Greve dos Correios expõe nova pressão sobre estatal que já acumula R$ 5,6 bilhões de prejuízo

Paralisação por tempo indeterminado começa enquanto empresa busca mais R$ 7 bilhões em crédito, depois de contratar R$ 12 bilhões no ano passado e encerrar 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões

Os trabalhadores dos Correios entraram em greve por tempo indeterminado na noite de quinta-feira (10), após as negociações salariais terminarem sem acordo. A paralisação ocorre quando a estatal enfrenta uma deterioração financeira que ainda não foi revertida: o prejuízo chegou a R$ 5,55 bilhões no primeiro semestre de 2026, enquanto a empresa negocia um novo empréstimo de R$ 7 bilhões com garantia da União.

A dimensão do problema aparece quando os números são colocados em sequência: os Correios perderam R$ 8,5 bilhões em 2025, contrataram R$ 12 bilhões em financiamento para reestruturar a operação e, apenas nos seis primeiros meses deste ano, acumularam outros R$ 5,55 bilhões de prejuízo.

A nova greve adiciona pressão justamente sobre o processo de redução de custos que deveria melhorar as contas da empresa.

VEJA: Correios na gestão Lula pedem mais R$ 7 bilhões após prejuízo triplicar em um ano e plano já mobiliza R$ 25 bilhões de dinheiro dos brasileiros

O impasse que levou à greve

Segundo a Federação Interestadual dos Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadoras dos Correios (Findect), 35 sindicatos aprovaram a paralisação, iniciada às 22h de quinta-feira. No Acre, a votação estava prevista para esta sexta-feira.

A decisão ocorreu depois de sucessivas rodadas de negociação e tentativas de mediação pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST).

Além da questão salarial, um dos principais pontos de conflito é o plano de saúde dos empregados. A entidade sindical contesta mudanças na manutenção do benefício e afirma que elas podem elevar a participação dos trabalhadores no custeio da assistência médica.

Os Correios, por sua vez, afirmam ter apresentado proposta com reajuste equivalente a 100% do INPC sobre salários e benefícios e manutenção de 78 das 80 cláusulas do acordo coletivo.

O impasse, portanto, não acontece em uma empresa financeiramente saudável. Ele ocorre durante uma tentativa de reestruturação que já enfrenta dificuldades para produzir resultado.

ACESSE O CANAL EXCLUSIVO INVESTIDORES BRASIL

A conta que ainda não fechou

No primeiro semestre, os Correios registraram R$ 5,55 bilhões de prejuízo líquido, contra R$ 4,26 bilhões no mesmo período de 2025.

No segundo trimestre, o resultado negativo foi de R$ 2,39 bilhões. A redução em relação ao trimestre anterior não altera o dado mais relevante: em apenas seis meses, a estatal acumulou mais da metade do prejuízo registrado em todo o ano de 2025.

A receita também não acompanhou a necessidade de recuperação. No segundo trimestre, a receita líquida de vendas e serviços foi de R$ 4,01 bilhões, queda de 5,4% na comparação anual.

É esse quadro que ajuda a explicar por que a discussão sobre salários, benefícios e estrutura de custos deixou de ser apenas uma negociação trabalhista.

SAIBA: Transparência Internacional e mais 21 países acionam OCDE para que cobre do STF julgamento sobre provas da Odebrecht na operação Lava Jato anuladas por Toffoli

R$ 12 bilhões já não foram suficientes

A estatal recorreu ao mercado de crédito em 2025 para enfrentar a deterioração financeira. Contratou R$ 12 bilhões em financiamento, com garantia da União, dentro do plano de reestruturação.

A operação estava condicionada à adoção de medidas como fechamento de agências, revisão de despesas, mudanças na estrutura de pessoal e aperfeiçoamento da logística de entregas.

Parte dessas medidas foi interrompida em julho diante da ameaça de greve.

Agora, os Correios negociam uma nova operação de aproximadamente R$ 7 bilhões com instituições financeiras. A proposta foi encaminhada para análise do Ministério da Fazenda, que precisa avaliar a capacidade de pagamento da estatal antes da concessão da garantia federal.

É aqui que a greve ganha outra dimensão: a empresa tenta reduzir custos e, ao mesmo tempo, precisa administrar uma nova paralisação enquanto busca mais crédito para sustentar a operação.

VEJA MAIS:Governo Lula injeta R$ 7 bilhões para segurar preço dos combustíveis às vésperas da eleição e leva desoneração até depois do primeiro turno

O risco que fica com os brasileiros através da União

O ponto menos evidente na discussão sobre a greve está na forma como o problema financeiro vem sendo financiado.

Os R$ 12 bilhões contratados anteriormente tiveram garantia da União. A nova operação de R$ 7 bilhões também depende de garantia federal.

Isso significa que a recuperação dos Correios não envolve apenas o balanço da estatal. Quanto maior a dependência de crédito garantido pelo governo, maior a exposição indireta do setor público ao risco financeiro da empresa.

A pressão também aparece no Orçamento. A proposta orçamentária para 2027 prevê R$ 6 bilhões para os Correios, enquanto a companhia negocia a nova operação de crédito.

Assim, o problema deixou de ser apenas quanto a estatal consegue faturar ou cortar de despesas. A questão passou a envolver quanto dinheiro público será necessário para manter uma empresa que continua apresentando prejuízos bilionários.

AINDA: Estadão diz que Gonet é “suspeitíssimo” precisa ser afastado e cobra impedimento do PGR no caso Moraes e ação do STF

A contradição central

A greve ocorre no momento em que os Correios precisam executar justamente o movimento contrário: reduzir despesas, reorganizar a operação e recuperar capacidade financeira.

Não há, portanto, um único problema.

A estatal precisa recuperar receita em um mercado cada vez mais competitivo, reduzir custos, administrar o endividamento contratado, convencer credores de sua capacidade de pagamento e executar um plano de reestruturação. Ao mesmo tempo, enfrenta resistência dos empregados às mudanças e agora uma greve por tempo indeterminado.

O resultado é uma equação que permanece aberta: os Correios já receberam uma injeção de crédito de R$ 12 bilhões, acumulam R$ 5,55 bilhões de prejuízo apenas em 2026 e voltam ao mercado em busca de outros R$ 7 bilhões.

A paralisação não criou essa crise. Ela expõe o tamanho do problema no momento em que a estatal mais precisa de uma recuperação operacional e financeira.

MAIS INFORMAÇÃO: Fiesp e mais de 3.000 entidades cobram sessão pública do STF para solução do escândalo enquanto governo atua para manter Andrei no comando da…

Resumo executivo

  • R$ 5,55 bilhões: prejuízo dos Correios no 1º semestre de 2026.
  • R$ 8,5 bilhões: prejuízo registrado em 2025.
  • R$ 12 bilhões: financiamento contratado em 2025.
  • R$ 7 bilhões: novo empréstimo em negociação.
  • R$ 6 bilhões: valor previsto do dinheiro público para os Correios no Orçamento de 2027.
  • Greve: por tempo indeterminado, iniciada na noite de 10 de setembro.

Acesso exclusivo e gratuito para inscritos

Análises mais aprofundadas sobre o que acontece em períodos eleitorais e como isso afeta a circulação de informação e o ambiente institucional.

  • Leitura crítica de decisões e fatos relevantes
  • Contexto explicado de forma simples
  • Conteúdos fora da distribuição pública do portal
Quero acesso gratuito
Eloisa Shoes
Eloisa Shoes
Apresentadora de podcast e redatora. Especialista em finanças pela PUC Minas

ÚLTIMAS

Mais Lidas

- Advertisement -

relacionados

- Advertisement -