O jornal O Estado de S. Paulo publicou um editorial neste sábado 13, afirmando que o Supremo Tribunal Federal (STF) atravessa um processo de desgaste de sua imagem no exterior após decisões recentes de tribunais europeus que negaram pedidos formulados pelas autoridades brasileiras em casos de forte repercussão política.
Segundo o editorial, a negativa da Justiça italiana em autorizar a extradição da ex-deputada Carla Zambelli e a rejeição da entrega do jornalista Oswaldo Eustáquio por autoridades judiciais da Espanha representam mais do que derrotas processuais isoladas. Na avaliação do periódico, as decisões refletem preocupações crescentes de magistrados estrangeiros em relação ao respeito às garantias fundamentais e ao devido processo legal em procedimentos conduzidos no Brasil.
Estadão fala em desmoralização internacional do STF
Em editorial publicado nesta semana, o jornal O Estado de S. Paulo afirmou que o Supremo Tribunal Federal vive um processo de “desmoralização internacional” após sucessivas decisões de tribunais europeus que rejeitaram pedidos formulados por autoridades brasileiras.
Segundo o jornal, a negativa da extradição de Carla Zambelli pela Justiça italiana e a recusa da Espanha em entregar o jornalista Oswaldo Eustáquio representam sinais de que magistrados estrangeiros passaram a enxergar com desconfiança determinados procedimentos conduzidos pelo Supremo.
O editorial sustenta que as decisões não podem ser tratadas como episódios isolados, mas como evidências de um desgaste crescente da imagem da Corte brasileira perante sistemas judiciais de democracias consolidadas.
Na avaliação do Estadão, as decisões europeias colocam em xeque a narrativa segundo a qual as críticas ao STF seriam restritas a grupos políticos domésticos ou a adversários do tribunal.
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O que disseram as cortes europeias
Os dois episódios possuem características distintas, mas convergem em um ponto central: os tribunais responsáveis analisaram não apenas os pedidos de cooperação internacional, mas também as condições jurídicas sob as quais os investigados ou condenados foram processados.
No caso italiano, magistrados teriam apontado dúvidas relacionadas à imparcialidade objetiva do julgamento e à concentração de atribuições processuais em uma mesma autoridade judicial.
Já na Espanha, o entendimento da Justiça local caminhou no sentido de que os fatos atribuídos a Eustáquio apresentariam elementos relacionados ao exercício de liberdade de expressão e manifestação política, circunstância que dificultaria a concessão da extradição.
Independentemente das divergências sobre o mérito de cada caso, o fato relevante é que cortes de países democráticos e integrantes da União Europeia passaram a examinar criticamente procedimentos originados no sistema judicial brasileiro.
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Editorial associa desgaste externo à atuação de Moraes
Embora o editorial trate formalmente do STF, a crítica se concentra nos procedimentos conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes nos últimos anos.
O Estadão argumenta que tribunais estrangeiros passaram a demonstrar desconforto com modelos processuais nos quais o mesmo magistrado concentra funções de investigação, decretação de medidas cautelares, supervisão processual e julgamento.
Para o jornal, a repetição de questionamentos vindos de cortes estrangeiras indica que o debate sobre garantias fundamentais deixou de ser uma controvérsia exclusivamente brasileira.
Segundo o editorial, quando tribunais de países democráticos começam a apontar preocupações semelhantes sobre devido processo legal e imparcialidade objetiva, o problema deixa de ser apenas político e passa a adquirir relevância institucional internacional.

Decisão italiana reforça críticas antigas de juristas e especialistas
A repercussão da decisão italiana chamou atenção porque diversos constitucionalistas brasileiros vêm levantando questionamentos semelhantes há anos.
Entre os pontos mais frequentemente citados estão a abertura de investigações de ofício pelo próprio Supremo, a concentração de competências em um único magistrado, a adoção de medidas cautelares amplas contra investigados e a limitação de mecanismos tradicionais de revisão judicial.
Essas críticas sempre foram rejeitadas por ministros da Corte e por defensores da atuação do STF, que argumentam que medidas excepcionais se tornaram necessárias diante de ataques sem precedentes às instituições democráticas.
Ainda assim, a decisão italiana ganhou relevância justamente por partir de uma corte estrangeira sem participação direta na polarização política brasileira, o que ampliou a repercussão do caso.
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Críticas ao STF não partem apenas da oposição
Um dos aspectos menos discutidos do debate é que as preocupações sobre a imagem do Judiciário não surgem apenas de setores oposicionistas.
Nos últimos anos, juristas, advogados, acadêmicos e até integrantes do próprio sistema de Justiça manifestaram preocupação com o aumento da polarização em torno do Supremo.
A própria ministra Cármen Lúcia reconheceu recentemente a existência de uma crise de confiança envolvendo instituições judiciais, classificando o fenômeno como um desafio relevante para as democracias contemporâneas.
A observação é importante porque demonstra que o debate sobre credibilidade institucional ultrapassa disputas partidárias e alcança setores tradicionalmente ligados à defesa das instituições.
O contraponto apresentado pelo STF
A Corte, por sua vez, sustenta que os ataques dirigidos ao Supremo fazem parte de uma estratégia mais ampla de enfraquecimento institucional.
O presidente do STF, Edson Fachin, afirmou recentemente que democracias constitucionais vêm enfrentando pressões internas e externas contra o Poder Judiciário e alertou para tentativas de constrangimento dirigidas a magistrados e tribunais. Segundo ele, a independência judicial é um requisito essencial para a proteção dos direitos fundamentais.
Sob essa ótica, decisões estrangeiras que questionam atos do Judiciário brasileiro também seriam influenciadas por disputas políticas internacionais e por campanhas destinadas a deslegitimar instituições nacionais.
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O impacto internacional para além da política
Para além das disputas ideológicas, o episódio produz um efeito institucional mais amplo.
A cooperação judicial internacional depende de confiança recíproca entre os sistemas jurídicos envolvidos. Quando tribunais estrangeiros passam a rejeitar pedidos formulados por autoridades brasileiras com base em dúvidas processuais, cria-se um precedente que pode influenciar futuras solicitações de extradição, compartilhamento de provas e execução de decisões judiciais.
Especialistas em relações internacionais costumam observar que a reputação institucional de um país não é formada apenas por indicadores econômicos ou estabilidade política. A percepção sobre independência judicial, previsibilidade jurídica e respeito ao devido processo legal também integra o conjunto de fatores analisados por governos, organismos multilaterais e investidores.
Nesse contexto, a preocupação levantada pelo Estadão transcende o caso de Zambelli ou Eustáquio. O debate passa a envolver a capacidade do Brasil de preservar a confiança internacional em suas instituições judiciais.
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Um alerta que vai além dos personagens envolvidos
O editorial conclui que o problema central não está nos nomes que protagonizam os casos recentes, mas na imagem projetada pelo sistema de Justiça brasileiro perante o exterior.
Ao terem pedidos rejeitados por cortes europeias sob argumentos relacionados a garantias processuais, autoridades brasileiras se deparam com um cenário incomum para uma democracia consolidada.
Se novos episódios semelhantes ocorrerem, o debate sobre os limites da atuação do STF deixará definitivamente de ser uma controvérsia doméstica para se transformar em uma questão de credibilidade internacional das instituições brasileira.



