Grupo dos irmãos Joesley e Wesley Batista arrenda terminal de GNL da NFE em Santa Catarina e ganha uma nova porta de entrada para o mercado de gás; operação ocorre enquanto a J&F amplia sua presença em energia e volta a ocupar espaço relevante em Brasília
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou, sem restrições, o arrendamento do Terminal Gás Sul (TGS), em São Francisco do Sul (SC), pela J&F, grupo controlado pelos irmãos Batista. O fato ocorre após a ANP na gestão Lula mudar uma regra, leia no link abaixo.
O negócio merece atenção por um motivo que vai muito além do contrato de arrendamento: a J&F passa a ter acesso estratégico a uma infraestrutura de entrada de gás natural liquefeito (GNL) conectada à malha nacional de transporte, justamente enquanto o grupo amplia sua presença em geração de energia, comercialização de gás e outros ativos considerados estratégicos.
O terminal pertence à norte-americana New Fortress Energy (NFE). Portanto, a J&F não comprou o ativo. O que o grupo obtém é o direito de arrendá-lo, enquanto a NFE transforma a infraestrutura em uma fonte de receita contratada.
O Cade concluiu que a operação não exigia restrições concorrenciais.
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O ativo que a J&F está levando para dentro de sua estratégia
O TGS está localizado na Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul, e foi estruturado para receber uma embarcação do tipo FSRU — unidade flutuante capaz de receber, armazenar e regaseificar GNL.
A infraestrutura inclui aproximadamente 32,6 quilômetros de dutos e uma estação de transferência de custódia e condicionamento em Garuva, conectada ao Gasoduto Bolívia-Brasil, o Gasbol.
Isso significa que o terminal funciona como uma porta de entrada para gás importado que pode ser colocado na malha brasileira.
E essa é a parte economicamente mais relevante da operação.
A J&F já possui negócios de comercialização de gás por meio da MGAS e atua em geração de energia por meio da Âmbar. Em 2026, o grupo decidiu concentrar seus negócios de energia elétrica e gás dentro da Âmbar, reforçando a integração dessa plataforma.
O TGS acrescenta justamente uma infraestrutura que estava faltando nessa equação:
importação de GNL → regaseificação → conexão com a malha de transporte → comercialização de gás → geração de energia.
Não significa que a J&F passe a controlar toda essa cadeia. Mas aumenta sua presença em uma etapa particularmente estratégica.
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O movimento acontece enquanto a J&F aumenta sua presença em energia
O arrendamento do TGS não deve ser analisado isoladamente.
A J&F vem ampliando sua exposição ao setor energético e consolidando a Âmbar como uma plataforma de energia e gás.
A empresa já atua na comercialização do combustível e possui negócios de geração. O grupo também avançou recentemente em outros ativos considerados estratégicos.
Em agosto de 2026, por exemplo, os irmãos Batista fecharam a compra da controladora da Avibras Aeroco, operação que ainda depende da análise do Cade. O negócio amplia a presença da família Batista também no setor de defesa e aeroespacial.
No setor elétrico, a Âmbar também esteve no centro de decisões relevantes do governo federal envolvendo contratação de energia.
Isso cria um cenário que merece acompanhamento:
a J&F está deixando de ser apenas um grande grupo de proteína animal e commodities para ocupar posições em segmentos nos quais infraestrutura, regulação e decisões governamentais têm peso elevado.
O gás natural é um deles.
A conexão com Lula e Brasília não pode ser ignorada
A história recente dos irmãos Batista com o poder político brasileiro é conhecida e documentada.
Joesley e Wesley Batista tiveram uma relação especialmente próxima com governos petistas antes da crise política e judicial que atingiu a J&F e seus controladores. Depois de anos afastados dos círculos políticos, os irmãos voltaram a se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2024. A reaproximação foi acompanhada por uma retomada da presença da J&F em negócios estratégicos.
Esse contexto é relevante para entender a dimensão política e econômica dos movimentos atuais.
Mas existe uma diferença fundamental entre proximidade política e prova de favorecimento em uma decisão específica.
No caso do TGS, não há base para afirmar que o Cade aprovou o arrendamento por determinação política de Lula.
A questão mais importante, portanto, não é afirmar uma interferência que não foi comprovada. É acompanhar se a expansão da J&F em setores regulados continuará sendo acompanhada de decisões economicamente favoráveis ao grupo, como vem ocorrendo.
É aí que está a informação de valor para o leitor.
Quem ganha com o arrendamento?
J&F ganha uma posição estratégica
Para a J&F, o principal ganho não é simplesmente “ter um terminal”.
É possuir uma alternativa adicional de suprimento.
A empresa já compra e comercializa gás de diferentes origens. Com o TGS, passa a ter acesso a uma infraestrutura capaz de receber GNL e colocá-lo na rede conectada ao sistema nacional.
Isso pode aumentar sua flexibilidade comercial e operacional.
Também pode ser relevante para o abastecimento das termelétricas do grupo.
NFE ganha receita sem vender o ativo
A NFE também tem uma vantagem clara.
A companhia continua proprietária do terminal, mas monetiza sua infraestrutura por meio do arrendamento.
Informações divulgadas sobre o negócio apontam expectativa de aproximadamente US$ 50 milhões de EBITDA anual para a NFE até 2027.
Ou seja:
a J&F ganha acesso estratégico; a NFE transforma um ativo de infraestrutura em fluxo de caixa contratado.
É uma estrutura empresarial bastante diferente de uma aquisição tradicional.
Quem pode perder?
Aqui está a parte que normalmente desaparece nas matérias corporativas.
O consumidor não recebe automaticamente gás mais barato porque um novo operador passou a arrendar um terminal.
Para que o negócio gere benefício econômico ao mercado, será necessário observar:
- custo do GNL importado;
- custo de regaseificação;
- capacidade efetivamente utilizada;
- custo de transporte;
- contratos de fornecimento;
- preço final da molécula;
- competição entre fornecedores;
- utilização pelas termelétricas;
- eventual repasse dos custos para a eletricidade.
Portanto, mais infraestrutura não significa automaticamente energia mais barata.
Pode significar maior segurança de abastecimento e diversificação de fornecedores.
Mas também pode significar novos custos se o gás importado chegar ao mercado em condições menos competitivas.
A conta precisa ser acompanhada até o consumidor final.
O ponto que torna o terminal ainda mais estratégico
Existe outro detalhe que o mercado deveria observar.
A TBG, responsável pelo Gasbol, apresentou projeto para ampliar a capacidade de transporte de gás, com investimento estimado em US$ 286 milhões, incluindo uma conexão relacionada ao Terminal Gás Sul.
O projeto está associado à necessidade de ampliar a infraestrutura para atender novas demandas termelétricas contratadas no leilão de reserva de capacidade realizado em março de 2026.
Isso muda a dimensão da operação.
O terminal não está isolado.
Existe uma infraestrutura de transporte conectada a ele e, ao mesmo tempo, existe uma expansão planejada da capacidade do sistema.
O ativo que a J&F está arrendando pode, portanto, tornar-se ainda mais relevante à medida que a demanda por gás para geração elétrica aumentar.
Mas existe um limite importante: o terminal não é uma “torneira exclusiva” da J&F
O despacho do Cade deixa claro que o TGS não explora ou produz gás natural, não possui gasodutos de transporte e não contrata diretamente capacidade de transporte.
Isso é importante porque impede uma interpretação exagerada de que a J&F teria passado a controlar toda a rota de abastecimento.
Além disso, a regulação brasileira prevê regras de acesso às infraestruturas essenciais do mercado de gás.
Portanto, o valor estratégico do terminal não significa necessariamente exclusividade absoluta sobre a infraestrutura.
O verdadeiro poder econômico estará na combinação entre capacidade disponível, contratos, preço do GNL, transporte e demanda.
O que muda para o mercado de gás
O Brasil possui diferentes fontes de suprimento: produção doméstica, gás boliviano, gás argentino e GNL importado.
O TGS acrescenta capacidade de entrada de GNL no Sul.
Essa diversificação pode ser importante em momentos de redução da oferta de gás de determinadas origens.
Em 2026, por exemplo, a redução do gás boliviano levou a ANP a solicitar a retomada da operação do TGS para ajudar a compensar a queda nas importações.
Isso mostra por que a infraestrutura ganhou valor.
O terminal não é apenas um ativo imobiliário ou portuário. É uma porta de entrada para uma commodity essencial para a indústria e para o sistema elétrico.
A pergunta que fica para o consumidor
O mercado provavelmente vai olhar para a operação pelo lado corporativo:
J&F arrenda, NFE recebe receita e o Cade aprova.
Mas o consumidor deveria olhar para outra pergunta:
quanto vai custar o gás que entrar por essa infraestrutura e quem ficará com essa conta?
Se o terminal aumentar a competição e permitir a entrada de gás em condições competitivas, o efeito pode ser positivo.
Se a molécula importada chegar mais cara e seus custos forem incorporados à geração térmica ou à cadeia industrial, o efeito pode ser exatamente o contrário.
Por isso, o anúncio do arrendamento é apenas o começo da história.
A informação realmente importante aparecerá nos contratos, nos volumes movimentados, nos preços e na utilização efetiva da infraestrutura.
A leitura que o mercado não deveria perder
O Cade aprovou uma operação específica.
Mas, por trás dela, existe um movimento empresarial maior.
A J&F está ampliando sua presença em setores nos quais energia, infraestrutura, contratos de longo prazo e decisões regulatórias têm enorme peso econômico.
O Terminal Gás Sul adiciona uma peça importante a essa estratégia.
A NFE permanece dona do ativo e monetiza sua infraestrutura. A J&F ganha uma posição estratégica na entrada de GNL no Sul. O sistema elétrico ganha potencialmente mais uma fonte de suprimento.
E o consumidor fica com a pergunta que ainda não tem resposta:
a nova infraestrutura aumentará a competição e reduzirá custos ou apenas fortalecerá a posição de grandes grupos na cadeia de energia?
Essa resposta não está no despacho do Cade.
Ela aparecerá no preço do gás, no custo da geração e nos contratos que serão firmados a partir daqui.



