Varejista quase triplica a perda líquida em um ano, enquanto EBITDA ajustado despenca 51,5%; números do semestre mostram que a recuperação operacional ainda não se converteu em geração de caixa
Varejista registra prejuízo de R$ 274 milhões, vê EBITDA ajustado despencar 51,5% e encerra o semestre com dívida líquida de cerca de R$ 1 bilhão; por outro lado, vendas em lojas maduras avançam e indicam que a operação começa a reagir
A Americanas (AMER3) enfrenta em 2026 o teste mais importante desde o início de sua reestruturação: provar que a recuperação da operação consegue chegar ao caixa. O balanço do segundo trimestre mostra um quadro contraditório. A varejista vende melhor em uma comparação sem o efeito distorcido do calendário da Páscoa, mas ainda apresenta prejuízo elevado, forte queda do EBITDA ajustado e consumo de caixa.
No 2T26, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 274 milhões, contra R$ 98 milhões no mesmo período de 2025, uma deterioração de 179,6%. A receita líquida somou R$ 3,3 bilhões, queda de 1,7%, enquanto o EBITDA ajustado recuou 51,5%, para R$ 145 milhões.
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O número que mais merece atenção, porém, está fora da manchete: a companhia consumiu cerca de R$ 400 milhões de caixa nas operações no primeiro semestre e voltou a apresentar dívida líquida de aproximadamente R$ 1 bilhão.
É aí que está o verdadeiro desafio de AMER3.
O balanço em números
| Indicador | 2T26 | 2T25 | Variação |
|---|---|---|---|
| Prejuízo líquido | R$ 274 milhões | R$ 98 milhões | +179,6% |
| Receita líquida | R$ 3,3 bilhões | R$ 3,36 bilhões | -1,7% |
| EBITDA ajustado | R$ 145 milhões | R$ 299 milhões | -51,5% |
| Vendas mesmas lojas | -0,6% | — | — |
No primeiro semestre, o prejuízo líquido acumulado chegou a R$ 603 milhões. A receita bruta alcançou R$ 7,2 bilhões, com alta de 5,2% na comparação anual.
À primeira vista, portanto, o balanço parece apontar para uma recuperação que perdeu força.
Mas essa leitura, isoladamente, seria incompleta.
A Páscoa mudou a fotografia do trimestre
Um dos fatores que prejudicaram a comparação trimestral foi o calendário.
Em 2026, a Páscoa ocorreu no início de abril, antecipando para o primeiro trimestre parte das vendas de chocolates que, no ano anterior, estavam concentradas no segundo trimestre. A própria companhia destaca que o efeito sazonal distorce a comparação entre os períodos.
Por isso, o desempenho do semestre oferece uma fotografia mais útil da operação.
As vendas em lojas abertas há mais de 12 meses cresceram 9,3% no primeiro semestre, enquanto a receita líquida avançou 7,8% em uma comparação ajustada pelo efeito da Páscoa.
Esse dado muda parte da interpretação.
A Americanas não está simplesmente perdendo vendas. O problema é que o crescimento comercial ainda não está se convertendo em rentabilidade e caixa na velocidade necessária.
A recuperação operacional existe — mas ainda é insuficiente
A administração da Americanas destaca uma melhora operacional de aproximadamente R$ 251 milhões no primeiro semestre. A evolução é relevante quando comparada ao período imediatamente posterior à crise.
O EBITDA ajustado, que mede o desempenho operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, mostra essa trajetória de recuperação ao longo dos últimos anos.
Mas existe uma diferença essencial entre melhorar o resultado operacional e gerar dinheiro.
É justamente nesse ponto que o balanço do 2T26 exige cautela.
Uma empresa pode reduzir prejuízos, aumentar vendas e melhorar seu EBITDA e, ainda assim, consumir caixa se o capital de giro, os juros, os arrendamentos ou outras obrigações financeiras pressionarem a geração de recursos.
No caso da Americanas, o caixa operacional consumido no semestre chegou a aproximadamente R$ 400 milhões, com impacto relevante dos juros associados aos arrendamentos.
Para uma companhia que passou por uma profunda reestruturação financeira, esse indicador tem peso especial.
Dívida líquida volta ao centro da discussão
Outro ponto que o investidor precisa observar é a mudança na posição financeira.
A dívida bruta da Americanas chegou a R$ 2,2 bilhões ao final do primeiro semestre. Com aproximadamente R$ 1,1 bilhão em disponibilidades, a companhia encerrou o período com dívida líquida próxima de R$ 1 bilhão.
A mudança é relevante porque a companhia havia encerrado 2025 com caixa líquido de R$ 488 milhões.
Isso não significa, por si só, que a recuperação tenha fracassado.
Significa que o processo ainda não chegou ao estágio em que a operação produz caixa suficiente para fortalecer naturalmente o balanço.
Esse é um dos principais indicadores para acompanhar nos próximos trimestres.
O que mudou desde a crise de 2023
A comparação precisa levar em conta a dimensão do problema que atingiu a Americanas.
Em janeiro de 2023, a companhia revelou inconsistências contábeis que levaram à identificação de um rombo bilionário e posteriormente desencadearam uma ampla reestruturação da empresa.
A própria companhia registra em seu histórico que documentos analisados indicaram que demonstrações financeiras anteriores haviam sido fraudadas pela administração anterior.
Desde então, a Americanas passou por recuperação judicial, mudanças de gestão, renegociação de passivos e uma profunda revisão de sua estrutura operacional e financeira.
Por isso, o parâmetro para avaliar AMER3 mudou.
Não basta mais perguntar se a Americanas consegue vender.
É necessário saber se ela consegue vender com margem, transformar margem em EBITDA, transformar EBITDA em caixa e usar esse caixa para reduzir a pressão financeira.
Essa é a cadeia que precisa funcionar.
O verdadeiro teste de AMER3
O segundo trimestre deixa uma situação bastante clara.
O que melhorou
- Vendas em lojas maduras cresceram 9,3% no semestre.
- A receita apresentou crescimento quando ajustada pelo efeito do calendário da Páscoa.
- A companhia reduziu substancialmente as perdas operacionais em relação aos anos mais críticos.
- A operação física continua sendo uma peça central da estratégia de recuperação.
O que piorou
- O prejuízo líquido quase triplicou no trimestre.
- O EBITDA ajustado caiu 51,5%.
- A companhia consumiu aproximadamente R$ 400 milhões de caixa operacional no semestre.
- A posição financeira passou de caixa líquido para dívida líquida próxima de R$ 1 bilhão.
O quadro, portanto, não é de uma recuperação interrompida, mas também está longe de representar uma recuperação concluída.
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Por que isso importa para o investidor
Para quem acompanha AMER3, o maior erro seria analisar apenas o prejuízo de R$ 274 milhões e concluir que nada mudou.
Também seria um erro oposto olhar para o crescimento das vendas e considerar que a crise ficou para trás.
Os dois indicadores são verdadeiros ao mesmo tempo.
A Americanas apresenta sinais de recuperação comercial, mas ainda precisa provar que essa recuperação é economicamente sustentável.
O indicador decisivo será a capacidade de converter crescimento de vendas em margem e geração recorrente de caixa.
Se isso acontecer, a melhora operacional poderá começar a produzir uma recuperação efetiva do balanço.
Se não acontecer, a empresa continuará dependente de uma combinação delicada de disciplina financeira, gestão de capital de giro e evolução operacional.
O que acompanhar nos próximos balanços
Para os próximos trimestres, cinco indicadores merecem atenção especial:
1. EBITDA ajustado: a queda de 51,5% no 2T26 precisa ser revertida para que a recuperação operacional ganhe consistência.
2. Geração de caixa operacional: é o principal teste da qualidade da recuperação.
3. Dívida líquida: a trajetória desse indicador mostrará se a empresa está efetivamente fortalecendo ou novamente pressionando o balanço.
4. Vendas mesmas lojas: o crescimento do semestre precisa continuar sem deterioração das margens.
5. Margem operacional: crescimento de receita sem rentabilidade suficiente não resolve o problema estrutural da companhia.
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Leitura Premium: recuperação sim, mas ainda sem prova definitiva
O balanço do segundo trimestre da Americanas entrega uma mensagem mais complexa do que o prejuízo de R$ 274 milhões sugere.
A operação está melhor do que nos anos mais críticos, mas o balanço financeiro ainda não permite declarar a recuperação concluída.
O avanço de 9,3% nas vendas de lojas maduras no semestre mostra que existe resposta comercial. O problema é que essa melhora ainda não aparece com a mesma força no EBITDA e, principalmente, no caixa.
Para o acionista, essa diferença é fundamental.
A próxima etapa da história de AMER3 não será definida apenas pelo crescimento das vendas ou pela redução das perdas operacionais.
Será definida pela capacidade de a Americanas transformar a recuperação comercial em geração recorrente de caixa e, a partir daí, reconstruir seu balanço.
Esse é o ponto que separa uma empresa que simplesmente sobreviveu à crise de uma companhia que efetivamente conseguiu reconstruir seu negócio.
Resumo executivo
Prejuízo no 2T26: R$ 274 milhões
Prejuízo no 2T25: R$ 98 milhões
Receita líquida: R$ 3,3 bilhões
EBITDA ajustado: R$ 145 milhões
Vendas mesmas lojas no trimestre: -0,6%
Vendas mesmas lojas no semestre: +9,3%
Prejuízo acumulado no semestre: R$ 603 milhões
Dívida bruta: R$ 2,2 bilhões
Dívida líquida: aproximadamente R$ 1 bilhão
Caixa consumido nas operações no semestre: aproximadamente R$ 400 milhões.
Veredito editorial: a Americanas mostra sinais reais de recuperação operacional, mas ainda precisa provar que consegue transformar crescimento em lucro e, principalmente, em caixa. Para AMER3, esse será o indicador mais importante dos próximos trimestres.
Investimentos envolvem risco de perda do patrimônio, aprenda a fazer suas próprias escolhas para preservar seu dinheiro. Conteúdo informativo não configura recomendação.



