A liquidação extrajudicial da Seguradora Infinite pela Superintendência de Seguros Privados acendeu um alerta raro sobre seguro garantia — e potencialmente mais relevante do que parece à primeira vista — dentro de um dos segmentos que mais cresceram silenciosamente no sistema financeiro brasileiro: o seguro garantia.
A decisão, oficializada em portaria publicada no Diário Oficial da União nesta terça-feira (19), ocorreu após a Susep identificar “grave deterioração” na situação econômico-financeira da companhia, além de insuficiência patrimonial e falhas na estrutura de gestão de riscos da seguradora.
Embora a autarquia tenha afirmado que não há risco sistêmico para o setor, o episódio expõe uma fragilidade pouco discutida fora do mercado especializado: o avanço acelerado do seguro garantia nos últimos anos aumentou a relevância dessas seguradoras na economia real — mas também ampliou os riscos ligados à solvência, fiscalização e capacidade efetiva de cobertura.
O que é seguro garantia — e por que ele cresceu tanto
O seguro garantia funciona como uma proteção contratual e judicial.
Na prática, a seguradora assume o risco de indenizar o beneficiário caso uma obrigação não seja cumprida pelo tomador da apólice.
Esse modelo passou a ganhar espaço rapidamente no Brasil porque oferece uma alternativa menos onerosa que modalidades tradicionais de garantia, especialmente:
- fiança bancária;
- depósitos judiciais;
- garantias corporativas convencionais.
O avanço dos juros elevados nos últimos anos tornou esse movimento ainda mais intenso.
Com crédito caro e bancos mais seletivos, empresas passaram a buscar mecanismos alternativos para preservar caixa e reduzir custo financeiro. O seguro garantia virou uma peça importante em:
- obras de infraestrutura;
- contratos públicos;
- concessões;
- disputas judiciais;
- operações empresariais de grande porte.
Em muitos casos, substituir uma fiança bancária por seguro garantia reduz significativamente o custo da operação.
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O problema raramente percebido fora do mercado
O crescimento do setor trouxe uma consequência menos visível: parte das seguradoras passou a disputar mercado oferecendo condições agressivas, assumindo riscos complexos e operando em segmentos altamente concentrados.
É justamente aí que o caso Infinite ganha relevância.
Segundo a Susep, a companhia apresentava:
- insuficiência de patrimônio;
- inconsistências contábeis relevantes;
- falhas na gestão de riscos;
- incapacidade de suportar os compromissos assumidos.
No seguro garantia, esse tipo de deterioração é particularmente sensível porque o produto depende diretamente da confiança na capacidade futura de pagamento da seguradora.
Diferentemente de um seguro tradicional de baixa severidade, o seguro garantia pode envolver valores expressivos vinculados a:
- obras;
- contratos corporativos;
- disputas judiciais;
- projetos públicos.
Ou seja: quando uma seguradora perde capacidade financeira, o problema pode rapidamente sair do setor financeiro e atingir contratos reais da economia.

O ambiente econômico também pressiona o setor
Embora a Susep atribua a liquidação da Infinite a problemas patrimoniais, inconsistências contábeis e falhas de gestão de risco, o episódio ocorre em um ambiente econômico que se tornou mais desafiador para empresas expostas ao mercado de garantias e cobertura de risco.
O avanço da inadimplência corporativa, o aumento das recuperações judiciais e o custo elevado do crédito ampliaram a pressão sobre segmentos ligados a garantias financeiras, especialmente em operações mais complexas e de maior risco.
Nos últimos anos, o seguro garantia ganhou espaço justamente por oferecer uma alternativa mais barata à fiança bancária tradicional. Porém, em um ambiente de juros elevados e deterioração financeira de empresas, o risco de execução dessas garantias também cresce.
Na prática, isso exige:
- mais capital;
- provisões maiores;
- controle atuarial mais rigoroso;
- gestão de risco mais sofisticada.
O cenário ajudou a tornar o segmento mais desafiador até mesmo para grandes empresas de tecnologia e serviços financeiros.
A QuintoAndar, por exemplo, decidiu encerrar sua operação ligada ao seguro fiança locatícia após dificuldades de rentabilidade e aumento da inadimplência no mercado imobiliário.
Embora os modelos de negócio sejam diferentes, os episódios mostram como o ambiente econômico atual vem aumentando a pressão sobre empresas expostas ao mercado de garantias, seguros e cobertura de risco.
O que muda agora para empresas e processos judiciais
A partir da liquidação, as garantias emitidas pela Infinite deixam de ser consideradas válidas.
Na prática, empresas, contratantes e até o Poder Judiciário precisarão substituir essas apólices por garantias emitidas por seguradoras com capacidade financeira reconhecida.
Isso pode gerar:
- aumento imediato de custos;
- renegociação contratual;
- atrasos operacionais;
- revisão de exigências de garantia;
- dificuldades para empresas mais alavancadas.
Em processos judiciais, o impacto também pode ser relevante.
Empresas que utilizavam seguro garantia para substituir depósitos judiciais poderão precisar apresentar novas garantias em prazo curto, aumentando pressão financeira e operacional.
O caso também levanta dúvidas regulatórias
A Susep afirma que o mercado segurador brasileiro permanece sólido, capitalizado e plenamente capaz de absorver a substituição das garantias vinculadas à companhia liquidada.
De fato, o setor segurador brasileiro possui regras robustas de:
- solvência;
- provisões técnicas;
- capital regulatório;
- fiscalização prudencial.
Ainda assim, o episódio inevitavelmente levanta questionamentos sobre:
- a velocidade da deterioração financeira da companhia;
- a efetividade da supervisão preventiva;
- a qualidade das demonstrações contábeis apresentadas ao mercado;
- o nível de concentração de risco em seguradoras menores.
A própria Susep reconheceu que vinha monitorando a Infinite há meses e que identificou “inconsistências relevantes” nas informações contábeis da empresa.
Segundo a autarquia, medidas preventivas, corretivas e sancionatórias chegaram a ser adotadas antes da liquidação, mas não foram suficientes para reverter o quadro.
Por que o mercado deve prestar atenção nesse episódio
Liquidações extrajudiciais de seguradoras são raras no Brasil.
A última intervenção semelhante havia ocorrido em 2016, com a liquidação da Nobre Seguradora.
Isso ajuda a explicar por que o caso Infinite ganhou repercussão imediata entre empresas, escritórios jurídicos, investidores e participantes do mercado financeiro.
O episódio pode provocar efeitos secundários importantes:
- aumento da seletividade no setor;
- endurecimento regulatório;
- exigências maiores de capital;
- revisão de critérios de aceitação de risco;
- concentração ainda maior nas grandes seguradoras.
Na prática, eventos desse tipo costumam favorecer grupos mais capitalizados e dificultar a atuação de players menores em segmentos sofisticados como seguro garantia.
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Quem ganha e quem perde com a liquidação da Infinite
Quem pode ganhar
Grandes seguradoras
Companhias mais capitalizadas tendem a absorver parte da demanda por substituição de garantias emitidas pela Infinite.
O episódio também pode acelerar a concentração do setor, favorecendo grupos com maior capacidade financeira, estrutura atuarial robusta e melhor percepção de solvência junto ao mercado.
Bancos e emissores de fiança bancária
O aumento da percepção de risco no seguro garantia pode levar algumas empresas a retornarem parcialmente para modalidades tradicionais de garantia, como fiança bancária.
Isso pode beneficiar bancos em operações corporativas e garantias judiciais, especialmente em contratos de maior porte.
Empresas com balanços mais sólidos
Companhias consideradas financeiramente mais robustas tendem a enfrentar menos dificuldade para substituir garantias e renegociar contratos.
Já empresas mais alavancadas podem sofrer aumento de custo e restrição operacional.
Quem pode perder
Empresas dependentes das garantias da Infinite
Contratos poderão exigir substituição urgente das apólices, elevando custos e aumentando pressão financeira em um ambiente de crédito já restritivo.
Seguradoras menores e mais agressivas
O caso pode provocar endurecimento regulatório e aumento da seletividade do mercado, dificultando a atuação de players menores em segmentos sofisticados de garantia e cobertura de risco.
Empresas mais endividadas
Em um ambiente de juros elevados, qualquer aumento no custo de garantias financeiras pode pressionar ainda mais companhias com alto nível de alavancagem ou baixa liquidez.

O próprio mercado de seguro garantia
Embora a Susep descarte risco sistêmico, episódios como esse tendem a elevar desconfiança, aumentar exigências de capital e reduzir apetite por operações consideradas mais arriscadas.
O ponto estrutural que o caso Infinite expõe
O caso mostra como produtos financeiros aparentemente “simples” escondem uma engrenagem complexa de:
- capital;
- solvência;
- gestão atuarial;
- controle de risco;
- fiscalização regulatória.
Durante períodos de expansão econômica e forte crescimento de mercado, essas fragilidades costumam passar despercebidas.
O problema aparece quando:
- riscos começam a maturar;
- inadimplência aumenta;
- contratos entram em disputa;
- pressão financeira cresce;
- a capacidade de cobertura é colocada à prova.
É justamente por isso que episódios como o da Infinite tendem a chamar atenção muito além do mercado segurador.
Eles funcionam como um termômetro sobre qualidade de risco, supervisão e sustentabilidade financeira em setores que ganharam relevância rapidamente nos últimos anos.








