Depois de R$ 12,2 bilhões em resgates líquidos no ano até julho e R$ 672 bilhões desde 2022 nos fundos, grandes gestoras começam a rever uma das estruturas de remuneração mais tradicionais da indústria; o problema, porém, não é apenas o preço — é provar que a gestão ativa ainda entrega alfa suficiente para justificar a cobrança
A indústria brasileira de fundos multimercados está começando a mexer em uma regra que durante anos pareceu praticamente intocável: o modelo de cobrança conhecido como “2 com 20”, no qual o investidor paga cerca de 2% ao ano de taxa de administração e 20% sobre o que o fundo conseguir entregar acima do benchmark, normalmente o CDI.
A mudança ganhou força justamente quando a categoria enfrenta uma crise de confiança.
No acumulado de janeiro a julho de 2026, os multimercados registraram R$ 12,2 bilhões de captação líquida negativa, segundo dados da ANBIMA. Apenas em julho, os resgates líquidos chegaram a R$ 5,6 bilhões, após R$ 11,2 bilhões em junho.
O problema é ainda maior quando se olha para o ciclo iniciado em 2022. Até o fim de 2025, os multimercados haviam acumulado aproximadamente R$ 672 bilhões em resgates, segundo dados da ANBIMA compilados por estudos sobre a categoria.
Não é apenas uma discussão sobre taxas.
É uma discussão sobre o valor econômico da gestão ativa.
E essa é a parte mais importante para o investidor.
O “2 com 20” deixou de ser uma regra automática
Durante o período em que os multimercados entregavam retornos consistentemente superiores ao CDI, a estrutura de cobrança era relativamente fácil de defender.
O investidor pagava uma taxa fixa para manter a estrutura de gestão e aceitava dividir parte do ganho extraordinário com o gestor caso a estratégia superasse o benchmark.
O problema aparece quando o fundo deixa de produzir esse ganho extraordinário.
Nesse cenário, a taxa de administração continua sendo cobrada.
É justamente aí que surge a pergunta que a indústria passou a ter dificuldade para responder:
por que pagar caro por gestão ativa se o resultado líquido não compensa o CDI que o investidor poderia obter por meio de alternativas mais simples?
A elevação estrutural do CDI tornou essa comparação ainda mais dura.
O multimercado passou a competir não apenas contra outros fundos.
Passou a competir contra o próprio benchmark.
SAIBA MAIS: Como investir do zero no Brasil: guia definitivo para iniciantes
XP troca receita fixa por uma fatia maior da performance
A XP Asset decidiu atacar diretamente essa questão.
O XP Strategy passou a trabalhar com uma estrutura de 1% de taxa de administração e 30% de performance sobre o que exceder o CDI, substituindo a referência tradicional de 2% mais 20%.
À primeira vista, parece simplesmente uma redução de custo.
Não é tão simples.
A gestora está reduzindo pela metade a taxa fixa, mas aumentando de 20% para 30% sua participação sobre a performance.
É uma troca de modelo de remuneração, não simplesmente um desconto.
A lógica econômica é clara: se o fundo não produzir resultado relevante, a receita fixa da gestora será menor; se produzir bastante alfa, a gestora poderá capturar uma parcela maior desse resultado.
Essa mudança aumenta a importância da performance para o próprio modelo de negócios.
E esse talvez seja o verdadeiro sinal enviado pela XP ao restante da indústria.
LEITURA SUGERIDA: Guia Completo do Tesouro IPCA+
O investidor precisa tomar cuidado com a palavra “mais barato”
Aqui está uma das armadilhas que a publicidade de fundos pode esconder.
1% + 30% não é necessariamente mais barato do que 2% + 20%.
Depende da rentabilidade produzida.
Segundo a análise citada na pauta, o ponto de equilíbrio entre as duas estruturas estaria em aproximadamente 9 pontos porcentuais acima do CDI.
Isso significa que o retorno produzido pelo fundo precisa ser suficientemente elevado para determinar qual estrutura é mais vantajosa para o cotista.
A matemática é simples em conceito:
taxa de administração menor não significa automaticamente custo total menor.
Se a performance for elevada, os 30% cobrados sobre o excedente podem representar uma participação relevante da gestora.
Se a performance for baixa, a redução da taxa fixa pode favorecer o cotista.
Por isso, comparar apenas a primeira linha da lâmina — “taxa de administração” — é insuficiente.
O investidor precisa olhar o conjunto.
O que realmente deve ser comparado
Antes de comparar dois multimercados, o investidor deveria colocar lado a lado pelo menos:
- taxa de administração;
- taxa de performance;
- benchmark;
- regra de cálculo da performance;
- retorno líquido;
- volatilidade;
- drawdown;
- índice de Sharpe;
- consistência de geração de alfa;
- liquidez;
- estratégia efetivamente utilizada;
- risco assumido para produzir o retorno.
A diferença entre retorno bruto e líquido é particularmente importante.
Um gestor pode produzir um bom retorno bruto e, ainda assim, entregar pouco valor adicional depois das taxas.
O investidor não recebe o retorno bruto da estratégia. Recebe o que sobra depois dos custos.
Kinea já havia iniciado a revisão
A XP não foi a primeira grande gestora a alterar sua estrutura.
A Kinea reduziu a taxa de administração do multimercado Chronos de 2% para 1,5% ao ano, mantendo 20% de performance sobre o que exceder o CDI. A estrutura atualmente divulgada para o fundo confirma 1,5% de administração e 20% de performance, com o CDI como benchmark.
A própria gestora apresentou uma simulação segundo a qual, caso a estrutura de 1,5% mais 20% tivesse sido aplicada desde junho de 2016, o retorno acumulado teria chegado a 174,2%, contra 161,5% no modelo anterior. No mesmo intervalo, o CDI teria acumulado 139,4%.
O dado é interessante porque mostra que a discussão sobre taxas não precisa ser tratada apenas como uma guerra entre gestora e cotista.
Uma estrutura de custos diferente pode alterar significativamente o resultado final mesmo quando a estratégia de investimento permanece essencialmente a mesma.
Mas existe uma ressalva importante: simulações históricas não garantem que a nova estrutura produzirá o mesmo efeito no futuro.
O verdadeiro concorrente dos multimercados é o CDI
Esse é um dos pontos mais importantes — e menos intuitivos — da crise.
O CDI é usado como benchmark por grande parte dos multimercados.
Mas, em um ambiente de juros elevados, ele também se transforma em uma alternativa extremamente competitiva para o investidor.
Isso coloca a gestão ativa diante de uma exigência maior.
Não basta entregar retorno positivo.
Não basta acompanhar o CDI.
O fundo precisa justificar:
risco + complexidade + custo + liquidez eventualmente inferior = retorno líquido superior.
Se essa equação não fechar, o investidor tem motivos econômicos para sair.
E foi exatamente isso que começou a acontecer em escala.
SAIBA MAIS: Novo imposto sobre dividendos arrecada R$ 3,1 bi, bem abaixo, e…
A indústria perdeu o monopólio da sofisticação
Durante muito tempo, o multimercado era apresentado como uma solução sofisticada para navegar por diferentes cenários.
O gestor poderia operar juros, Bolsa, câmbio, commodities e mercados internacionais.
Essa flexibilidade era uma das principais justificativas para a taxa elevada.
Mas sofisticação não é sinônimo de valor.
Uma estratégia pode operar dezenas de mercados e ainda assim não possuir vantagem competitiva clara em nenhum deles.
Esse é um dos problemas estruturais apontados por especialistas.
Com o crescimento dos fundos, algumas estratégias passaram a ampliar excessivamente o número de mercados e geografias em que atuavam.
O gestor que originalmente possuía uma especialidade passou a operar juros brasileiros, juros americanos, moedas, commodities, crédito e Bolsa internacional.
O problema é que escala pode aumentar patrimônio, mas não necessariamente aumenta alfa.
Quando todos fazem tudo, a diferenciação desaparece
Esse processo ajuda a explicar outro problema da indústria.
Se vários fundos utilizam estratégias semelhantes e se expõem aos mesmos fatores de risco, a promessa de descorrelação perde força.
O investidor compra cinco multimercados esperando cinco motores diferentes de retorno.
Mas, se todos possuem posições semelhantes, ele pode estar comprando cinco versões da mesma aposta.
Essa é uma situação especialmente perigosa para quem acredita estar diversificando apenas porque possui vários CNPJs diferentes na carteira.
Diversificar fundos não é necessariamente diversificar estratégias.
Esse ponto deveria receber muito mais atenção nas plataformas de investimentos.
O que a indústria precisa recuperar não é apenas captação
As gestoras obviamente precisam recuperar patrimônio.
Mais patrimônio significa mais receita, maior escala e maior capacidade de manter equipes e estruturas de investimento.
Mas existe uma condição anterior:
recuperar a confiança do investidor.
E confiança não se recupera simplesmente reduzindo a taxa de administração.
Ela volta quando o investidor percebe que:
- o gestor possui uma estratégia clara;
- existe uma vantagem competitiva identificável;
- o risco é controlado;
- o retorno é consistente;
- o custo é compatível com o valor entregue.
A mudança das taxas pode ajudar.
Mas não resolve os outros quatro problemas.
MAIS INFORMAÇÃO: Häagen-Dazs deixa o Brasil: a saída da General Mills expõe uma…
A taxa pode mudar sem que o produto melhore
Esse é outro alerta importante.
Uma gestora pode reduzir a taxa de administração e continuar entregando um produto ruim.
Pode também aumentar a taxa de performance e continuar sem gerar alfa.
Por isso, a pergunta correta não é:
“Qual fundo cobra menos?”
É:
“Qual gestor entrega algo que eu não consigo obter de forma mais barata e simples?”
Essa é uma pergunta muito mais difícil.
E é justamente a pergunta que a indústria precisa responder.
O novo modelo também cria riscos
A migração de parte maior da remuneração para performance parece, em princípio, alinhar melhor os interesses.
Mas o alinhamento não é perfeito.
Se a remuneração do gestor aumenta muito quando o retorno sobe, existe potencial para criar incentivos a assumir mais risco.
Por isso, não basta olhar a taxa de performance.
É preciso observar como o gestor chega ao resultado.
Um fundo que entrega retorno elevado assumindo volatilidade excessiva não necessariamente está gerando melhor valor.
O retorno precisa ser analisado em relação ao risco.
É aí que entram indicadores como volatilidade, drawdown e índice de Sharpe.
Performance sem risco contextualizado é apenas metade da informação.
O ponto que a indústria talvez não queira admitir
O debate sobre taxas ganhou força porque os investidores começaram a perceber uma coisa simples:
a gestão ativa precisa pagar por si mesma.
Se o fundo consegue produzir alfa consistente, uma taxa elevada pode ser economicamente justificável.
Se não consegue, o custo passa a ser uma parte importante do problema.
A popularização de ETFs e outras alternativas de baixo custo aumentou essa pressão.
O investidor passou a ter mais opções para obter exposição a mercados e fatores de risco sem necessariamente pagar pela mesma estrutura de gestão ativa.
Isso elevou a concorrência.
E o dinheiro começou a migrar.
Quem ganha com a mudança?
O investidor ganha — se houver concorrência real
A redução da taxa fixa é positiva quando efetivamente reduz o custo total da estratégia e não apenas muda sua composição.
A maior competição entre gestoras também pode obrigar a indústria a explicar melhor o que entrega.
Gestores diferenciados podem ganhar
Casas capazes de produzir alfa consistente podem se beneficiar de estruturas em que uma parcela maior da remuneração esteja vinculada ao resultado.
Se entregarem mais, recebem mais.
Gestores generalistas podem enfrentar maior pressão
Fundos que dependem de escala e de taxa de administração para sustentar a estrutura podem sofrer com a compressão das receitas.
Quanto menor a taxa fixa, maior a necessidade de eficiência operacional ou de geração de performance.
O investidor desatento pode continuar perdendo
O maior risco é acreditar que “1 com 30” significa automaticamente um fundo barato.
Não significa.
O que importa é quanto sobra para o cotista depois de todos os custos e considerando o risco assumido.
E quem perde?
A primeira perda potencial é da própria estrutura tradicional da indústria.
O “2 com 20” deixa de ser uma referência quase automática.
A segunda é das gestoras que não conseguem demonstrar diferenciação.
Se o investidor começa a perguntar por que precisa pagar 2% para uma estratégia que entrega aproximadamente o CDI, a resposta precisa ser convincente.
A terceira perda é de uma cultura de distribuição baseada mais na marca da gestora do que na capacidade efetiva de geração de alfa.
Nome conhecido não é sinônimo de performance.
E patrimônio elevado também não é sinônimo de eficiência.
VEJA: PF encontra plano para levar dinheiro ao exterior em investigação que aponta Lulinha…
A próxima batalha será pelo alfa
A mudança de cobrança pode ser apenas o começo.
A indústria terá de decidir se quer competir principalmente por:
preço, escala ou performance.
Competir apenas por preço pode transformar multimercados em uma indústria de margens comprimidas.
Competir apenas por escala pode reproduzir o problema que levou à crise.
A alternativa mais difícil é voltar a competir por alfa verdadeiro.
Isso significa especialização, disciplina de risco, capacidade de adaptação e, principalmente, saber onde a gestora possui vantagem.
Talvez a resposta esteja justamente em fazer menos coisas — e fazê-las melhor.
Em vez de um fundo operar praticamente tudo, pode fazer sentido concentrar a estratégia em mercados nos quais a equipe realmente possui histórico e conhecimento.
Ser especialista pode voltar a valer mais do que parecer sofisticado.
O que o investidor deve observar daqui para frente
A mudança das taxas cria uma oportunidade importante para reavaliar os multimercados.
Mas o investidor deveria evitar a armadilha de escolher fundos apenas pela nova estrutura de cobrança.
O que merece atenção é:
1. Retorno líquido: quanto efetivamente ficou com o cotista.
2. Alfa: quanto o fundo conseguiu produzir acima do benchmark.
3. Risco: qual volatilidade e qual drawdown foram necessários.
4. Consistência: se o resultado dependeu de um único período favorável.
5. Estratégia: o gestor sabe exatamente onde possui vantagem?
6. Custos: quanto é pago em administração, performance e demais despesas?
7. Capacidade: o tamanho do patrimônio está prejudicando a estratégia?
8. Correlação: o fundo realmente diversifica a carteira ou apenas replica riscos que o investidor já possui?
A conclusão que fica para o investidor
A crise dos multimercados não começou por causa do “2 com 20”.
O modelo apenas ficou mais difícil de defender quando a performance deixou de justificar o preço.
A mudança promovida pela XP e a redução de taxa da Kinea são sinais de que a indústria percebeu essa transformação.
Mas seria um erro concluir que o problema está resolvido.
Reduzir a taxa de administração não cria alfa.
Aumentar a taxa de performance não cria alfa.
Mudar o nome do fundo não cria alfa.
O que cria valor é a capacidade de entregar retorno líquido superior ao benchmark em relação ao risco assumido — e fazer isso de maneira consistente.
É por isso que o verdadeiro movimento por trás da mudança do “2 com 20” talvez seja maior do que parece.
O investidor está deixando de pagar simplesmente pelo acesso a uma gestora famosa e começando a exigir que a gestão prove, em números, por que merece ser remunerada.
Essa é uma mudança estrutural.
E, se ela continuar, o próximo capítulo da indústria de multimercados não será necessariamente uma guerra de taxas.
Será uma guerra por alfa, eficiência e diferenciação.
O que ninguém deveria esquecer
Um fundo não fica barato porque cobra menos na taxa de administração. Ele fica barato quando o valor que entrega ao cotista justifica — e supera — o custo e o risco assumidos.
É essa conta, e não o número estampado na lâmina, que determinará quais multimercados continuarão existindo na carteira dos investidores.
Esta reportagem tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não garante resultados futuros. Investimentos indicam risco patrimonial, aprenda sobre investimentos em nosso Portal e faça suas próprias escolhas para proteger seu dinheiro.








