Registro de agosto de 2025 mostra ministro e Viviane Barci desembarcando de um Legacy 650; mensagens apreendidas pela Polícia Federal apontam negociação de R$ 50 milhões envolvendo cotas de aeronaves para o escritório da advogada
Um vídeo divulgado neste domingo (20) mostra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, desembarcando de um jato executivo ligado a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
O registro é de 22 de agosto de 2025 e envolve um Legacy 650, prefixo PP-NLR, operado pela Prime Aviation, empresa de compartilhamento de aeronaves da qual Vorcaro foi sócio. O episódio entra em choque com uma declaração feita pelo gabinete de Moraes em março, quando o ministro afirmou que “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro”.
A contradição ganha peso adicional porque mensagens e documentos encontrados pela Polícia Federal mostram que, meses antes, Vorcaro havia negociado com o escritório de Viviane um contrato de R$ 50 milhões, cuja estrutura previa o pagamento de parte dos honorários por meio de cotas relacionadas a aeronaves.
O que as mensagens da PF mostram
Segundo documentos analisados pela PF, a negociação começou em maio de 2025 e previa R$ 40 milhões em honorários mediante ativos relacionados a um Legacy 650 e a um helicóptero Airbus EC 155 B1. Outros R$ 10 milhões seriam destinados ao reembolso de despesas com voos.
As mensagens indicam que a negociação avançou além de uma simples conversa preliminar.
Em um diálogo de maio, ao discutir quando os ativos deveriam ser transferidos, Vorcaro afirmou que “os ativos são deles já”, em referência ao escritório de Viviane Barci.
Em julho, outra conversa tratou diretamente da utilização das aeronaves. Marcus Vinicius da Mata, ligado à Prime You, perguntou a Viviane se os beneficiários estavam gostando da “utilização das cotas de vocês”.
Viviane respondeu que estavam “gostando muito” e agradeceu pelo atendimento.
A sequência é relevante porque conecta negociação de cotas, autorização de uso e utilização efetiva das aeronaves.
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O voo do Legacy 650
O avião que aparece no vídeo tem o prefixo PP-NLR, o mesmo Legacy 650 citado nos documentos relacionados à negociação.
Segundo mensagens obtidas pela PF, na véspera do voo, Vorcaro conversou com uma pessoa identificada como responsável pelo agenciamento de viagens e recebeu informação sobre a programação da aeronave.
A mensagem encaminhada dizia:
“Temos o voo da Barci no PP-NLR, decolando do Catarina às 13:00.”
Na sequência, Vorcaro respondeu:
“Não deixe de atender Barci.”
No dia seguinte, 22 de agosto de 2025, o vídeo registra Alexandre de Moraes e Viviane Barci desembarcando da aeronave no Rio de Janeiro.
A declaração de Moraes
A sequência contrasta diretamente com a manifestação divulgada pelo gabinete de Moraes em 31 de março de 2026, depois de reportagens sobre os voos do casal.
A nota afirmou:
“O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia.”
A declaração também dizia que Moraes não conhecia Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.
Naquele momento, levantamento da Folha de S.Paulo havia identificado ao menos oito voos de Moraes e Viviane em aeronaves ligadas a empresas de Vorcaro entre maio e outubro de 2025, considerando os trajetos com origem no Aeroporto de Brasília. O Estadão posteriormente confirmou o levantamento.
Agora, além dos registros documentais, existe o vídeo de um desses deslocamentos.
O que o escritório de Viviane diz
Após a divulgação das imagens, o escritório Barci de Moraes confirmou que utiliza serviços de táxi aéreo da Prime Aviation e reconheceu que Alexandre de Moraes acompanhou Viviane em determinados voos.
A banca afirmou, porém, que Daniel Vorcaro não estava presente nessas viagens e que a contratação seguia critérios operacionais.
Também negou ter adquirido cotas da Prime Aviation ou possuir contrato de prestação de serviços jurídicos com a empresa.
O escritório sustenta ainda que a proposta de R$ 50 milhões encontrada pela PF não foi assinada e que a negociação acabou extinta com a liquidação do Banco Master.
Essa ressalva é importante: os documentos mostram a negociação e referências ao uso das cotas, mas o escritório nega que tenha ocorrido a transferência formal dos ativos.
Onde estão os comprovantes?
Até o momento, o escritório Barci de Moraes não apresentou publicamente os comprovantes de pagamento dos voos que afirma terem sido contratados como táxi aéreo, nem documentos fiscais que permitam verificar como essas despesas foram registradas e declaradas à Receita Federal.
O ponto central da contradição
A questão factual não depende de afirmar que Vorcaro estava dentro do avião.
O próprio escritório reconhece que Viviane utilizou serviços da Prime Aviation e que Moraes a acompanhou em determinados voos. O vídeo registra o casal desembarcando do Legacy 650 PP-NLR.
Ao mesmo tempo, mensagens encontradas pela PF mostram Vorcaro tratando diretamente da utilização da aeronave pela “Barci” e determinando que o atendimento fosse mantido.
Isso coloca lado a lado quatro elementos documentados:
- Moraes afirmou que “jamais” havia viajado em avião de Vorcaro;
- o vídeo registra Moraes desembarcando do Legacy 650 PP-NLR;
- o escritório de sua mulher confirmou que ele a acompanhou em determinados voos da Prime Aviation;
- mensagens da PF mostram a negociação de R$ 50 milhões envolvendo cotas de aeronaves e conversas sobre sua utilização.
O escritório contesta que as cotas tenham sido efetivamente adquiridas, mas a existência da negociação e das mensagens consta do material analisado pela Polícia Federal.
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O que permanece sem explicação
A nova imagem não apenas reabre a discussão sobre os voos. Ela coloca em confronto uma declaração absoluta e registros posteriores que apontam para uma realidade diferente.
Em março, a afirmação foi de que Moraes “jamais” havia viajado em avião de Vorcaro. A palavra de Moraes vira inverdade diante de todos os fatos.
Em setembro, o vídeo mostra o ministro desembarcando de uma aeronave operada por uma empresa ligada ao empresário, enquanto documentos e mensagens da PF registram a negociação e a utilização de aeronaves pelo escritório de sua mulher.
Até a publicação desta matéria, o STF não havia apresentado uma nova manifestação específica de Moraes explicando a divergência entre a declaração anterior e as imagens divulgadas agora.








