AtlasIntel mostra senador à frente do presidente no maior colégio eleitoral do país, mas o dado mais revelador está dentro da fotografia: Flávio dispara entre os eleitores de menor renda, enquanto Lula mantém vantagem entre os mais ricos
A disputa presidencial de 2026 ganhou uma fotografia particularmente relevante em São Paulo.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) aparece à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no maior colégio eleitoral do país, com 39,9% das intenções de voto contra 36% no principal cenário estimulado da pesquisa AtlasIntel divulgada nesta quinta-feira (3).
A diferença de 3,9 pontos percentuais supera a margem de erro de um ponto, indicando vantagem estatisticamente relevante de Flávio no recorte paulista. O levantamento ouviu 1.810 eleitores entre 26 e 31 de agosto, por recrutamento digital aleatório, com nível de confiança de 95%.
Mas reduzir a pesquisa a uma manchete sobre quem está na frente seria perder justamente a parte mais importante do levantamento.
O dado que chama atenção está na distribuição da preferência por renda.
A eleição que aparece em São Paulo não é uma simples repetição da polarização nacional
Flávio Bolsonaro não apenas lidera no agregado paulista. Ele apresenta uma vantagem extraordinária justamente entre as faixas de menor renda.
Entre eleitores com renda familiar de até R$ 2 mil, o ex-senador chega a 59,7%, enquanto Lula registra apenas 9,2%.
Na faixa seguinte, entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, Flávio permanece à frente, com 47,8%, contra 40,6% de Lula.
A fotografia começa a mudar conforme a renda sobe.
Entre os paulistas que recebem de R$ 5 mil a R$ 10 mil, Lula aparece com 45,5%, enquanto Flávio marca 44,6% — um cenário de empate técnico.
No grupo de renda mais elevada, acima de R$ 10 mil mensais, a inversão é radical: Lula alcança 44,6%, enquanto Flávio cai para 11,5%.
A fotografia por renda
| Renda familiar | Flávio Bolsonaro | Lula |
|---|---|---|
| Até R$ 2 mil | 59,7% | 9,2% |
| R$ 2 mil a R$ 3 mil | 47,8% | 40,6% |
| R$ 5 mil a R$ 10 mil | 44,6% | 45,5% |
| Acima de R$ 10 mil | 11,5% | 44,6% |
O resultado produz uma contradição eleitoral importante.
Em São Paulo, nesta fotografia da AtlasIntel, a maior força de Flávio está justamente na base de menor renda, enquanto Lula encontra seu melhor desempenho no topo da pirâmide.
É uma configuração que desafia explicações eleitorais automáticas baseadas apenas na associação histórica entre determinados partidos e determinadas classes sociais.
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Flávio lidera o estado, mas Lula ainda conserva um eleitorado decisivo
O placar geral — 39,9% a 36% — mostra uma disputa apertada no maior estado brasileiro.
Atrás dos dois líderes, o escritor Augusto Cury (Avante) aparece com 8,6%, seguido por Renan Santos (Missão), com 6,8%.
Muito abaixo estão Romeu Zema (Novo), com 1,6%, e Ronaldo Caiado (PSD), com 1,5%. Samara (UP) tem 0,9%; Hertz Dias (PSTU) e Wilson Grassi (Democrata), 0,8% cada; e Edmilson Costa (PCB), 0,3%. Clariana Barão (DC) e Rui Costa Pimenta (PCO) não pontuaram.
Brancos e nulos representam 0,6%, enquanto 2,2% não souberam responder.
A distância entre os dois principais candidatos, portanto, não significa uma eleição já definida em São Paulo. Significa que Flávio conseguiu transformar o estado em um território competitivo — e, nesta rodada, saiu na frente.
O outro dado que merece atenção: homens e mulheres estão em eleições diferentes
A pesquisa também mostra uma divisão importante por gênero.
Entre as mulheres, Lula lidera com 41,1%, contra 39,6% de Flávio.
Entre os homens, porém, ocorre uma abertura muito maior: Flávio alcança 40,1%, enquanto Lula fica em 30,4%.
Isso significa que a vantagem paulista do ex-senador não está distribuída de maneira uniforme.
Ela é especialmente forte entre homens e entre os eleitores das faixas de menor renda.
Lula, por sua vez, mantém uma posição mais competitiva entre mulheres e, sobretudo, entre os eleitores de maior renda.
É essa composição — e não apenas o número de 39,9% — que ajuda a entender por que a disputa paulista merece ser acompanhada separadamente da média nacional.
São Paulo começa a contar uma história diferente da pesquisa nacional
A diferença entre o cenário paulista e o nacional é particularmente importante.
No levantamento AtlasIntel/Bloomberg divulgado em 31 de agosto, Lula aparecia com 43,4% no primeiro turno nacional, contra 33,7% de Flávio. Em um eventual segundo turno, Lula tinha 47,1% contra 42,6% de Flávio.
Ou seja: o eleitor paulista está apresentando uma fotografia significativamente mais favorável a Flávio do que aquela observada no agregado nacional pela mesma casa de pesquisa.
Essa diferença é politicamente relevante porque São Paulo não é apenas um estado entre outros.
É o maior colégio eleitoral do Brasil, concentra uma parcela enorme do eleitorado e reúne regiões com estruturas econômicas, níveis de renda e comportamentos políticos extremamente diferentes.
Por isso, quando o estado muda de direção em relação à média nacional, o movimento não pode ser tratado como uma simples variação estatística.
O segundo turno deixa o cenário ainda mais interessante
A mesma pesquisa também testou um eventual segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula em São Paulo.
Nesse cenário, Flávio aparece com 46,8%, contra 43,3% de Lula.
A vantagem é de 3,5 pontos percentuais, novamente superior à margem de erro de um ponto.
Isso altera a leitura da pesquisa.
Não se trata apenas de Flávio conseguir reunir mais votos em uma disputa pulverizada de primeiro turno. O ex-senador também aparece à frente quando a eleição é reduzida à polarização direta contra Lula.
É justamente aí que São Paulo pode adquirir peso estratégico na eleição nacional.
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O que a pesquisa realmente está dizendo
A leitura mais superficial é:
Flávio Bolsonaro lidera Lula em São Paulo.
A leitura mais importante é outra:
o maior colégio eleitoral do país está apresentando uma configuração em que Flávio é extremamente forte entre os eleitores de menor renda, enquanto Lula encontra sua maior vantagem entre os paulistas de renda mais alta.
Isso não significa que essa estrutura permanecerá até a eleição. Pesquisa é fotografia, não resultado eleitoral.
Mas significa que existe um movimento que precisa ser explicado.
Se essa divisão por renda persistir, a campanha presidencial terá de lidar com uma questão que vai muito além da velha disputa entre direita e esquerda:
quem consegue construir uma coalizão eleitoral que atravesse renda, gênero e território sem perder sua base?
Em São Paulo, nesta pesquisa, Flávio parece ter encontrado uma combinação particularmente forte na base popular masculina.
Lula, por outro lado, mantém uma posição relevante entre mulheres e no eleitorado de maior renda.
E é exatamente nessa fronteira que pode estar uma das disputas mais importantes da eleição de 2026.
A conclusão que os números permitem — e a que ainda não permitem
Os números permitem afirmar que Flávio lidera Lula em São Paulo no primeiro turno e também aparece à frente em uma simulação de segundo turno.
Permitem também identificar uma clivagem de renda incomum: 59,7% para Flávio entre os eleitores com renda familiar de até R$ 2 mil, contra 11,5% entre aqueles com renda superior a R$ 10 mil.
O que os números ainda não permitem afirmar é que essa configuração seja uma tendência consolidada para outubro.
Mas existe algo que já pode ser dito:
São Paulo não está simplesmente repetindo a eleição nacional. Está produzindo uma dinâmica própria — e, se ela sobreviver às próximas pesquisas, poderá se transformar em um dos principais problemas estratégicos de Lula e em uma das maiores oportunidades de Flávio Bolsonaro na corrida pelo Palácio do Planalto.
Ficha técnica da pesquisa AtlasIntel
Instituto: AtlasIntel
Data de divulgação: 3 de setembro de 2026
Período de coleta: 26 a 31 de agosto de 2026
Amostra: 1.810 eleitores de São Paulo
Metodologia: recrutamento digital aleatório
Margem de erro: 1 ponto percentual para mais ou para menos
Nível de confiança: 95%
Registro no TSE: SP-06964/2026 e BR-02563/2026
Financiamento: recursos próprios da AtlasIntel
Por se tratar de pesquisa realizada por meio de recrutamento digital, os números devem ser interpretados dentro da metodologia adotada pelo instituto. O levantamento representa uma fotografia do momento em que as entrevistas foram realizadas, e não uma projeção do resultado eleitoral.


