Registros obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram visitas da lobista ao gabinete de Alexandre Padilha, à Liderança do Governo e a outros parlamentares entre 2022 e 2025; documentos não comprovam, por si só, reuniões nem eventual irregularidade
Registros oficiais revelam uma circulação política que ganhou novo peso
A amiga de Lulinha e lobista Roberta Luchsinger, investigada no contexto das apurações que envolvem o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, circulou por diferentes gabinetes e estruturas de liderança da Câmara dos Deputados entre o fim de 2022 e setembro de 2025.
Os registros oficiais, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e divulgados pela coluna de Andreza Matais, do Metrópoles, mostram visitas a seis destinos da Câmara, incluindo o gabinete de Alexandre Padilha (PT-SP), hoje ministro da Saúde, a Liderança do Governo na Casa e gabinetes de parlamentares de diferentes partidos.
A primeira entrada identificada ocorreu em 7 de dezembro de 2022, quando Padilha ainda era deputado federal. A última foi registrada em 3 de setembro de 2025, no gabinete do então deputado Otto Alencar Filho (PSD-BA), atual conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
A relevância da cronologia está no fato de que, ao longo desse intervalo, Roberta passou de uma figura com trânsito no ambiente político para uma personagem investigada em inquéritos relacionados às suas relações com Lulinha e o “Careca do INSS”.
A visita ao gabinete de Alexandre Padilha
O primeiro registro localizado pela reportagem ocorreu em 7 de dezembro de 2022, às 16h19.
Roberta entrou na Câmara indicando como destino o gabinete de Alexandre Padilha, então deputado pelo PT de São Paulo.
Por meio de sua assessoria, Padilha confirmou que o gabinete recebeu Roberta e afirmou que seus espaços parlamentares permanecem abertos para receber atores políticos, especialmente aqueles de seus Estados de origem.
Na ocasião, Roberta já possuía uma trajetória política. Em 2018, havia concorrido a uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo pelo PT e obtido 14.134 votos, sem conseguir se eleger.
O registro, portanto, documenta uma passagem pelo gabinete de Padilha. Não informa o conteúdo de eventual conversa nem permite concluir, isoladamente, que tenha havido qualquer tratativa irregular.
Liderança do Governo: visita de amiga de Lulinha no início do governo Lula
Pouco mais de um mês depois, em 24 de janeiro de 2023, Roberta aparece novamente nos registros.
Desta vez, o destino informado foi a Liderança do Governo na Câmara, então ocupada pelo deputado José Guimarães (PT-CE).
A visita ocorreu já no início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e coloca a circulação de Roberta dentro de uma estrutura diretamente vinculada à articulação política do Executivo no Congresso.
Mais uma vez, o documento registra o destino declarado na entrada, mas não revela quem efetivamente a recebeu ou o assunto tratado.
Essa diferença é essencial para a leitura dos documentos: registro de acesso não equivale automaticamente a reunião com o parlamentar indicado.
Passagens pelo Podemos e pelo gabinete de Fábio Macedo
Os registros também mostram que Roberta transitou por estruturas do Podemos.
Em 8 de fevereiro de 2023, ela esteve na Liderança do Podemos, período em que Fábio Macedo (Podemos-MA) ocupava a liderança da bancada.
Depois, aparecem registros de visitas ao gabinete de Macedo.
A documentação aponta passagens em 10 de maio e 4 de julho de 2023, de acordo com o levantamento divulgado pelo Metrópoles.
A sequência é relevante porque demonstra que a circulação de Roberta não se limitou a um único gabinete ou partido. Ao longo de 2023, os registros apontam sua presença em estruturas ligadas ao PT, ao governo e ao Podemos.
Um registro não confirmado pelo próprio deputado
Em 20 de abril de 2023, Roberta informou como destino o gabinete do deputado Florentino Neto (PT-PI).
O parlamentar, porém, afirmou que não se encontrou com ela naquela ocasião porque não estava no local.
O episódio demonstra por que os documentos precisam ser interpretados com cautela.
Eles comprovam que Roberta entrou na Câmara e informou determinado destino, mas não necessariamente que tenha ocorrido uma reunião com o parlamentar.
Essa ressalva também impede que a simples existência dos registros seja apresentada como prova de lobby irregular ou de participação dos deputados em qualquer esquema.
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A última visita ocorreu quando Roberta já estava no radar da CPMI do INSS
A última passagem registrada ocorreu em 3 de setembro de 2025, no gabinete de Otto Alencar Filho (PSD-BA).
Naquele momento, Roberta já aparecia no radar da CPMI do INSS por sua relação profissional com Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.
Otto afirmou conhecer Roberta desde o período em que exercia mandato na Câmara, mas disse não se recordar exatamente do assunto tratado na ocasião.
A visita aconteceu, portanto, em uma fase diferente daquela registrada em dezembro de 2022. Quase três anos depois do primeiro acesso identificado, Roberta continuava circulando pelo Congresso enquanto seu nome já começava a ganhar espaço nas investigações relacionadas ao escândalo dos descontos indevidos em benefícios previdenciários.
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Quem é Roberta Luchsinger no caso do INSS
A importância dos registros da Câmara aumentou depois que Roberta passou a ser investigada no contexto das relações entre Lulinha e o “Careca do INSS”.
Em depoimento à Polícia Federal em maio de 2026, Roberta admitiu ter apresentado Fábio Luís Lula da Silva a Antônio Carlos Camilo Antunes, mas afirmou que isso ocorreu em um contexto social e negou ter repassado dinheiro ao filho do presidente.
A investigação também apurou transferências feitas por empresas relacionadas a Antunes para uma empresa ligada a Roberta. Reportagens baseadas em documentos da investigação apontaram pagamentos que chegaram a R$ 1,5 milhão.
Roberta nega irregularidades e sustenta que os pagamentos estavam relacionados a atividades empresariais legítimas.
O contexto é importante, mas não deve ser confundido com o conteúdo dos registros da Câmara: não há, nos dados de acesso, comprovação de que qualquer uma das visitas estivesse relacionada às suspeitas investigadas pela Polícia Federal.
A cronologia que chama atenção
Organizados em sequência, os registros revelam uma trajetória de circulação institucional:
7 de dezembro de 2022 — gabinete de Alexandre Padilha.
24 de janeiro de 2023 — Liderança do Governo na Câmara.
8 de fevereiro de 2023 — Liderança do Podemos.
20 de abril de 2023 — gabinete de Florentino Neto.
10 de maio de 2023 — gabinete de Fábio Macedo.
4 de julho de 2023 — nova passagem pelo gabinete de Fábio Macedo.
3 de setembro de 2025 — gabinete de Otto Alencar Filho.
A sequência atravessa quase três anos e diferentes estruturas políticas do Congresso.
É justamente essa cronologia, e não uma visita isolada, que confere relevância jornalística ao levantamento.
O que os registros provam — e o que não provam
Os documentos oficiais permitem afirmar que Roberta entrou na Câmara e indicou determinados gabinetes ou estruturas como destino.
Eles não permitem afirmar, isoladamente, que:
- todos os parlamentares tenham se encontrado pessoalmente com ela;
- as reuniões tenham ocorrido nas datas registradas;
- o assunto tenha sido político;
- tenha havido pedido, negociação ou intermediação junto ao governo;
- qualquer parlamentar tenha cometido irregularidade;
- ou que as visitas tenham relação direta com o caso do INSS.
O caso de Florentino Neto é uma demonstração concreta dessa limitação: o destino aparece no registro, mas o deputado declarou não ter se encontrado com Roberta naquele momento.
Por isso, a documentação deve ser tratada como evidência da circulação institucional, e não como prova isolada de ilícito.
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Por que o novo levantamento importa
A força do levantamento está no cruzamento da cronologia política com a cronologia da investigação.
Roberta já circulava pelo Congresso em dezembro de 2022, passou pela Liderança do Governo no começo de 2023 e voltou a aparecer em gabinetes parlamentares nos anos seguintes.
Em paralelo, sua atuação empresarial e suas relações pessoais acabaram entrando no radar das autoridades por causa de sua proximidade com Lulinha e Antônio Carlos Camilo Antunes.
A Polícia Federal investiga justamente a natureza dessas relações e possíveis conexões de influência. Roberta, por sua vez, nega irregularidades e afirma que sua atuação era empresarial.
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O novo conjunto de registros não resolve essa questão. Mas amplia o mapa documental dos contatos institucionais da empresária.
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O que falta esclarecer
O ponto central agora é descobrir o conteúdo efetivo dessas interações.
Agendas oficiais, registros de reuniões, mensagens, contratos, movimentações financeiras e depoimentos podem ajudar a responder perguntas que os registros de portaria não conseguem solucionar:
Quem efetivamente recebeu Roberta?
Qual era o assunto tratado?
Havia uma demanda empresarial específica?
Ela atuava apenas como empresária ou também como intermediária de interesses de terceiros?
Algum dos contatos registrados tinha relação com as operações investigadas posteriormente?
Essas respostas dependem do avanço das investigações e do cruzamento dos diferentes bancos de dados disponíveis às autoridades.
O ponto central
O dado objetivo é que Roberta Luchsinger manteve circulação registrada em diferentes estruturas da Câmara dos Deputados entre dezembro de 2022 e setembro de 2025, incluindo o gabinete de Alexandre Padilha e a Liderança do Governo.
O contexto posterior transforma essa cronologia em uma informação relevante para compreender a rede de contatos da empresária.
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Mas há uma linha que o jornalismo precisa preservar: registro de entrada não é prova de crime.
O que os documentos fazem é acrescentar uma nova peça ao quebra-cabeça. A investigação agora precisa determinar se essa circulação representava apenas relações políticas e empresariais legítimas ou se, em algum momento, os contatos institucionais de Roberta fizeram parte de uma atuação de influência que ultrapassou os limites legais.
Até que isso seja esclarecido, a informação mais sólida é também a mais importante: a lobista investigada no caso que envolve Lulinha e o “Careca do INSS” tinha uma trajetória documentada de circulação pelo Congresso muito antes de seu nome ganhar centralidade nas investigações.



