua trajetória inclui cargos de liderança em algumas das maiores empresas do setor:

  • Vice-presidente da Visa no Brasil;
  • Diretor da Credicard;
  • Vice-presidente comercial da Cielo;
  • Presidente da Elo;
  • Participação em entidades representativas do mercado de meios de pagamento.

O currículo transformou Chedid em um dos nomes mais conhecidos da indústria financeira brasileira, especialmente no segmento de cartões, adquirência e pagamentos digitais.

Em 2022, ele assumiu o comando do PicPay, uma das principais apostas da J&F para competir com bancos digitais e fintechs que disputam espaço com Nubank, Mercado Pago e Inter.

O crescimento agressivo do PicPay

Sob o controle dos irmãos Batista, o PicPay passou por uma estratégia acelerada de expansão.

A fintech ampliou sua presença em:

  • Crédito pessoal;
  • Crédito consignado;
  • Antecipação salarial;
  • Serviços bancários digitais;
  • Carteira digital;
  • Investimentos.

A aposta era transformar a empresa em um ecossistema financeiro completo, capaz de competir com os maiores bancos digitais do país.

Foi justamente dentro dessa estratégia que surgiu o programa de antecipação salarial para servidores públicos do Distrito Federal.

LEIA MAIS: Fintech PicPay cria empréstimo de pessoa para pessoa e gera polêmica sobre ‘agiotagem’

O que a Operação Juros Zero investiga

Segundo o Ministério Público, empresas ligadas ao programa teriam ofertado aos servidores um produto divulgado como antecipação salarial sem cobrança de juros.

A suspeita dos investigadores é que os custos financeiros da operação teriam sido ocultados sob outras nomenclaturas contratuais.

Na avaliação do MPDFT, o modelo poderia ter induzido consumidores a erro ao apresentar condições diferentes das efetivamente praticadas.

Os promotores também investigam a eventual participação de agentes públicos, intermediários financeiros e empresas privadas na estrutura que permitiu a operacionalização do programa.

As apurações incluem possíveis crimes como:

  • Organização criminosa;
  • Lavagem de dinheiro;
  • Corrupção;
  • Publicidade enganosa;
  • Fraudes em operações financeiras.

Até o momento, as investigações seguem em andamento e não há condenações definitivas.

OPERAÇÃO JURO ZERO

Como funcionava o esquema de descontos?

De acordo com as apurações do Ministério Público, o grupo teria se aproveitado de um decreto distrital publicado em 2024 para operacionalizar as fraudes. O esquema consistia em realizar descontos indevidos nas folhas de pagamento, onde os juros eram camuflados sob a nomenclatura de “taxas de antecipação”, enganando o consumidor final.

As acusações são graves e incluem:

  • Crimes contra a economia popular;
  • Publicidade enganosa nas relações de consumo;
  • Modificação indevida de dados em sistemas públicos;
  • Corrupção ativa e passiva, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

LEIA TAMBÉM: Por que Hugo Motta aceitou que Vorcaro do Banco Master pagasse sua hospedagem luxuosa? E o que o ex-banqueiro ganharia com isso?

Por que Eduardo Chedid se tornou alvo

Para os investigadores, o interesse sobre Eduardo Chedid decorre de sua posição como principal executivo do PicPay durante a execução das operações analisadas. Ele passou a liderar o PicPay em 2022, tem formação pela FGV, assumiu a chefia da holding do grupo em 2024.

Como CEO, ele ocupava o cargo de maior responsabilidade executiva dentro da instituição financeira.

A inclusão do executivo entre os alvos não significa culpa ou responsabilização criminal automática.

No entanto, demonstra que os investigadores consideram relevante analisar:

  • A estrutura decisória da empresa;
  • Os contratos firmados;
  • A aprovação de produtos financeiros;
  • Os mecanismos de cobrança utilizados;
  • A governança da operação investigada.

É importante lembrar também que Chedid já teve seu pedido de indiciamento pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Fraude do INSS (INSS). “CPMI do Roubo dos Aposentados”.

O peso político e econômico do caso

A Operação Juros Zero ganhou repercussão nacional porque não envolve apenas uma fintech.

O caso conecta três elementos que chamam a atenção do mercado:

1. O PicPay

Uma das maiores plataformas financeiras digitais do Brasil.

2. Os irmãos Batista

Controladores da J&F, grupo que também detém empresas como a JBS.

3. Recursos ligados a servidores públicos

A investigação envolve operações realizadas com trabalhadores vinculados ao governo do Distrito Federal, ampliando o interesse público sobre o caso.

De executivo respeitado do mercado a CEO de uma fintech cercada por investigações

Quando assumiu o comando do PicPay, Eduardo Chedid chegou à empresa com um currículo que poucos executivos do mercado financeiro brasileiro possuem. Depois de ocupar cargos de liderança na Visa, Credicard, Cielo e Elo, ele passou a comandar a principal aposta dos irmãos Joesley e Wesley Batista para conquistar espaço no setor financeiro.

Nos últimos anos, porém, o crescimento acelerado do PicPay passou a ser acompanhado por questionamentos regulatórios, disputas judiciais e investigações envolvendo produtos financeiros da plataforma.

A Operação Juros Zero é o episódio mais recente dessa sequência.

Antes dela, o nome do PicPay já havia aparecido em discussões relacionadas ao mercado de consignados, descontos em folha e modelos de crédito voltados a aposentados e servidores públicos. Em diferentes ocasiões, autoridades e órgãos de fiscalização analisaram a atuação de empresas do setor diante do crescimento explosivo desse mercado, que movimenta bilhões de reais por ano.

Agora, com a inclusão de Eduardo Chedid entre os alvos das medidas autorizadas pela Justiça, a investigação alcança diretamente o principal executivo da fintech controlada pelos irmãos Batista.

O desafio dos irmãos Batista no setor financeiro

A entrada da J&F no mercado financeiro foi tratada como uma tentativa de replicar no setor bancário o sucesso empresarial alcançado em outras áreas da economia.

Sob o comando dos irmãos Batista, o PicPay recebeu investimentos bilionários e tornou-se uma das empresas mais valiosas do grupo fora do segmento de proteínas.

A estratégia era clara: transformar a fintech em um gigante digital capaz de disputar clientes com bancos tradicionais e grandes plataformas tecnológicas.

Mas a Operação Juros Zero cria um problema que vai além de uma investigação isolada.

O caso coloca sob escrutínio justamente um dos pilares da expansão do PicPay: a oferta de crédito e soluções financeiras para milhões de brasileiros.

VEJA: Cade investiga venda da Kovr do Banco Master ao PicPay dos irmãos Batista e levanta dúvidas sobre ocultação de bens da operação

Um padrão que chama atenção dos investigadores

Embora os fatos investigados sejam distintos, existe um elemento comum em boa parte das apurações que envolveram o setor nos últimos anos: a comercialização de produtos financeiros para públicos considerados mais vulneráveis, como aposentados, pensionistas e servidores públicos.

Segundo o Ministério Público, a Operação Juros Zero busca esclarecer se operações divulgadas como antecipação salarial sem juros escondiam custos financeiros cobrados por outros mecanismos contratuais.

A relevância da investigação aumenta porque ela não atinge apenas uma operação específica. Os investigadores tentam compreender como o produto foi estruturado, aprovado e comercializado dentro de uma das maiores fintechs do país.

É justamente nesse ponto que as atenções convergem para três personagens centrais do caso:

  • Eduardo Chedid, responsável pela gestão executiva da empresa;
  • O PicPay, plataforma utilizada para operacionalizar as operações investigadas;
  • Os irmãos Batista, controladores do grupo que transformou a fintech em peça estratégica de seus negócios.

LEIA MAIS: JBS dos irmãos Batista é apontada pelos EUA como parte do “cartel da carne”

O que está em jogo para o PicPay

Para além da responsabilidade individual de qualquer investigado, o desfecho da Operação Juros Zero poderá responder uma pergunta que interessa ao mercado financeiro inteiro:

Como uma fintech avaliada em bilhões de reais, comandada por um dos executivos mais experientes do setor e controlada por um dos grupos empresariais mais poderosos do país, acabou no centro de uma investigação sobre operações financeiras oferecidas a servidores públicos?

A resposta poderá determinar não apenas o futuro dos investigados, mas também o impacto reputacional para o PicPay e para o projeto dos irmãos Batista de construir um dos maiores conglomerados financeiros digitais do Brasil.

O posicionamento oficial do PicPay

Em resposta às investigações, o PicPay emitiu uma nota oficial negando qualquer irregularidade. A empresa afirma que seus produtos e serviços seguem rigorosamente a legislação financeira e as normas de conformidade (compliance) do mercado.

Segundo a fintech, os valores antecipados foram disponibilizados diretamente aos clientes via aplicativo, sem a participação de intermediários ou associações. A companhia reiterou que está “colaborando plenamente com as autoridades competentes” e confia que a regularidade de sua atuação será comprovada.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Estrategista focada em proteger o investidor pessoa física dos conflitos de interesse dos grandes bancos e corretoras. Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado de Capitais. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia
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