Vorcaro diz que Galípolo e cúpula do Banco Central incentivaram negócio com Master, e reacende a pergunta sobre os bilhões já colocados pelo estatal BRB

Em depoimento à PF, ex-controlador do Master afirma que Banco Central atuava para viabilizar a operação; declaração ganha peso diante dos R$ 16,7 bilhões movimentados entre BRB e Master antes do veto à aquisição e dos R$ 12,2 bilhões em carteiras que se transformaram no maior problema financeiro do banco público

O caso Banco Master ganhou um novo elemento que pode mudar a forma como a relação entre o banco de Daniel Vorcaro e o Banco de Brasília (BRB) será analisada daqui para frente.

Em depoimento à Polícia Federal prestado em 28 de agosto de 2026, Vorcaro afirmou que Galípolo indicado por Lula ao Banco Central, como um todo, mantinha uma postura de “concordância e incentivo” à conclusão da operação que levaria o BRB a assumir o controle do Master. A oitava obtida pelo Metrópoles foi realizada por videoconferência da Papudinha, onde está preso no âmbito da Operação Compliance Zero. Ele estava acompanhado dos advogados Sérgio Leonardo, Daniel Bialski e Thiago Machado.

Segundo o ex-controlador do Master, essa posição incluía o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o diretor Ailton Aquino.

A declaração foi obtida pelo Metrópoles e consta de depoimento prestado por Vorcaro à PF.

A afirmação, sozinha, não comprova que Galípolo ou qualquer outro integrante do BC tenha cometido irregularidade ou determinado a aprovação da operação. É a versão apresentada por Vorcaro e precisa ser confrontada com documentos, registros de reuniões e demais elementos da investigação.

Mas há uma razão para ela ser especialmente relevante.

O BRB não chegou à tentativa de compra do Master como um investidor que estava começando uma relação comercial. O banco público já havia movimentado bilhões de reais com o Master antes de a aquisição societária ser submetida ao Banco Central.

E é justamente essa cronologia que agora merece ser reexaminada.

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A história não começa com a tentativa de compra

O anúncio da aquisição ocorreu em março de 2025.

Pelo acordo, o BRB pretendia adquirir 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do Master, equivalentes a 58% do capital total da instituição. A operação dependia da autorização do Banco Central.

Mas a relação financeira entre os dois bancos era anterior.

Segundo informações apresentadas posteriormente pelo Ministério Público Federal, BRB e Master realizaram operações que totalizaram R$ 16,7 bilhões entre julho de 2024 e 3 de outubro de 2025.

Esse dado é fundamental porque muda a pergunta.

A história não é simplesmente:

Master tentou ser comprado pelo BRB → Banco Central analisou → Banco Central vetou.

A sequência real é muito mais complexa:

BRB e Master já mantinham operações bilionárias → a exposição cresceu → veio a tentativa de aquisição societária → o negócio passou a depender da autorização do BC → o BC acabou rejeitando a compra → posteriormente vieram à tona problemas graves em parte das carteiras adquiridas.

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É nesse intervalo que está uma das principais perguntas ainda abertas do caso.

O ponto que o depoimento de Vorcaro coloca sobre a mesa

Ao ser questionado pela PF sobre a posição do servidor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza, Vorcaro não limitou sua resposta a esse funcionário.

Ele afirmou conhecer a posição da própria cúpula da autoridade monetária.

“Eu sei qual era a postura do Banco Central como um todo.”

Segundo Vorcaro, as reuniões realizadas durante a tramitação do pedido tinham como objetivo organizar e solucionar os pontos levantados para que a operação pudesse ser aprovada.

O detalhe importante está justamente nessa descrição.

Se ela for confirmada por documentos, significará que a relação do regulador com a operação foi mais complexa do que simplesmente uma análise técnica que terminou em veto.

Se não for confirmada, será igualmente importante saber por que a percepção de Vorcaro sobre a postura do BC era tão diferente da decisão final da autoridade monetária.

Em ambos os casos, há uma questão documental a ser respondida.

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O veto veio depois de meses de negociação

O Banco Central rejeitou a aquisição em 3 de setembro de 2025, depois de mais de cinco meses de análise.

A decisão foi tomada pela Diretoria Colegiada e atingiu a operação que permitiria ao BRB assumir participação no Master.

O negócio acabou barrado.

Mas isso não significou que a exposição financeira do BRB ao Master desaparecesse.

Ao contrário.

Bilhões de reais já haviam sido movimentados entre as duas instituições.

E uma parcela dessas operações se tornaria posteriormente o centro de uma crise que atingiria diretamente o banco público.

R$ 16,7 bilhões: o número que muda a dimensão do caso

Segundo o MPF, as operações entre BRB e Master alcançaram R$ 16,7 bilhões entre julho de 2024 e outubro de 2025.

Dentro desse universo, o BRB adquiriu aproximadamente R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito do Master que passaram a ser investigadas por suspeitas de fraude. O montante teve de ser reconhecido como prejuízo pelo banco público, que agora enfrenta dificuldades financeiras.

A Agência Brasil informou que a estimativa inicial apontava para um prejuízo de pelo menos R$ 5 bilhões, enquanto o valor definitivo dependeria da conclusão das demonstrações financeiras.

É importante fazer uma distinção que frequentemente se perde na cobertura do caso:

Os R$ 12,2 bilhões não foram o preço pago pelo BRB para comprar o Master.

São operações de aquisição de carteiras de crédito.

A compra societária do Master era outra operação, que dependia de autorização do Banco Central e acabou rejeitada.

Essa diferença é essencial para entender o caso.

O BRB não precisou comprar o Master para ficar exposto ao Master.

Quando a tentativa de aquisição foi rejeitada, a instituição pública já carregava uma exposição bilionária decorrente das operações realizadas anteriormente.

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E aqui está a pergunta mais importante

Se o BRB já havia movimentado R$ 16,7 bilhões com o Master antes e durante o processo de aquisição, a tentativa de compra não pode ser analisada isoladamente das operações financeiras que a antecederam.

Isso não significa que uma coisa necessariamente tenha causado a outra.

Significa que as duas histórias precisam ser investigadas conjuntamente.

A pergunta que surge é:

por que um banco público aumentou sua exposição a uma instituição que posteriormente teria sua aquisição rejeitada pelo próprio órgão regulador?

E há uma segunda pergunta, ainda mais importante:

o que o Banco Central sabia sobre a qualidade dos ativos e sobre o risco das operações enquanto a exposição do BRB crescia?

Essas perguntas não podem ser respondidas apenas pelo depoimento de Vorcaro.

Precisam ser respondidas pela documentação.

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A aparente contradição que agora precisa ser explicada

O caso apresenta, neste momento, duas imagens diferentes da atuação do Banco Central.

De um lado, está o relato de Vorcaro:

a cúpula do BC, incluindo Galípolo, teria demonstrado concordância e incentivo à conclusão da operação.

De outro, está o resultado objetivo:

o Banco Central rejeitou a aquisição em setembro de 2025.

E há ainda uma terceira peça.

Posteriormente, a própria atuação da supervisão do BC passou a aparecer no caso como uma das estruturas que identificaram inconsistências nas operações envolvendo as carteiras e adotaram medidas prudenciais.

A autoridade monetária também comunicou possíveis ilícitos ao Ministério Público.

Não existe necessariamente uma contradição jurídica entre esses fatos.

Um regulador pode discutir uma operação, exigir mudanças, tentar solucionar problemas e, ao final, concluir que ela não pode ser autorizada.

Mas é exatamente essa transição que precisa ser esclarecida.

Quando a avaliação mudou?

O que mudou?

Qual informação foi decisiva?

E, principalmente:

o que já era conhecido pelo Banco Central quando o BRB estava realizando as operações bilionárias com o Master?

A tentativa de salvar a operação chegou até o último dia

A cronologia mostra que a rejeição não foi um processo automático.

Em 3 de setembro de 2025, poucas horas antes da decisão, o BRB ainda apresentou mudanças na estrutura da operação para tentar viabilizá-la.

Documentos obtidos posteriormente pelo Metrópoles mostram que o banco público chegou a propor alterações relevantes, inclusive a retirada de Vorcaro do quadro societário.

O material enviado ao Banco Central entrou às 11h22.

Às 19h20, os bancos foram informados de que a Diretoria Colegiada havia decidido, por unanimidade, rejeitar a operação.

Isso torna o depoimento de Vorcaro ainda mais relevante para a cronologia.

Ele afirma que, durante as tratativas, as reuniões tinham como objetivo solucionar obstáculos para permitir a aprovação.

Meses depois, o negócio foi rejeitado.

O que aconteceu entre esses dois momentos?

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O BRB ficou com a parte mais difícil da história

O problema não terminou com o veto.

O banco público ficou exposto às operações já realizadas.

A investigação sobre as carteiras adquiridas do Master se transformou em uma crise própria dentro do BRB.

Uma auditoria contratada pelo banco apontou responsabilidades de dirigentes envolvidos na aquisição das carteiras. Documento divulgado pelo próprio BRB registra informações sobre o relatório elaborado pela Kroll e pelo Machado Meyer e sobre a responsabilização de dirigentes pelas operações.

O tamanho da exposição ajuda a entender por que o caso deixou de ser apenas uma disputa empresarial entre dois bancos.

O BRB é uma instituição financeira controlada pelo Governo do Distrito Federal.

Portanto, uma perda bilionária não é apenas um problema contábil de acionistas privados.

Ela atinge uma instituição pública e pode exigir respostas sobre governança, controles internos, fiscalização e responsabilidade dos administradores.

É por isso que o caso Master interessa muito além do mercado financeiro.

O verdadeiro paradoxo do caso Master

O episódio pode ser resumido por um paradoxo.

O Banco Central não permitiu que o BRB comprasse o Master.

Mas o BRB já havia construído uma exposição bilionária ao banco.

E, segundo o MPF, as operações entre as duas instituições chegaram a R$ 16,7 bilhões.

Dentro desse universo, R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito passaram a representar uma das maiores fontes de problemas financeiros da história recente do banco público.

Agora, o depoimento de Vorcaro introduz uma nova variável:

segundo o ex-controlador do Master, a autoridade que acabou barrando a aquisição teria passado boa parte do processo trabalhando para viabilizá-la.

Se essa afirmação for confirmada documentalmente, a discussão sobre o caso muda de patamar.

Não será mais apenas uma investigação sobre por que o Master quebrou.

Será também uma investigação sobre como uma instituição pública chegou tão profundamente exposta a ele, quem acompanhou essa exposição, quais informações estavam disponíveis e por que a barreira regulatória apareceu antes da compra societária, mas não impediu previamente a construção de uma exposição de dezenas de bilhões de reais.

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A pergunta que permanece

Daniel Vorcaro está preso no âmbito da Operação Compliance Zero e é um dos principais investigados do caso. Sua versão, portanto, precisa ser examinada dentro do contexto de sua própria defesa.

Mas descartar automaticamente seu depoimento também seria um erro.

Porque há uma forma objetiva de verificar parte do que ele afirma.

Reuniões deixam registros. Processos regulatórios produzem documentos. Operações financeiras deixam rastros. Decisões do Banco Central têm fundamentos.

É nesses documentos que estará a resposta.

A questão central já não é apenas se o Banco Central era favorável ou contrário ao Master.

É outra, muito mais importante para o dinheiro público:

se a autoridade reguladora realmente incentivava a operação, o que ela sabia enquanto o BRB colocava bilhões no Master — e por que o banco público ficou exposto mesmo sem conseguir comprar a instituição?

Essa é a pergunta que o novo depoimento de Daniel Vorcaro coloca no centro do caso.

E é uma pergunta que não será respondida por versões.

Será respondida pelos documentos.

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Lucas Lopes Lopes
Lucas Lopes Lopes
Jornalista cubro editorias de economia há 10 anos. Especializado em criptoativos e-mail: [email protected]
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