Homem de confiança de Lula no Banco do Brasil e na Petrobras volta aos holofotes após operação da PF no Digimais negociado pelo BTG

Da ascensão nos governos petistas à nova investigação que abala o sistema financeiro

A operação da Polícia Federal que atingiu o Banco Digimais nesta terça-feira recolocou no centro do noticiário um personagem que há décadas circula nos principais corredores do poder em Brasília: Aldemir Bendine

Atual presidente do Digimais, Bendine não é um executivo qualquer do sistema financeiro. Sua trajetória está diretamente ligada aos governos do Partido dos Trabalhadores, período em que alcançou os postos mais estratégicos do setor bancário e empresarial brasileiro.

Funcionário de carreira do Banco do Brasil, Bendine foi escolhido pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para comandar a instituição em 2009, no auge da influência petista sobre a máquina federal. Anos depois, já no governo Dilma Rousseff, recebeu outra missão considerada estratégica: assumir a presidência da Petrobras em meio à maior crise reputacional da história da estatal.

Agora, mais de uma década depois de alcançar o topo do poder corporativo brasileiro, seu nome volta aos holofotes em razão da Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal para investigar suspeitas de fraudes financeiras, manipulação contábil e irregularidades regulatórias envolvendo o Banco Digimais.

Quem é Aldemir Bendine?

Aldemir Bendine ingressou no Banco do Brasil ainda jovem e construiu sua carreira dentro da instituição.

Sua ascensão ganhou velocidade durante os governos petistas.

Em 2009, Lula o nomeou presidente do Banco do Brasil, cargo que ocupou até 2015. Durante esse período, tornou-se um dos executivos mais influentes do sistema financeiro nacional, participando de decisões estratégicas relacionadas à expansão do crédito e à atuação dos bancos públicos na economia.

Na prática, Bendine transformou-se em um dos principais homens de confiança do governo petista na área financeira.

O reconhecimento político ficou evidente quando Dilma Rousseff decidiu transferi-lo para a presidência da Petrobras em fevereiro de 2015, em um momento crítico para a estatal.

A missão era tentar restaurar a credibilidade da companhia após as revelações da Operação Lava Jato.

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Da Petrobras à Lava Jato

A passagem de Bendine pela Petrobras, entretanto, acabaria se tornando um dos capítulos mais controversos de sua trajetória.

Em julho de 2017, ele foi preso na 42ª fase da Operação Lava Jato.

O Ministério Público Federal o acusou de receber vantagens indevidas relacionadas a contratos da Odebrecht.

Em 2018, Bendine foi condenado pelo então juiz Sergio Moro.

Em 2019 a 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), que julgou os processos da Operação Lava Jato na segunda instância, confirmou a condenação por corrupção do ex-presidente da Petrobrás e do Banco do Brasil, Aldemir Bendine. No processo em questão, a Odebrecht pagou a Bendine, então presidente da Petrobrás, propina de R$ 3 milhões. Em troca do recebimento da vantagem indevida, entre junho e julho de 2015, o réu agiu para favorecer a empreiteira em diversos pleitos.

Bendine solicitou o pagamento de propina ainda quando ocupava a presidência do Banco do Brasil, em decorrência de uma operação de crédito em favor da Odebrecht Agroindustrial. Contudo, os dirigentes da empresa só concordaram em pagar após ele assumir a presidência da Petrobrás.

No entanto, o tribunal não viu provas suficientes para a acusação de lavagem de dinheiro e reduziu a pena de Bendine de 11 anos para 7 anos e nove meses.

Contudo, quando o processo subiu para a última instância, em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou a condenação ao entender que houve irregularidade processual na ordem das alegações finais apresentadas pelos réus.

A decisão do STF anulou a sentença, mas não representou absolvição de mérito nem reconhecimento de inocência em relação às acusações originalmente formuladas.

Desde o início do caso, Bendine sempre negou ter praticado qualquer irregularidade.

Restrição imposta pelo Tribunal de Contas da União

Mesmo após a anulação da condenação na Lava Jato, Bendine continuou enfrentando problemas em órgãos de controle.

Dados do Tribunal de Contas da União mostram que ele permanece incluído no cadastro de pessoas inabilitadas para exercer cargo em comissão ou função de confiança na administração pública federal.

A penalidade transitou em julgado em junho de 2021 e, segundo os registros do próprio tribunal, permanece válida até junho de 2027.

O TCU também registra julgamento de contas consideradas irregulares, com trânsito em julgado em outubro de 2022.

Embora a medida não impeça sua atuação na iniciativa privada, a restrição representa um fator relevante para compreender o histórico recente do executivo.

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O que a Polícia Federal investiga no Digimais?

A Operação Miragem tem como foco suspeitas de que dirigentes e executivos ligados ao Digimais teriam utilizado mecanismos para ocultar a real situação financeira da instituição.

Segundo as investigações, há indícios de manipulação de informações contábeis, registros regulatórios e operações que poderiam ter transmitido ao mercado e aos órgãos supervisores uma percepção diferente da condição econômica efetiva do banco.

A investigação nasceu a partir de informações encaminhadas por órgãos de fiscalização financeira e poderá apurar eventuais crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.

Até o momento, a operação representa uma fase investigativa. Não há condenações relacionadas aos fatos apurados.

Digimais
Imagem: divulgação

A pergunta que o mercado faz: como uma operação da PF surge após o anúncio da compra pelo BTG?

Talvez o aspecto mais intrigante do caso Digimais não seja a operação da Polícia Federal em si, mas a cronologia dos acontecimentos.

Em abril de 2026, o BTG Pactual anunciou a assinatura do acordo para aquisição do controle do Digimais, negócio que ainda aguarda as aprovações definitivas dos órgãos reguladores, especialmente do Banco Central e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Em operações desse porte, é prática de mercado que o comprador realize extensos processos de auditoria, conhecidos como due diligence. O procedimento normalmente envolve análises financeiras, contábeis, jurídicas, regulatórias, fiscais e operacionais para identificar riscos capazes de afetar o valor do negócio ou até inviabilizar a transação.

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A deflagração da Operação Miragem poucos meses após o anúncio da aquisição levanta uma questão inevitável entre investidores e analistas: as irregularidades apontadas pela Polícia Federal e pelos órgãos de supervisão já eram conhecidas, identificáveis ou estavam refletidas nos processos de auditoria conduzidos antes da assinatura do acordo?

Até o momento, não existe qualquer informação pública indicando falhas do BTG Pactual ou conhecimento prévio da instituição sobre eventuais irregularidades investigadas pela PF. Da mesma forma, não há qualquer acusação contra o banco comprador.

Entretanto, a sequência dos acontecimentos chama atenção porque as suspeitas investigadas envolvem justamente temas que costumam receber atenção especial em processos de aquisição bancária: qualidade dos ativos, demonstrações financeiras, controles internos, governança corporativa e conformidade regulatória.

Outro ponto relevante é que parte das informações que deram origem à investigação teria surgido a partir de análises técnicas e comunicações realizadas por órgãos de fiscalização financeira. Isso levanta uma segunda questão observada pelo mercado: em que momento esses alertas chegaram às autoridades e quando passaram a integrar formalmente os procedimentos investigativos que culminaram na operação da Polícia Federal?

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BTG, BTG PACTUAL

As respostas para essas perguntas podem ser determinantes não apenas para o futuro do Digimais, mas também para a avaliação final da própria transação envolvendo o BTG.

Por enquanto, o negócio segue em análise pelos reguladores. Mas a operação da PF adiciona um elemento de incerteza que certamente será acompanhado de perto pelo Banco Central, pelo Cade, pelos investidores e pelos clientes das duas instituições.

Por que o caso chama tanta atenção?

A repercussão vai muito além do Digimais.

O motivo é simples: Aldemir Bendine ocupa uma posição singular na história recente do país.

Poucos executivos passaram simultaneamente pelo comando do Banco do Brasil, da Petrobras e posteriormente de uma instituição financeira privada relevante.

Mais raro ainda é encontrar alguém que tenha ocupado cargos tão estratégicos durante os governos petistas, tenha sido alcançado pela Lava Jato, enfrentado processos nos órgãos de controle e agora volte ao centro de uma investigação conduzida pela Polícia Federal.

Por isso, a Operação Miragem desperta interesse não apenas pelos possíveis impactos sobre o Digimais, mas também por recolocar em evidência uma figura que simboliza uma importante fase da relação entre política, bancos públicos, estatais e mercado financeiro no Brasil.

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O que observar daqui para frente

Os próximos meses deverão responder três questões centrais.

A primeira é se as suspeitas levantadas pela Polícia Federal serão confirmadas ou descartadas ao longo da investigação.

A segunda envolve os potenciais impactos para o Banco Digimais, especialmente em relação à confiança do mercado e dos clientes.

A terceira diz respeito ao próprio Aldemir Bendine.

Após ocupar posições de enorme influência nos governos Lula e Dilma, passar pela Petrobras durante a Lava Jato e enfrentar questionamentos dos órgãos de controle, o executivo volta a ter seu nome associado a uma investigação de grande repercussão nacional.

O desfecho desse novo capítulo poderá definir como a história lembrará um dos personagens mais emblemáticos da intersecção entre política, sistema financeiro e grandes empresas brasileiras nas últimas duas décadas.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Estrategista focada em proteger o investidor pessoa física dos conflitos de interesse dos grandes bancos e corretoras. Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado de Capitais. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia

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