Fotografia foi extraída do celular do banqueiro e enviada por advogado do Banco Master; encontro ocorreu em evento patrocinado pelo banco, que gastou cerca de R$ 60 milhões em três eventos internacionais com autoridades em 2024
A Polícia Federal encontrou no celular de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, uma fotografia em que ele aparece ao lado do procurador-geral da República, Paulo Gonet, em Londres, durante um evento com charutos e uísque. A imagem, registrada em abril de 2024, foi enviada a Vorcaro em junho de 2025 pelo advogado Ciro Soares, então ligado ao Banco Master, acompanhada da mensagem “PG me mandou”. A Procuradoria-Geral da República confirmou a autenticidade da fotografia.
O novo registro ganha relevância porque não aparece isoladamente. O material apreendido pela PF também reúne mensagens que apontam Ciro Soares como interlocutor entre Vorcaro e Gonet, além de conversas sobre eventos organizados pelo banqueiro. Ao mesmo tempo, documentos revelados anteriormente mostram que o Master desembolsou aproximadamente R$ 60 milhões em três eventos internacionais de 2024 frequentados por autoridades dos principais órgãos da República.
A fotografia, portanto, acrescenta uma peça documental a uma relação que já vinha sendo examinada pela PF e pelo Ministério Público.
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A foto: Gonet ao lado de Vorcaro com uísque e charutos em Londres
Segundo a PF, a fotografia foi enviada a Vorcaro em 19 de junho de 2025 pelo advogado Ciro Soares.
A mensagem que acompanhava a imagem dizia:
“PG me mandou”
As iniciais foram interpretadas como referência a Paulo Gonet.
A PGR confirmou a autenticidade da fotografia. Segundo a apuração divulgada pelo Poder360, Gonet afirma que a imagem foi registrada em abril de 2024, durante o evento realizado em Londres.
Na fotografia, Vorcaro e Gonet aparecem sentados juntos. Há outros dois homens na mesa, copos utilizados para uísque e Gonet aparece fumando um charuto.
A imagem teria sido feita no contexto do 1º Fórum Jurídico – Brasil de Ideias, realizado em Londres entre 24 e 26 de abril de 2024 e patrocinado pelo Banco Master. O mesmo período incluiu uma degustação de Macallan no George Club.
O Banco Master pagou o evento e valores de autoridades
Esse é um dos elementos que não pode ser separado da fotografia.
Documentos reunidos pela PF e analisados pela Folha mostram que Daniel Vorcaro acompanhou pessoalmente o desembolso de cerca de US$ 11,5 milhões, aproximadamente R$ 60 milhões, para três eventos internacionais em 2024.
Os eventos ocorreram em:
- Londres, em abril;
- Nova York, em maio;
- Lisboa, em junho.
As despesas incluíram jatinhos, hospedagens, shows, bebidas, degustações, restaurantes e outras experiências de alto padrão.
O evento de Londres foi o mais caro, com aproximadamente US$ 7,5 milhões, equivalentes a cerca de R$ 38,7 milhões na cotação utilizada pela reportagem da Folha.
Não eram apenas encontros empresariais.
Entre os participantes estavam autoridades do STF, PGR, Polícia Federal, Senado e Cade, entre outras instituições.
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No George Club, a conta passou de R$ 3 milhões
Dentro da programação de Londres houve uma degustação de uísque Macallan no George Club.
Segundo documentos encaminhados pela PF à CPMI do INSS, a experiência custou US$ 640.831,88, aproximadamente R$ 3,2 milhões pelo câmbio de abril de 2024.
O evento reuniu cerca de 40 pessoas e contou com autoridades e convidados.
É nesse contexto que aparece a fotografia de Gonet ao lado de Vorcaro.
A imagem não prova, por si só, qualquer irregularidade.
Mas documenta algo que passou a ser relevante para a investigação: o PGR e o banqueiro estiveram juntos em um ambiente social organizado dentro de uma programação financiada pelo próprio banco que posteriormente se tornou alvo de uma grande investigação criminal.


O advogado do Master aparece como intermediário
O material apreendido pela PF acrescenta outro elemento.
Em março de 2025, Ciro Soares enviou a Vorcaro uma fotografia em que aparecia ao lado de Gonet e escreveu:
“Liga aqui. Ele quer falar com vc”.
A sequência de mensagens e ligações foi registrada pela PF como indício de que Soares funcionava como interlocutor entre o ex-banqueiro e o procurador-geral.
Em outra conversa, Soares atribuiu a Gonet mensagens de caráter pessoal, incluindo referência a saudade e a charuto e Macallan. A PF registrou o conteúdo no material investigativo.
Aqui há uma distinção necessária: a fotografia teve sua autenticidade confirmada pela PGR; já a autoria das mensagens atribuídas a Gonet por Ciro Soares é uma questão distinta e deve ser apresentada como consta no material da PF.
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O filho de Gonet e evento em 2025
As conversas também registram um episódio posterior.
Segundo o material divulgado pela imprensa, Ciro Soares informou a Vorcaro que Gonet havia perguntado se seu filho poderia viajar com o grupo para um fórum em Londres.
Vorcaro respondeu:
“Óbvio né”.
Posteriormente, uma relação de convidados que poderiam viajar “com despesas pagas por nós” incluiu Pedro Gonet e Ciro Soares, segundo documentos analisados pela PF. O evento de 2025, contudo, não ocorreu.
O episódio é posterior à fotografia de 2024 e, portanto, não deve ser confundido com ela.
Mas demonstra que os contatos envolvendo Vorcaro, Ciro Soares e Gonet continuaram a aparecer nas comunicações apreendidas pela PF.
Por que Vorcaro gastava milhões com autoridades?
Essa é uma das perguntas centrais que emergem dos documentos.
O Banco Master não era um patrocinador sem interesses econômicos perante o Estado.
Era uma instituição financeira submetida à regulação e fiscalização pública e que, em 2025, tentou ser adquirida pelo Banco de Brasília (BRB).
A operação tornou-se um dos pontos centrais da crise que posteriormente atingiu o conglomerado Master e se espalhou pela economia brasileira.
Por isso, os gastos milionários com eventos frequentados por autoridades precisam ser analisados em conjunto com os interesses econômicos do banco e os vínculos identificados pela investigação.
A documentação não permite concluir que a participação de uma autoridade em um evento tenha produzido uma decisão favorável ao Master.
Mas permite estabelecer um fato objetivo: o banco gastou dezenas de milhões de reais para organizar uma agenda internacional na qual autoridades brasileiras participaram de eventos institucionais e sociais.
A agenda pública e a vida privada se misturaram
A própria documentação revelada pela imprensa mostra que os eventos reuniam diferentes ambientes.
Havia painéis e fóruns jurídicos, mas em áreas reservadas e exclusivas degustações de uísque, charutos, restaurantes, shows, jatinhos e encontros sociais.
A Folha relatou ainda outros vínculos entre o entorno de Vorcaro e participantes dos eventos, incluindo relações empresariais e profissionais envolvendo familiares de autoridades.
As instituições e pessoas citadas apresentaram justificativas diferentes para sua participação, mas nada de retorno público para o Brasil foi mostrado. A PGR afirmou que Gonet participou como palestrante, dentro da programação do fórum. A PF afirmou que seu diretor-geral, Andrei Rodrigues, indicado por Lula, e citado por Vorcaro em mensagens, cumpria agendas oficiais, mas não disse quais e nem tão pouco o retorno aos brasileiros. O Cade informou que sua participação estava relacionada às atribuições institucionais do órgão, mas também não deixou claro o benefício de sua participação ao Brasil.
O ponto jornalístico é outro: o patrocinador era uma instituição financeira com interesses concretos perante o poder público, enquanto os convidados incluíam autoridades capazes de tomar ou influenciar decisões com impacto sobre esses interesses.
O que aconteceu com o Banco Master depois?
O desfecho financeiro torna a dimensão dos eventos ainda mais relevante.
As liquidações do conglomerado Master levaram o FGC a provisionar R$ 40,6 bilhões ao final de 2025 para pagamento de garantias.
Considerando as liquidações ocorridas posteriormente, o FGC estimou R$ 51,7 bilhões em pagamentos de garantias.
O impacto combinado das liquidações e das operações de assistência chegou a aproximadamente R$ 57,4 bilhões nas reservas do fundo.
Esses números não significam que os gastos com eventos tenham causado o rombo ou os pagamentos do FGC.
A relação é outra.
O mesmo banco que gastava dezenas de milhões de reais em eventos de alto padrão terminou no centro de uma crise que exigiu dezenas de bilhões de reais do sistema de garantia de depósitos.
Essa dimensão financeira é parte indispensável do contexto.
MAIS:
O nome do procurador da República entrou no próprio caso Vorcaro
A questão institucional ganhou outra dimensão depois que o nome de Gonet apareceu no material produzido pela PF.
Em 15 de setembro, durante sessão do STF, o procurador-geral afirmou que havia encontrado Vorcaro apenas uma vez, em Londres, em abril de 2024, junto com outras autoridades.
Também reconheceu uma ligação intermediada por advogado, mas classificou a conversa como “brevíssima e banal”.
Gonet contestou a atuação do ministro André Mendonça e pediu o arquivamento das investigações relacionadas a ele, sustentando que o ministro não teria competência para determinar a produção do documento.
O Conselho Superior do Ministério Público Federal tem procedimento relacionado ao caso com análise prevista para 25 de setembro. Mendonça afirmou que não identificou provas robustas contra Gonet
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O que diz a lei sobre suspeição e impedimento
A questão não é apenas política ou reputacional.
A Lei Complementar nº 75/1993, que rege o Ministério Público da União, determina no artigo 236 que seus membros devem declarar-se suspeitos ou impedidos, nos termos da lei.
O mesmo dispositivo exige que o integrante do MPU exerça suas funções com zelo e probidade e mantenha decoro pessoal.
O artigo 238 estabelece que os impedimentos e suspeições dos membros do Ministério Público são aqueles previstos em lei.
O Código de Ética do Ministério Público brasileiro, instituído pela Resolução CNMP nº 261/2023, também estabelece parâmetros de objetividade, transparência, integridade pessoal e funcional, prudência e decoro.
Oque significa que a existência de relações pessoais, benefícios, contatos ou vínculos com alguém diretamente envolvido em uma investigação pode produzir uma questão institucional que deve ser examinada pelas instâncias competentes.
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O ponto que não pode ser esquecido
A discussão não é sobre uma fotografia de duas pessoas em uma festa.
A fotografia é apenas a evidência visual mais recente de uma relação que já aparece em mensagens e documentos apreendidos pela Polícia Federal.
O contexto é um banco que destinou cerca de R$ 60 milhões a três eventos internacionais, nos quais circularam autoridades de diferentes áreas do Estado, e que posteriormente terminou sob investigação, com uma conta estimada em R$ 51,7 bilhões em garantias do FGC, dinheiro indiretamente pago pelos brasileiros.
No caso específico de Gonet, o ponto institucional é ainda mais sensível porque o procurador-geral indicado por Lula, aparece no material da investigação e posteriormente passou a contestar a atuação do ministro que determinou a apuração.
É justamente nesse ponto que entram as regras sobre suspeição, impedimento, integridade e decoro previstas para membros do Ministério Público.








