Antes da prisão, Vorcaro do Banco Master já tinha acesso a informações sobre a investigação afirma PF

Relatório aponta acesso prévio a informações sobre diligências, contatos com funcionários do Banco Central e articulação de reunião horas antes da prisão; encontro usado para sustentar viagem de negócios passou a ser interpretado pela PF como parte da preparação diante de uma ação iminente

A nova documentação retirada do sigilo sobre o caso Banco Master muda o foco sobre a primeira prisão de Daniel Vorcaro. A questão não é mais apenas se o fundador do banco tentou deixar o Brasil horas antes da deflagração da Operação Compliance Zero. Segundo a Polícia Federal, os registros mostram uma sequência anterior: Vorcaro teria tido acesso prévio a informações sobre diligências investigativas, buscado dados sobre autoridades e procedimentos ligados ao caso e, nos dois dias anteriores à prisão, acelerado contatos e reuniões enquanto tentava entender a proximidade de pessoas com o juiz responsável pelas medidas contra ele.

Para a PF, a tentativa de embarque na noite de 17 de novembro de 2025 não pode ser analisada isoladamente. A corporação afirma ser “improvável” que a saída do país, às vésperas da operação, tenha sido uma coincidência. O ponto central do novo relatório é justamente a sequência de fatos que antecedeu o voo: mensagens urgentes, movimentação para marcar uma viagem, contatos com pessoas do Banco Central investigadas por supostamente atuar em favor dos interesses do Master e uma reunião realizada horas antes da prisão, encontro que posteriormente seria usado como argumento para sustentar que a viagem tinha finalidade empresarial.

VEJA MAIS: “Conseguiu bloquear ?”: CPMI liga mensagens de Vorcaro a número do STF e pressiona por afastamento de Moraes

O mesmo encontro apresentado como evidência de que Vorcaro estava envolvido em negociações para salvar o banco passou a ser interpretado pela PF como possível parte da estratégia construída depois que o banqueiro já teria percebido que uma ação policial se aproximava.

A PF, porém apresenta a cronologia que questiona se a viagem pode ser compreendida apenas por sua justificativa empresarial.

E, se a cronologia estiver correta, a discussão sobre a prisão ganha outra dimensão: Vorcaro não teria simplesmente decidido viajar e sido surpreendido por uma operação. A PF sustenta com base em documentos de seus celulares que ele já se movimentava com conhecimento prévio de que diligências estavam em curso.

Vorcaro agia com informação privilegiada

A prisão de Vorcaro ocorreu no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando ele se preparava para embarcar em um jato particular com destino final aos Emirados Árabes Unidos. A primeira fase da Operação Compliance Zero seria deflagrada na manhã seguinte.

A PF afirma que Vorcaro já havia tido “acesso prévio a informações relacionadas à realização de diligências investigativas” e feito anotações e comunicações sobre autoridades e procedimentos ligados às apurações.

A PF já havia registrado, em representação apresentada ao Supremo Tribunal Federal em fevereiro, que Vorcaro teve “acesso prévio a informações relacionadas à realização de diligências investigativas” e fez anotações e comunicações sobre autoridades e procedimentos ligados às apurações.

O ministro André Mendonça relator do caso retirou na quinta-feira o sigilo da PET (Petição) 15.556 e de outros 14 procedimentos relacionados ao caso Master. A medida atendeu a pedido do presidente do Supremo, Edson Fachin. Após o escândalo de mensagens entre Moraes, Paulo Gonet e até sobre o diretor da PF Andrei Rodrigues, aparecerem no celular de Vorcaro.

ACESSO AO GRUPO VIP INVESTIDORES BRASIL

LEITURA SUGERIDA: “Acha que segunda já tenho que estar fora do Brasil?”: mensagens de Vorcaro colocam Moraes da Suprema Corte no centro do escândalo Master

Dois dias antes, a busca por informações sobre o juiz do caso

Em 16 de novembro, dois dias antes da deflagração da operação, Vorcaro registrou uma anotação questionando se determinada pessoa tinha proximidade com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável pelas medidas relacionadas ao caso.

No dia seguinte, a movimentação se intensificou.

Às 7h28, Vorcaro recebeu mensagens consideradas urgentes de seu advogado, Walfrido Warde. Pouco mais de uma hora depois, informou que marcaria um voo saindo de Congonhas.

Na mesma data, conversou com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem que seria publicada a respeito de um inquérito que tramitava sob sigilo na 10ª Vara Federal de Brasília. Depois da publicação, o link foi encaminhado ao advogado, que protocolou uma petição pedindo acesso à investigação e utilizou a própria reportagem como referência para a existência do procedimento.

A sequência é importante porque mostra duas frentes simultâneas: a tentativa de entender formalmente o que estava sendo investigado e a reorganização da movimentação pessoal e logística de Vorcaro.

MAIS INFORMAÇÃO: Banco Master bancou chefe da PF em Londres em meio a investigações — luxo, elite jurídica amplia zona cinzenta entre banco e poder

A reunião com o Banco Central é o ponto de maior contradição da história

O elemento mais relevante da cronologia talvez seja a reunião realizada em 17 de novembro.

A investigação destaca os contatos de Vorcaro com Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, funcionários do Banco Central que, segundo a PF, atuavam informalmente em favor dos interesses do Banco Master e teriam recebido vantagens indevidas, segundo documentos comprovam.

Segundo a PF, ambos mantinham interlocução com Vorcaro sobre temas relacionados às reuniões e aos documentos enviados ao Banco Central.

Naquele 17 de novembro, os dois consideraram “fundamental” que Vorcaro conversasse com o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino. A reunião foi marcada para o início da tarde.

A reunião com representantes do Banco Central foi posteriormente considerada na análise que levou à liberdade de Vorcaro em novembro de 2025. O encontro ajudou a sustentar a narrativa de que ele estava envolvido em negociações e tratativas empresariais antes da viagem.

Segundo a corporação, Vorcaro já estaria “ciente da futura e iminente atuação policial” e teria recorrido aos funcionários para viabilizar o encontro no dia anterior à operação.

De acordo com a PF, por meio de cúmplices em órgãos estratégicos, como servidores do Ministério Público da União, da polícia e do Banco Central, pelo menos desde meados de 2025 Vorcaro monitorava com lupa a investigação.

LEIA AINDA: Lula se cala enquanto chefe da PF Andrei Rodrigues é citado no caso Vorcaro: o escândalo que deixou de ser apenas de Moraes, envolve indicados do presidente que são mantidos na função

O que muda quando o investigado sabe antes

Uma operação sigilosa não depende apenas da decisão judicial que a autoriza.

Ela depende do controle da informação até o momento de seu cumprimento.

Se o investigado sabe antecipadamente que está prestes a ser alvo de uma diligência, toda a lógica da surpresa pode ser comprometida. Documentos podem ser reorganizados, aparelhos substituídos, pessoas avisadas, versões alinhadas e deslocamentos antecipados.

VEJA AINDA: Moraes, Vorcaro e diretor da PF com membros do governo Lula em degustação de Macallan em evento pago pelo Banco Master

Moraes, Vorcaro e Andrei degustaram Macallan juntos em Londres
Moraes, Vorcaro e Andrei degustaram Macallan juntos em Londres

O problema deixa de estar apenas no Banco Master

Uma conversa com o então advogado de Vorcaro, Walfrido Warde, é elucidativa para a PF chegar à conclusão de que o ex-dono do Master tinha informações privilegiadas e pensava concretamente em fugir.

Nos diálogos, datados de 17 de novembro de 2025, dia exato em que ele seria preso, Vorcaro cobra do defensor uma posição junto ao juiz Ricardo Leite e resume:“tô preocupado”. “A troca intensa de mensagens sobre deslocamento aéreo, mudança de “roteiro”, horários de voo e insistência por atualizações momentos antes da deflagração da operação indicam que Daniel Bueno Vorcaro preparava-se para fugir, já tendo plena ciência de que medidas seriam adotadas contra si. Esses elementos, combinados, caracterizam monitoramento indevido de autoridades, obstrução à Justiça e risco concreto de evasão”, completa a PF.

MAIS: Decisão de Fachin mantém Andrei Rodrigues no comando da PF após suspender decisão da maioria da Segunda Turma que afastou o citado em mensagens do Banco Master da corporação

O modus operandi do ex-dono do Master consistia em mapear agentes públicos envolvidos na investigação, levantar informações sobre Leite, que decretou sua prisão pela primeira vez, e vazar propositadamente a suposta venda do banco para simular uma justificativa que sustentasse sua saída do país. A versão de Vorcaro, que caiu por terra com o avanço das investigações, era a de que havia propostas no exterior para a compra do Master, o que justificaria as viagens que planejava para fora do Brasil.

O que o mercado não quer que você saiba

Chega de receber informação controlada?

Receba gratuitamente no seu e-mail aquilo que o mercado sabe mas não divulga.

  • ✓ Informação independente
  • ✓ O que as instituições financeiras não querem que o brasileiro saiba
  • ✓ Tome suas decisões sem depender de influenciadores pagos pelo mercado
  • ✓ Entenda quem ganha e quem perde em cada movimento, e porque
Publicidade
Publicidade
Lucy Costa
Lucy Costa
Jornalista especializada em finanças e estatística. Você gosta de meus conteúdos? Entre em contato; email: [email protected]
spot_img

Últimas

Publicidade

RELACIONADOS

PUBLICIDADE