Lula quer interferir no BC após quase 20 anos de PT no Planalto: o que foi feito com o fiscal que já estava sob seu comando?

Em entrevista ao Jornal da Record, na terça-feira (15), presidente disse que autonomia do Banco Central não resolveu os problemas econômicos e defendeu que o chefe do Executivo volte a ter poder de interferência; na mesma conversa, afirmou que continuará tendo responsabilidade fiscal, enquanto dados oficiais mostram dívida elevada, juros acima de R$ 1 trilhão e necessidade de consolidação das contas públicas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu maior poder de interferência do presidente da República na economia durante entrevista ao vivo concedida ao Jornal da Record na noite de terça-feira (15). A entrevista fez parte da série da RECORD com os candidatos à Presidência nas eleições de 2026 e foi conduzida pelos jornalistas Mariana Godoy e Eduardo Ribeiro. A emissora havia anunciado que Lula seria o primeiro entrevistado da rodada, em 15 de setembro, às 19h45.

Durante a entrevista, Lula criticou a autonomia do Banco Central e afirmou:

“Alguém achava que o Banco Central independente resolvia os problemas do mundo, não resolve. O que resolve é o presidente da República eleito ter o poder de interferir na economia, coisa que nós não temos mais.”

A declaração foi dada em meio à discussão sobre juros, inflação e condução da política econômica, às vésperas de uma nova decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa Selic. A fala foi registrada pela Agência Estado na noite de 15 de setembro e reproduzida por diferentes veículos.

O ponto que os números oficiais acrescentam à declaração é outro: o governo já possui o comando direto sobre a política fiscal — orçamento, despesas, receitas e resultado primário — enquanto os próprios órgãos econômicos oficiais apontam uma trajetória fiscal desafiadora e uma dívida que continua elevada.

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Na mesma entrevista em que defendeu maior poder de intervenção sobre a economia, Lula também afirmou que não deveria ser questionado pelos resultados fiscais de seus primeiros mandatos e declarou:

“Eu fiz isso e vou continuar tendo responsabilidade fiscal, porque tomar conta do dinheiro da nossa casa e do nosso País é da nossa responsabilidade. Se a gente deixar as contas desequilibradas, quem perde é o povo pobre.”

É justamente essa combinação de declarações que coloca a questão fiscal no centro da discussão.

Se o presidente Lula reivindica mais poder para interferir na política econômica, os números permitem perguntar primeiro o que está sendo entregue na área que permanece diretamente sob comando do Executivo.

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Lula quer mais poder sobre a economia

A crítica do presidente é dirigida à autonomia formal do Banco Central, estabelecida pela Lei Complementar nº 179/2021.

Para Lula, o presidente eleito deveria recuperar capacidade de intervenção sobre a economia porque, segundo ele, a autonomia do BC reduziu o poder do Executivo.

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A declaração não ficou restrita aos juros.

Na entrevista, Lula também apresentou como objetivos para um eventual quarto mandato:

  • reduzir a inflação;
  • manter o crescimento econômico;
  • gerar empregos de qualidade;
  • ampliar a redistribuição de renda;
  • aumentar o salário mínimo acima da inflação.

“É preciso fazer a economia continuar crescendo, continuar fazendo redistribuição de renda, continuar a aumentar o salário mínimo acima da inflação, gerar mais empregos de qualidade e fazer com que a inflação baixe para as pessoas pagarem”, afirmou.

A questão é que essas metas não dependem exclusivamente do Banco Central.

E, principalmente, parte relevante da equação econômica continua sob responsabilidade do próprio governo.

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O governo não perdeu o comando da política fiscal

A autonomia do Banco Central não significa que o presidente da República tenha perdido o controle sobre toda a política econômica.

A separação é mais específica.

O BC conduz a política monetária e utiliza a taxa Selic como principal instrumento para buscar a estabilidade de preços dentro do regime de metas.

O governo federal continua responsável pela política fiscal, pelo orçamento, pelas despesas públicas, pelas receitas e pela condução das políticas econômicas do Executivo.

É justamente por isso que a situação fiscal precisa entrar na mesma conversa quando o presidente defende mais poder sobre a política monetária.

O Executivo não determina diretamente a Selic, mas possui instrumentos decisivos para influenciar a trajetória das contas públicas.

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E o fiscal que já está sob comando do governo?

Os números oficiais mostram por que essa questão não pode ser deixada de lado.

Em 2025, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 55 bilhões, equivalente a 0,43% do PIB.

No Governo Central, o déficit primário chegou a R$ 58,7 bilhões, ou 0,46% do PIB.

Mas o resultado que incorpora também os juros foi muito maior.

O déficit nominal do setor público chegou a R$ 1,0626 trilhão em 2025, equivalente a 8,34% do PIB.

Os juros nominais somaram R$ 1,0076 trilhão, ou 7,91% do PIB.

Esses números são fundamentais para separar as responsabilidades.

O governo não controla diretamente a taxa Selic. Mas controla a política fiscal.

E a situação fiscal é justamente uma das variáveis que determinam a dinâmica da dívida pública.

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Julho teve superávit, mas a dívida continua sendo o problema

Há um dado positivo mais recente que precisa ser apresentado para que a análise seja completa.

Em julho de 2026, o Governo Central registrou superávit primário de R$ 10,8 bilhões, ante déficit de R$ 59,1 bilhões em julho de 2025.

Na comparação anual, a receita líquida aumentou R$ 16,1 bilhões em termos reais, enquanto a despesa total caiu R$ 56,4 bilhões.

O número mostra melhora no resultado mensal.

Mas um superávit de um mês não equivale à estabilização da dívida pública.

O próprio Tesouro Nacional classifica o cenário fiscal para os próximos anos como desafiador e aponta a necessidade de consolidação fiscal para estabilizar a trajetória do endividamento.

É a diferença entre olhar o caixa de um mês e olhar a trajetória estrutural das contas públicas.

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Antes de pedir mais poder sobre o BC, há uma questão de tempo

A discussão ganha outra dimensão quando se coloca a declaração de Lula dentro da própria trajetória política do presidente.

Lula assumiu a Presidência pela primeira vez em 1º de janeiro de 2003 e permaneceu no cargo por dois mandatos consecutivos, até 2010. Voltou ao Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2023 e está no último ano de seu terceiro mandato presidencial. Os períodos oficiais de governo são registrados pela própria Presidência da República.

Somados, são 12 anos de Lula na Presidência ao longo de três mandatos.

Além disso, entre 2003 e 2016, o PT permaneceu no comando do governo federal por quatro mandatos consecutivos: os dois primeiros de Lula e os dois de Dilma Rousseff. A relação histórica de presidentes registra Lula de 2003 a 2011 e Dilma, também pelo PT, de 2011 a 2016.

É nesse contexto que Lula agora afirma que, em um eventual novo mandato, pretende atuar para fazer a economia continuar crescendo, reduzir a inflação, gerar empregos, aumentar o salário mínimo acima da inflação e promover redistribuição de renda.

A pergunta que os números permitem fazer não é se essas metas são legítimas.

É outra:

depois de três mandatos presidenciais de Lula e de quatro mandatos consecutivos do PT no comando do país, o que ainda precisaria mudar na política econômica para que o resultado fiscal se torne sustentável?

Essa pergunta ganha peso porque não se trata de uma área que tenha ficado completamente fora do alcance do Executivo.

O presidente não controla diretamente a taxa Selic, mas o governo federal controla instrumentos centrais da política fiscal: orçamento, despesas, receitas, resultado primário e políticas públicas.

E os próprios órgãos econômicos oficiais continuam apontando desafios relevantes nessa área.

O Tesouro Nacional classificou o cenário fiscal para os próximos anos como desafiador e apontou a necessidade de consolidação das contas públicas para estabilizar a dívida. O Banco Central, por sua vez, registra uma dívida bruta elevada e expectativas de mercado de continuidade da alta do endividamento.

É nesse ponto que a promessa de um eventual quarto mandato encontra os números do terceiro.

A questão para o eleitor não é apenas o que Lula diz que pretende fazer nos próximos quatro anos, mas também o que os números mostram sobre os 12 anos em que já teve a oportunidade de conduzir a política econômica do país.

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A dívida bruta já passou de R$ 10 trilhões

Os dados do Banco Central mostram a dimensão do problema.

Em maio de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a R$ 10,6 trilhões, equivalente a 81,1% do PIB.

No acumulado do ano até maio, a dívida havia aumentado 2,4 pontos percentuais do PIB, em apenas 5 meses.

A alta registrada naquele mês foi influenciada principalmente pelos juros nominais e pelas emissões líquidas de dívida que o governo Lula está fazendo.

Não se trata, portanto, de uma avaliação política sobre o governo.

É a fotografia das contas públicas divulgada pelo próprio Banco Central.

O mercado projeta dívida ainda maior

O dado mais relevante para o debate sobre o futuro está nas expectativas compiladas pelo próprio Banco Central.

Segundo a mediana das projeções do Focus utilizada no Relatório de Política Monetária de junho, a DBGG seria de:

AnoDívida bruta projetada
202683,3% do PIB
203093,9% do PIB
203599,8% do PIB

O próprio relatório destaca que, nesse cenário de expectativas de mercado, não há estabilização da dívida no horizonte projetado.

Esse ponto precisa ser explicado corretamente.

Os números não são uma previsão oficial do Banco Central.

São a mediana das expectativas de mercado compiladas pelo BC.

Mas são relevantes porque mostram como os agentes econômicos consultados pelo próprio sistema de expectativas enxergam a trajetória do endividamento.

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O custo dos juros já ultrapassa R$ 1 trilhão

A conta dos juros torna ainda mais difícil separar a discussão fiscal da monetária.

Em 12 meses até maio de 2026, os juros nominais do setor público somaram R$ 1,111 trilhão, equivalentes a 8,48% do PIB.

No período anterior de 12 meses, eram R$ 946,1 bilhões, ou 7,74% do PIB.

Isso representa um aumento de aproximadamente R$ 165 bilhões no custo acumulado dos juros.

No mesmo intervalo, o déficit nominal acumulado chegou a R$ 1,260 trilhão, equivalente a 9,62% do PIB.

Aqui aparece uma das questões centrais da discussão proposta por Lula:

juros elevados pressionam a dívida, mas a política fiscal também é determinante para a percepção de sustentabilidade da própria dívida.

Não existe uma equação em que apenas o Banco Central tenha responsabilidade pelo ambiente de juros.

O próprio Tesouro Nacional da gestão Lula reconhece o desafio fiscal

O argumento ganha ainda mais autoridade quando a fonte não é um analista de mercado, mas o próprio governo.

Em seu Relatório de Projeções Fiscais, o Tesouro Nacional classificou o cenário para os próximos anos como desafiador para a condução da política fiscal.

O documento aponta elevação da dívida no curto prazo e indica a necessidade de continuidade do esforço de consolidação fiscal para que o endividamento possa ser estabilizado.

Ou seja, não é uma interpretação criada para esta reportagem.

O próprio órgão responsável pelo acompanhamento das contas públicas reconhece a dificuldade.

E é nesse cenário que Lula quer discutir o BC

É aqui que as duas partes da declaração presidencial se encontram.

Lula afirma que o presidente eleito deveria recuperar o poder de interferir na economia.

Ao mesmo tempo, afirma que continuará tendo responsabilidade fiscal.

Mas os números mostram que o problema fiscal permanece relevante:

R$ 10,6 trilhões de dívida bruta;

81,1% do PIB de DBGG em maio;

R$ 1,111 trilhão em juros nominais acumulados em 12 meses;

R$ 1,260 trilhão de déficit nominal no mesmo período;

e expectativas de mercado de dívida bruta chegando a 99,8% do PIB em 2035.

A questão, portanto, não é simplesmente se o presidente pode defender mudanças na autonomia do Banco Central.

Ele pode defender politicamente essa mudança.

A questão econômica é outra: qual problema seria resolvido com maior interferência sobre o BC se os próprios dados oficiais mostram que a política fiscal de Lula continua sendo um dos grandes desafios do país?

O BC não controla o orçamento da União

É importante separar responsabilidades.

O Banco Central não define sozinho:

  • o tamanho das despesas públicas;
  • o orçamento federal;
  • a política tributária;
  • os programas de governo;
  • os investimentos públicos;
  • o resultado primário;
  • a trajetória estrutural da dívida.

Essas decisões passam pelo Executivo e pelo Congresso.

O BC atua principalmente sobre a política monetária.

Sua missão não é equilibrar o orçamento federal.

Por isso, dizer que a autonomia do BC não resolveu todos os problemas econômicos do país é, isoladamente, uma afirmação que não corresponde à finalidade para a qual a autonomia foi criada.

O Banco Central nunca recebeu a missão de resolver sozinho o fiscal, o crescimento, o emprego e a produtividade do Brasil.

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A inflação também não está fora da equação

Na mesma entrevista, Lula afirmou que pretende reduzir a inflação.

Mas a inflação é justamente uma das razões pelas quais o BC mantém uma política monetária restritiva.

Em junho, o Copom trabalhava com expectativas de inflação para 2026 e 2027 acima da meta e projetava 3,7% para o horizonte relevante, enquanto a meta é de 3%.

Naquele momento, a Selic estava em 14,25% ao ano.

O ambiente monetário restritivo, portanto, não surgiu simplesmente de uma decisão isolada do BC.

É uma resposta a uma combinação de inflação, expectativas, atividade econômica, cenário externo e condições financeiras.

VEJA ABAIXO O HISTÓRICO DOS JUROS NO BRASIL:

juros
Selic ao longo do tempo: Fonte Banco Central

O que os números colocam em discussão

A declaração de Lula coloca em debate quem deve ter influência sobre a política monetária.

Os números oficiais colocam uma questão anterior:

o governo já possui os instrumentos para cuidar da política fiscal, e os próprios órgãos econômicos reconhecem que a consolidação das contas continua sendo um desafio pela condução de lula.

É possível discutir a autonomia do Banco Central.

É possível discutir a velocidade da queda dos juros.

É possível discutir os efeitos da Selic sobre empresas, famílias e dívida pública.

Mas uma coisa não elimina a outra.

Reduzir a taxa de juros não substitui o ajuste fiscal.

E aumentar a influência política sobre o Banco Central não resolve automaticamente uma trajetória de dívida crescente.

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O ponto que fica para o próximo governo

Lula apresentou na Record uma visão segundo a qual o presidente eleito deveria recuperar maior capacidade de intervenção sobre a economia.

Na mesma entrevista, afirmou que continuará tendo responsabilidade fiscal e que contas públicas desequilibradas prejudicam principalmente os mais pobres.

Porém, foi o governo Lula que desequilibrou o fiscal e as contas públicas.

Os números oficiais permitem medir essa promessa por outro ângulo.

O governo terá de entregar resultado fiscal suficiente para conter a trajetória da dívida, reduzir a pressão sobre o financiamento do Estado e criar condições para que a política monetária possa operar em um ambiente de inflação e expectativas mais favoráveis.

Enquanto isso não estiver resolvido, a discussão sobre dar ao presidente maior poder sobre o Banco Central permanece incompleta.

A pergunta que os dados deixam não é se Lula pode querer interferir no BC. É o que pretende fazer, com os instrumentos que já possui, para resolver o fiscal que não conseguiu fazer em 12 anos, antes de reivindicar mais poder sobre quem define os juros.

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Regiane Alves
Regiane Alveshttp://www.investidoresbrasil.com.br
Estrategista focada em proteger o investidor pessoa física dos conflitos de interesse dos grandes bancos e corretoras. Jornalista com formação em Ciências Contábeis e especialização em Mercado de Capitais. Especialista em Criptomoedas e Blockchain pela Universidade de Nicósia
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