Os dois papéis do Banco do Brasil com os Correios: cliente bilionário e credor — e o silêncio sobre a concorrência

O Banco estatal fechou contrato de R$ 2,3 bilhões sem licitação com estatal da qual também é credor. BB diz ter checado preços de mercado apenas na fatia não coberta pelo monopólio postal, mas não detalha o processo.

O Banco do Brasil (BBAS3) formalizou, em 26 de junho, um novo contrato com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) para a prestação de serviços postais em todo o país. O acordo, em vigor desde 2 de julho, tem prazo de 60 meses e pode movimentar até R$ 2,3 bilhões — sem que tenha havido processo de licitação ou cotação formal de preços com outros fornecedores.

O contrato chama atenção não apenas pelo valor, mas pela posição dupla do BB na relação com a estatal: o banco é, ao mesmo tempo, o cliente que paga bilhões pelos serviços postais e um dos credores que sustentam o caixa dos Correios. Em dezembro de 2025, a estatal tomou um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a um consórcio de cinco bancos — Banco do Brasil, Caixa, Bradesco, Itaú e Santander —, com garantia do Tesouro Nacional, para tentar equacionar uma crise financeira que se aprofunda a cada balanço.

O acordo substitui o contrato anterior, firmado em 2021 que ainda estava válido por um teto de R$ 2,17 bilhões, uma diferença de cerca de 6% atribuída pelo banco exclusivamente à correção inflacionária.

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A crise que sustenta o argumento do monopólio

A urgência dos Correios em fechar contratos como o do BB tem explicação nos números. A estatal encerrou 2025 com prejuízo recorde de R$ 8,5 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, o resultado negativo somou R$ 3,158 bilhões — alta de 83% sobre o prejuízo de R$ 1,725 bilhão registrado no mesmo período de 2025. Desde 2022, a companhia acumula balanços no vermelho.

É nesse cenário que o BB justifica a contratação direta, sem concorrência. Segundo o banco, a dispensa de licitação decorre da “inviabilidade de competição”: cerca de 97,84% das despesas do banco com postagens recaem sobre serviços que a lei reserva com exclusividade aos Correios — como o Franqueamento Autorizado de Cartas (FAC) e remessas de documentos. Em volume de objetos postados, essa fatia monopolizada chega a 99%, segundo documentos do próprio banco.

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A fatia que ninguém explicou até agora do contrato do Banco do Brasil

O ponto que distingue esta reportagem do noticiário já publicado sobre o contrato está na fração remanescente — pequena, mas não irrelevante, do ponto de vista financeiro. Para os serviços fora do monopólio legal, como o Sedex, o BB afirma ter realizado cotações prévias e concluído que os valores cobrados pelos Correios são compatíveis com os praticados no mercado privado. Segundo o banco, duas empresas apresentaram propostas nesse processo.

Não há, até o momento, divulgação pública de quais empresas foram consultadas, em que condições a cotação foi feita, nem se houve algum processo formal e documentado — ou se a checagem se limitou a uma consulta informal de preços. O banco também não detalha por que apenas duas empresas foram ouvidas em um mercado logístico que conta com operadores privados de porte nacional.

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O BB argumenta ainda que, mesmo fora do monopólio, nenhuma outra empresa reúne a capilaridade necessária para atender agências em municípios remotos — um argumento operacional, não necessariamente de preço, para justificar a manutenção dos Correios como fornecedor único também nessa fração do contrato.

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Cliente e credor: o conflito que o contrato não menciona

O comunicado do BB ao mercado não faz qualquer menção ao fato de o banco integrar, simultaneamente, o grupo de credores que garantiu a sobrevivência financeira recente dos Correios. A ausência dessa informação no anúncio contratual chama atenção porque a dupla posição — cliente cativo por força de lei e credor por decisão comercial — cria uma sobreposição de interesses que não costuma aparecer em contratos entre estatais.

Como cliente, o BB é obrigado por lei a contratar os Correios nos serviços monopolizados, e afirma ter verificado preços de mercado na fração livre do monopólio. Como credor, o banco tem interesse direto na saúde financeira da estatal — inclusive na capacidade dela de honrar o empréstimo de R$ 12 bilhões garantido pela União através do Tesouro Nacional. Um contrato bilionário e recorrente, como o que acaba de ser firmado, contribui diretamente para o fluxo de caixa que sustenta essa capacidade de pagamento.

O BB afirma que a decisão de contratação foi tomada “de forma independente”, sem participação dos Correios no processo, e destaca que passou por análises técnica e jurídica internas. O banco também ressalta que o contrato segue um modelo de adesão aplicado a todos os clientes da estatal, sem tratamento diferenciado — o que, segundo o BB, afasta qualquer tipo de benefício específico na negociação.

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Dúvidas e inconsistências

O que aconteceu com o 1% não-monopolizado? O banco informou que, para os serviços não monopolizados, duas empresas apresentaram propostas, o que teria corroborado a compatibilidade dos preços dos Correios com o mercado. Parece que nem para esta parcela que pode envolver milhões, houve licitação normal. Segundo o banco só duas empresas concorreram, não ficou claro se foi uma cotação de preços informal ou processo competitivo de verdade? Quais empresas? Documentos existem?

Divergência entre volume e despesa. Um grupo de fontes fala em 99% do volume; fala em 97,84% das despesas com postagem. São métricas diferentes e devido ao volume o número real pode esconder milhões (ex: Sedex é mais caro por unidade, então mesmo sendo 1% do volume pode representar fatia maior do gasto).

Contexto financeiro dos Correios como pano de fundo. A estatal registrou prejuízo de R$ 3,16 bilhões no primeiro trimestre de 2026, quase o dobro do resultado negativo de R$ 1,7 bilhão do mesmo período de 2025, e em dezembro de 2025 tomou empréstimo de R$ 12 bilhões junto a cinco bancos — entre eles o próprio BB, que também é credor da estatal. Isso levanta um ângulo extra: o BB é simultaneamente credor e cliente cativo dos Correios — vale explorar se há conflito de interesse ou pelo menos questionar a independência da decisão.

Contrato de adesão” sem particularização. O BB destaca que o modelo é o mesmo aplicado a todos os clientes da estatal —a dúvida que fica é: se esse modelo padronizado impede qualquer instituição pública de buscar preços melhores nos serviços não-monopolizados, mesmo quando isso seria vantajoso.

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O que ainda falta responder

Esta reportagem enviou uma lista de perguntas à assessoria de imprensa do Banco do Brasil sobre: os nomes das empresas consultadas na cotação da fatia não-monopolizada do contrato; a existência de documentação formal desse processo; e como o banco avalia sua posição simultânea como cliente e credor dos Correios diante da crise financeira da estatal. Porém a empresa não retornou até a publicação desta matéria, se houver resposta a matéria será atualizada.

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Lucy Costa
Lucy Costa
Jornalista especializada em finanças e estatística. Você gosta de meus conteúdos? Entre em contato; email: [email protected]
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