Flávio transforma gastos do governo em videogame “Tesouraço” e leva consciência sobre o problema para dentro da tela, brasileiro pode escolher qual gasto cortar e salvar a arrecadação

“Tesouraço” usa linguagem dos games para transformar um dos temas mais difíceis da economia brasileira em uma experiência prática: mostrar ao cidadão o peso dos impostos e dos gastos públicos com sátira ao governo Lula que aumentou impostos mais de 30 vezes em 4 anos.

Um dos assuntos mais difíceis de explicar em economia acaba de ganhar uma linguagem que praticamente qualquer pessoa consegue entender: a dos videogames.

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) lançou no sábado (29), Dia do Gamer, o “Jogo do Tesouraço”, uma experiência inspirada em games de ação nos quais o jogador precisa cortar objetos que aparecem na tela, que simbolizam o que o game chama de “gastança” e pegar o cofre dourado que seria o dinheiro público, a arrecadação de impostos.

O jogador desliza uma tesoura pela tela para cortar representações de impostos e despesas classificadas como desperdícios do governo. A mecânica lembra o popular Fruit Ninja.

A diferença é que, desta vez, não são frutas.

O jogador encontra representações de impostos, viagens, cartão corporativo, propaganda, mobília do Palácio da Alvorada e outros itens associados pela campanha a gastos e desperdícios do governo. O objetivo é utilizar a tesoura para eliminar esses elementos.

Pode parecer apenas uma ação de campanha, ou uma sátira aos gastos e impostos do governo Lula.

Mas existe uma dimensão econômica mais interessante por trás da iniciativa: transformar um conceito abstrato em uma experiência concreta.

E isso pode ser particularmente relevante em um país onde a discussão sobre impostos e gastos públicos costuma ficar restrita a especialistas, economistas, empresários e políticos.

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Quando o imposto deixa de ser uma palavra e vira uma experiência

Para grande parte da população, “carga tributária” é uma expressão distante.

É um número apresentado em uma reportagem, um percentual do PIB divulgado por algum órgão público ou uma discussão sobre ICMS, IPI, PIS/Cofins, Imposto de Renda e outros tributos.

O problema é que números, sozinhos, nem sempre conseguem transmitir a dimensão do que representam.

Um videogame faz exatamente o contrário.

Ele transforma a informação em uma ação.

Apareceu o gasto → você identifica → corta.

A mecânica é simples, mas a mensagem econômica por trás dela é poderosa: o imposto não é uma abstração que existe apenas nas planilhas do governo. Ele está incorporado aos preços, à renda, ao consumo e às decisões econômicas das famílias e das empresas.

É justamente aí que o “Tesouraço” ganha uma dimensão que vai além da disputa eleitoral.

A carga tributária brasileira atingiu o maior nível da série histórica

A discussão não acontece no vácuo.

Segundo o Tesouro Nacional, a carga tributária bruta do governo geral atingiu 32,40% do PIB em 2025, acima dos 32,22% registrados em 2024 e no maior nível da série histórica iniciada em 2010. Em valores, foram aproximadamente R$ 4,13 trilhões arrecadados pelas três esferas de governo.

O número é importante porque ajuda a dimensionar aquilo que o jogo tenta representar de forma visual.

De cada R$ 100 produzidos na economia brasileira, aproximadamente R$ 32 correspondem à carga tributária bruta medida pelo indicador do Tesouro.

Isso não significa que cada brasileiro entregue literalmente 32% de sua renda ao governo. A carga tributária é uma relação entre a arrecadação total de tributos e o PIB e reúne diferentes impostos e contribuições pagos por famílias e empresas. Na realidade o percentual pode ser muito maior.

Mas o indicador revela o tamanho que a tributação alcançou dentro da economia.

E, em 2025, esse peso atingiu o maior patamar da série do Tesouro.

O ponto que o game consegue mostrar melhor do que uma planilha

Há uma característica particularmente interessante na escolha dos elementos do jogo.

Quando aparecem impostos na tela, eles deixam de ser apenas uma sigla.

O jogador passa a enxergar o conceito como algo que pode ser eliminado ou reduzido.

É uma simplificação, naturalmente. A realidade tributária é muito mais complexa.

Mas a simplificação pode cumprir uma função importante: despertar a curiosidade.

Uma pessoa que nunca procurou saber quanto paga de imposto pode começar a perguntar:

Quanto imposto existe no preço do produto que compro?

Quanto pago quando abasteço o carro?

Quanto da minha conta de energia corresponde a tributos?

Quanto uma empresa precisa recolher antes que o dinheiro vire lucro?

Por que alguns países conseguem arrecadar de maneira diferente?

É nesse ponto que um jogo deixa de ser apenas entretenimento e pode funcionar como porta de entrada para a educação econômica.

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E não é uma conversa apenas para os jovens

A associação entre videogames e juventude é cada vez menos suficiente para descrever o público que consome esse tipo de entretenimento.

Games fazem parte do cotidiano de pessoas de diferentes faixas etárias e podem funcionar justamente porque não exigem conhecimento prévio de economia.

Não é necessário saber o que é resultado primário, curva de juros ou relação dívida/PIB para compreender a mensagem básica do “Tesouraço”.

A pessoa simplesmente joga.

E, ao jogar, entra em contato com uma discussão econômica.

Essa característica é importante porque educação econômica não deveria ser destinada apenas a quem já entende economia.

Ao contrário: quanto mais simples for a porta de entrada, maior pode ser o alcance da discussão.

O Brasil tem uma particularidade importante: o peso está especialmente no consumo

É aqui que os dados ajudam a aprofundar a mensagem do game.

A comparação internacional exige cuidado porque os sistemas tributários são diferentes entre os países. A própria Receita Federal alerta que diferenças metodológicas e de estrutura tributária podem alterar as comparações.

Mas existe uma característica brasileira que merece atenção.

Segundo a Receita Federal, na comparação internacional disponível, o Brasil apresenta uma tributação relativamente elevada sobre bens e serviços, enquanto fica abaixo da média da OCDE em bases como renda, folha de salários e propriedade.

O próprio Tesouro mostra a dimensão dessa estrutura.

Em 2025, os impostos sobre bens e serviços representaram 13,78% do PIB, tornando-se o principal componente individual da carga tributária brasileira. Impostos sobre renda, lucros e ganhos de capital corresponderam a 9,16% do PIB.

Essa característica ajuda a explicar por que o debate tributário chega diretamente ao cotidiano.

O brasileiro não encontra os impostos apenas quando recebe o salário ou apresenta uma declaração ao Fisco.

Ele encontra a tributação quando compra comida, abastece o carro, paga uma conta, contrata um serviço ou adquire um produto.

É justamente esse caráter cotidiano que torna a educação tributária tão importante.

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O “Tesouraço” simplifica — e essa é justamente a sua força

Naturalmente, nenhum videogame consegue reproduzir a complexidade do sistema tributário brasileiro.

Não é esse o papel de uma ferramenta como essa.

O sistema envolve União, estados e municípios, diferentes tributos, regimes especiais, créditos tributários, cumulatividade, desonerações e uma infinidade de regras.

Um game precisa fazer o contrário de uma aula tradicional:

reduzir a complexidade para que a pessoa queira começar a entender.

A força da iniciativa está justamente nessa tradução.

Em vez de apresentar uma tabela de centenas de bilhões de reais, apresenta objetos.

Em vez de falar durante minutos sobre desperdício, coloca algo na tela.

Em vez de pedir que o cidadão leia um relatório econômico, pede apenas que ele deslize o dedo.

A partir daí, a discussão pode continuar fora do jogo.

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O game também transforma uma bandeira econômica em uma linguagem própria

Há ainda uma estratégia de comunicação evidente.

O “Tesouraço” não é apenas uma proposta descrita em um discurso. Ele ganhou nome, identidade, personagens e uma mecânica própria.

O jogador pode escolher personagens inspirados em Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Alfredo Gaspar, Rogério Marinho e Daniella Marques.

A campanha transforma, dessa maneira, uma discussão econômica em uma experiência interativa.

Isso é relevante em uma eleição na qual os candidatos precisarão disputar atenção não apenas em entrevistas e debates, mas também nas redes sociais e em plataformas digitais.

Flávio também afirmou que pretende incentivar o mercado brasileiro de games e apoiar desenvolvedores e empreendedores do setor.

O verdadeiro mérito está em colocar economia no cotidiano

É possível discutir politicamente a proposta do “Tesouraço”, discordar dela ou questionar quais impostos deveriam ser reduzidos.

Mas existe uma questão anterior a todas essas discussões:

o cidadão precisa entender o problema para poder formar uma opinião sobre a solução.

Nesse sentido, transformar impostos em elementos de um jogo pode ter um efeito interessante.

A pessoa não precisa concordar com Flávio Bolsonaro para entender o conceito.

Pode jogar e, depois, pesquisar.

Pode concordar que determinados impostos e gastos do governo são excessivos ou concluir que alguns gastos públicos são necessários.

Pode inclusive chegar a uma conclusão diferente da mensagem da campanha.

E isso é exatamente o que uma boa ferramenta de educação econômica deveria provocar:

curiosidade antes da opinião.

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Mais do que cortar impostos, o desafio é fazer o brasileiro enxergar quanto paga

O grande mérito do “Tesouraço” não está em resolver, em alguns minutos de videogame, um problema que levou décadas para ser construído.

Está em fazer algo muito mais simples — e potencialmente muito mais poderoso:

dar forma ao imposto.

Durante décadas, a discussão tributária brasileira foi dominada por siglas, números e documentos difíceis de compreender.

Agora, uma tesoura aparece na tela.

O imposto deixa de ser uma porcentagem distante e passa a ser um objeto que o jogador consegue enxergar.

E talvez essa seja uma das maneiras mais eficientes de iniciar uma conversa que o Brasil precisa ter:

quanto o Estado arrecada, de onde vem esse dinheiro, quanto custa para o cidadão e o que ele recebe em troca.

O jogo não responde sozinho a essas perguntas.

Nem deveria.

Mas pode fazer com que muito mais brasileiros finalmente tenham vontade de perguntar.

E, para a educação econômica, essa pode ser a fase mais importante do jogo.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Estrategista focada em proteger o investidor pessoa física dos conflitos de interesse dos grandes bancos e corretoras. Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado de Capitais. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia

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