Grupo Dia tem prejuízo de R$ 166 milhões em CDB do LetsBank do Grupo Master e acende alerta sobre risco de crédito

O Grupo Dia de supermercados reconheceu um prejuízo de R$ 166 milhões relacionado a aplicações em CDBs emitidos pelo LetsBank, evidenciando um tipo de risco que costuma ficar fora do foco do investidor de varejo: a exposição corporativa a crédito privado de instituições financeiras de menor porte.

Em relatório referente à fiscalização das atividades da rede no mês de janeiro, o administrador judicial da companhia explicou que aguarda, desde a liquidação do Letsbank em novembro, uma publicação com a lista de credores do conglomerado Master.

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A divulgação dessa lista é aguardada pelo Dia porque pode indicar qual será o desfecho de um acordo firmado em outubro com o banco para o pagamento de uma dívida avaliada, naquela ocasião, em R$ 163,3 milhões.

Pelo acordo assinado um mês antes da liquidação do Master, o Dia receberia R$ 116,6 milhões referentes a cessão de crédito de um precatório do Letsbank e outros R$ 50 milhões que seriam pagos em dez parcelas (o primeiro pagamento seria realizado em fevereiro).

No relatório para o mês passado, os administradores judiciais apontavam que o dinheiro era importante para a operação do Dia porque poderia gerar fôlego de liquidez no caixa da companhia para obrigações de curto prazo.

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O impacto contábil foi reconhecido nas demonstrações financeiras da companhia e está ligado a dificuldades enfrentadas pelo LetsBank, instituição financeira que entrou em processo de liquidação. O caso amplia o debate sobre gestão de caixa corporativo, governança financeira e critérios de alocação em instrumentos de renda fixa privada.

O que aconteceu com os CDBs do LetsBank do Master

O Dia mantinha recursos aplicados em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do LetsBank — instrumento tradicionalmente utilizado por empresas para rentabilização de caixa de curto e médio prazo. Com a deterioração da instituição financeira, os valores aplicados tornaram-se de recuperação incerta, exigindo reconhecimento contábil de perda.

O montante de R$ 166 milhões representa uma baixa relevante dentro da estrutura financeira da companhia, especialmente considerando o histórico recente do grupo no Brasil, marcado por reestruturações operacionais, fechamento de lojas e desalavancagem.

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Apesar disso, em virtude das incertezas sobre os efeitos da liquidação, o Dia Brasil reconheceu em suas demonstrações contábeis a perda de R$ 116,6 milhões referentes aos precatórios cedidos e R$ 50 milhões referentes ao saldo que seria recebido em 10 parcelas”, escreveu a Expertisemais, empresa que faz os relatórios da recuperação judicial do Dia.

O relatório mais recente também não menciona os problemas financeiros enfrentados pelo empresário Nelson Tanure, controlador principal da rede.

Desde que foi alvo da 2ª fase da operação Compliance Zero, no mês passado, Tanure perdeu boa parte de ações detidas na Light, Ligga Telecomunicações e Alliança Saúde com credores (principalmente bancos) executando dívidas em que suas ações eram dadas como garantia. Recentemente, ele vendeu sua participação na petroleira Prio para pagar dívidas, segundo a Bloomberg.

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A mecânica do risco: por que um CDB pode gerar perda para empresas

Para o investidor pessoa física, CDBs contam com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) até os limites estabelecidos (R$ 250 mil por CPF e por instituição, com teto global).

Empresas, no entanto, operam com volumes muito superiores aos limites do FGC. Em aplicações corporativas de grande porte, a proteção prática é limitada ou inexistente.

Na prática, quando uma companhia aplica dezenas ou centenas de milhões em CDBs de uma única instituição:

A exposição se torna concentrada.

O risco deixa de ser de mercado (variação de taxa) e passa a ser de crédito (inadimplência da instituição emissora).

A recuperação depende do processo de liquidação e da hierarquia de credores.

Esse tipo de evento evidencia a importância de políticas rígidas de:

Diversificação bancária

Limites por instituição

Rating mínimo exigido

Gestão ativa de risco de contraparte

Impacto contábil e leitura para o investidor

O reconhecimento do prejuízo não implica, necessariamente, saída imediata de caixa — trata-se de um ajuste contábil refletindo perda estimada. Contudo, o impacto pode afetar:

Resultado líquido

Patrimônio líquido

Indicadores de alavancagem

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Percepção de risco pelo mercado

Em empresas já pressionadas operacionalmente, eventos não recorrentes como esse ampliam a volatilidade dos números e reforçam a necessidade de análise qualitativa da governança financeira.

O que o caso revela sobre governança e gestão de tesouraria

O episódio levanta questionamentos importantes:

Havia política formal de limite por banco?

O rating da instituição era compatível com o volume aplicado?

Houve concentração excessiva em um único emissor?

A alocação buscava yield acima do mercado?

Empresas com maior maturidade financeira operam com comitês de crédito interno, limites por instituição e critérios claros de risco-retorno para aplicações de caixa. Quando falhas ocorrem, o custo pode superar, com folga, o ganho incremental de taxa obtido.

Risco sistêmico ou evento isolado?

Até o momento, o caso é tratado como evento específico relacionado ao LetsBank. Contudo, ele reacende atenção para o segmento de instituições financeiras de menor porte, especialmente em ambiente de crédito restritivo e maior custo de captação.

Para o investidor, o alerta é duplo:

Empresas também assumem risco financeiro fora do core business.

Nem toda renda fixa é sinônimo de risco baixo.

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Lucas Lopes Lopes
Lucas Lopes Lopes
Jornalista cubro editorias de economia há 10 anos. Especializado em criptoativos e-mail: [email protected]
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