Mensagens apreendidas pela PF mostram contratação de Francisco Feitosa, ex-senador do Republicanos e então cunhado de Gilmar Mendes, além de conversas sobre processos, MEC e cursos de medicina
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, contratou em 2024 o empresário e ex-senador Francisco Feitosa, conhecido como Chiquinho Feitosa, que à época era cunhado do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Mensagens apreendidas pela Polícia Federal mostram que os dois trataram de interesses relacionados a processos no STF, universidades privadas, cursos de medicina e assuntos do Ministério da Educação (MEC)de Lula.
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Segundo as conversas, Vorcaro negociou com Feitosa um contrato de R$ 500 mil mensais, com uma parcela adicional de R$ 800 mil no primeiro pagamento, por meio da Super Empreendimentos, empresa ligada ao grupo do ex-banqueiro e citada nas investigações da PF.
Os diálogos também mostram Feitosa participando da aproximação de Vorcaro com Gilmar. Em uma das mensagens, atribuída ao telefone de Feitosa, aparece a orientação: “Você tem que começar uma relação direta com ele! É importante para o futuro!”
O ministro nega ter conhecimento das tratativas entre o ex-cunhado e Vorcaro. Feitosa também nega ter sido contratado para aproximar o banqueiro de Gilmar.
Quem é Francisco Feitosa
Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, o Chiquinho Feitosa, é ex-senador pelo Ceará e ligado ao Republicanos. Ele é irmão de Guiomar Feitosa, ex-esposa de Gilmar Mendes, e, portanto, era cunhado do ministro no período em que ocorreram as conversas com Vorcaro.
A condição de Feitosa reúne três elementos relevantes para a reconstrução dos fatos: experiência política, vínculo familiar com um ministro do STF e contratação por uma empresa ligada a Vorcaro.
Foi nesse contexto que os dois passaram a manter contato frequente.
As conversas apreendidas pela PF abrangem pelo menos o período entre abril de 2024 e junho de 2025. Nelas aparecem referências a processos judiciais, agendas com autoridades e interesses de Vorcaro no setor educacional.
Francisco Feitosa, conhecido como Chiquinho Feitosa, é ex-senador e presidente estadual do Republicanos no Ceará. Filiado ao partido desde dezembro de 2022, Feitosa assumiu o comando da legenda no Estado. O Republicanos é o partido do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (PB).
R$ 500 mil por mês e R$ 800 mil no primeiro pagamento
Em setembro de 2024, as mensagens indicam a negociação de um contrato de R$ 500 mil mensais para Feitosa, com previsão de R$ 800 mil adicionais no primeiro pagamento. O contrato foi firmado com a Super Empreendimentos, e não diretamente com o Banco Master.
Feitosa confirmou que assinou contrato com a empresa, mas afirmou que a consultoria ocorreu por um “curto período” e que a Super Empreendimentos atuava em diferentes segmentos.
Ele negou, porém, ter sido contratado para fazer a aproximação entre Vorcaro e Gilmar.
A negativa é relevante porque as próprias mensagens reveladas na investigação mostram Feitosa orientando Vorcaro sobre a necessidade de estabelecer contato direto com o ministro.
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“É importante para o futuro”
Uma das mensagens mais relevantes da apuração aparece em abril de 2024.
Durante uma conversa sobre a aproximação com Gilmar Mendes, o interlocutor atribuído a Feitosa escreveu a Vorcaro:
“Você tem que começar uma relação direta com ele! É importante para o futuro!”
A mensagem foi enviada no contexto de uma orientação para que Vorcaro estabelecesse contato com Gilmar.
Pouco depois, em 11 de abril de 2024, Vorcaro se reuniu com o ministro no STF. O encontro foi confirmado pelo próprio Gilmar e ocorreu no gabinete do magistrado, com a presença de advogados do Banco Master.
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A reunião no STF envolvia uma causa bilionária
A reunião de abril de 2024 estava relacionada a uma disputa envolvendo empresas do setor sucroalcooleiro, indenizações e créditos adquiridos pelo Banco Master.
Segundo a apuração publicada pela Folha, Vorcaro buscava apoio para uma tese que poderia beneficiar diretamente o banco em uma disputa de grande dimensão financeira.
Há, contudo, um dado importante no desfecho: Gilmar Mendes acabou votando contra a tese defendida por Vorcaro.
Portanto, a existência da reunião e da interlocução de Feitosa não constitui, por si só, prova de favorecimento judicial ao Banco Master.
As conversas também chegaram ao MEC e aos cursos de medicina
A relação entre Vorcaro e Feitosa não ficou restrita ao processo relacionado ao setor sucroalcooleiro.
As mensagens mostram referências a universidades privadas, cursos de medicina e atividades no Ministério da Educação. O período coincide com a atuação de Gilmar Mendes em processos no STF relacionados à abertura de novos cursos de medicina.
Em uma das conversas, aparece a mensagem:
“MEC: Andando na velocidade esperada.”
Os diálogos também registram referências a agendas de Feitosa com o então ministro da Educação, Camilo Santana, além de assuntos relacionados a instituições privadas de ensino.
Em outro momento, Feitosa encaminhou a Vorcaro um documento do MEC identificado como “padrão decisório cursos de medicina”. A reportagem ressalva que o documento estava disponível publicamente no site do ministério.
Feitosa afirmou que seu trabalho não envolvia interesses de Vorcaro junto ao MEC ou a Camilo Santana.
Camilo Santana, indicado por Lula também negou ter recebido pedidos de Vorcaro por intermédio de Feitosa e afirmou que não atuaria contra princípios da administração pública.
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O que Gilmar Mendes diz
Após a divulgação das mensagens, o gabinete de Gilmar Mendes afirmou que o ministro não tinha conhecimento das tratativas entre Feitosa e Vorcaro.
Em nota, afirmou:
“O Ministro não teve conhecimento de qualquer tratativa entre ele e Daniel Vorcaro, não foi por ele procurado sobre os assuntos mencionados e não responde por relações privadas ou profissionais de ex-parente.”
Gilmar também negou ter tratado com Vorcaro ou Feitosa de assuntos relacionados ao MEC.
Sobre a reunião de 11 de abril de 2024, o ministro confirmou o encontro institucional com Vorcaro e advogados do Banco Master.
Um segundo elo: R$ 33 milhões para ex-diretora do IDP
As mensagens envolvendo Feitosa surgem no mesmo momento em que a PF encontrou outro conjunto de documentos relacionados aos pagamentos feitos pelo Banco Master a escritórios de advocacia.
Uma auditoria interna do Banco Regional de Brasília (BRB) sobre a operação com o Master, localizada posteriormente pela PF, registrou R$ 33 milhões pagos em 2024 ao escritório da advogada Dalide Barbosa Alves Corrêa.
Dalide foi diretora-geral do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP) de Gilmar Mendes durante sete anos. O instituto foi fundado por Gilmar Mendes. Ela também teve passagem profissional pelo STF. Gilmar e Dalide.
O dado que chamou a atenção dos investigadores está nas conversas internas dos próprios executivos do Master.
Ao determinar o pagamento ao escritório, o diretor financeiro Ângelo Ribeiro justificou a operação dizendo que se tratava de um:
“canal direto com o STF”.
A mensagem, entretanto, não identifica nenhum ministro nem explica o significado exato da expressão.
E há outro limite importante: segundo o Estadão, a PF ainda não realizou diligências sobre esse contrato e não produziu avaliação sobre a legalidade da prestação dos serviços. Também não foram encontradas, nessas conversas, menções a Gilmar Mendes ou a outro ministro do STF.
Dalide nega atuação no STF para o Master
A advogada nega que tenha atuado em favor do Banco Master no Supremo.
Em nota, sua assessoria afirmou:
“jamais atuou para o Master no STF nem procurou ministros da Corte para tratar de assuntos relativos ao banco”.
A defesa acrescentou que sua atuação ficou restrita a processos originalmente conduzidos para empresas que posteriormente venderam créditos ao Banco Master e que os trabalhos ocorreram “exclusivamente perante órgãos de primeira e segunda instâncias”.
A auditoria também encontrou R$ 40 milhões para escritório ligado a Moraes
O mesmo levantamento do BRB registra ainda R$ 40 milhões pagos em 2024 ao escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes.
A auditoria apontou também crescimento expressivo das despesas jurídicas do Banco Master: R$ 76 milhões em 2023 contra R$ 215 milhões em 2024.
São contratos distintos, com escritórios e pessoas diferentes. Os documentos, por si só, não estabelecem que os pagamentos tenham resultado em decisões judiciais favoráveis ao banco.
O que os dois episódios revelam
Os casos de Feitosa e Dalide são distintos, mas aparecem dentro do mesmo conjunto de documentos produzidos a partir da investigação sobre Daniel Vorcaro.
No primeiro, as mensagens mostram:
- R$ 500 mil mensais negociados com Francisco Feitosa;
- R$ 800 mil adicionais previstos no primeiro pagamento;
- Feitosa como ex-senador pelo Republicanos e então cunhado de Gilmar Mendes;
- conversas sobre processos no STF;
- referências ao MEC e a cursos de medicina;
- e a orientação para Vorcaro estabelecer uma relação direta com Gilmar.
No segundo, documentos da auditoria do BRB registram:
- R$ 33 milhões pagos ao escritório de Dalide Corrêa em 2024;
- a descrição da banca, em conversa interna do Master, como “canal direto com o STF”;
- e R$ 40 milhões pagos ao escritório de Viviane Barci de Moraes no mesmo ano.
Nenhum desses elementos, isoladamente, comprova favorecimento judicial. Mas os documentos acrescentam novas informações à reconstrução das relações financeiras, profissionais e institucionais mantidas pelo Banco Master e por Daniel Vorcaro.
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O que ninguém comenta
O ponto central das novas mensagens não é apenas que Vorcaro se reuniu com um ministro do STF.
O material mostra que, antes do encontro, o banqueiro mantinha uma relação profissional de R$ 500 mil mensais com uma pessoa que, naquele momento, reunia experiência política e vínculo familiar com o ministro.
E as conversas não tratavam exclusivamente de assuntos privados. Elas mencionavam processos no Supremo, MEC, universidades privadas e cursos de medicina.
Em paralelo, documentos da auditoria do BRB localizados pela PF mostram outro pagamento milionário do Master a uma advogada que havia sido diretora do IDP, instituição fundada por Gilmar, enquanto executivos do banco a descreviam internamente como “canal direto com o STF”.
A documentação disponível até agora não permite avançar além desses fatos. Mas é justamente a combinação de contratos, valores, mensagens e relações institucionais que torna esses elementos relevantes para a investigação do caso Master.
Contrapontos
Gilmar Mendes: nega ter conhecimento das tratativas entre Feitosa e Vorcaro e afirma não ter tratado com eles de assuntos relacionados ao MEC.
Francisco Feitosa: confirma o contrato com a Super Empreendimentos, mas diz que a consultoria ocorreu por curto período e nega ter sido contratado para aproximar Vorcaro de Gilmar.
Camilo Santana: nega ter recebido pedidos de Vorcaro por intermédio de Feitosa.
Dalide Corrêa: nega ter atuado para o Master no STF ou procurado ministros da Corte em assuntos relacionados ao banco.








