UBS BB vê dólar a R$ 4,50 e juros longos caindo a 10% com provável vitória de Flávio Bolsonaro, abrindo caminho para ajuste fiscal

Banco projeta valorização do real nos próximos três a seis meses e queda dos juros longos até o fim de 2027, mas condiciona cenário à confirmação do resultado eleitoral e à execução de uma agenda fiscal

O resultado do primeiro turno das eleições brasileiras com a liderança de Flávio Bolsonaro provocou uma forte reprecificação dos ativos domésticos e levou o UBS BB a elevar o grau de confiança em um cenário de valorização do real, recuperação das ações e queda dos juros de longo prazo.

A instituição projeta que o dólar possa recuar para a faixa de R$ 4,50 a R$ 4,60 nos próximos três a seis meses, caso o segundo turno confirme o resultado da primeira votação e o ambiente favorável para os preços do petróleo permaneça.

A projeção não representa uma previsão automática para o câmbio. Ela está diretamente associada à possibilidade de o mercado passar a enxergar uma mudança na trajetória das contas públicas brasileiras.

O UBS BB avalia que o resultado de 4 de outubro aumentou significativamente a probabilidade de uma mudança nas expectativas e nos resultados fiscais. A percepção, por sua vez, pode antecipar movimentos nos preços dos ativos antes mesmo da definição do próximo governo.

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O mercado já começou a antecipar o cenário

A reação desta segunda-feira mostra que parte dessa reprecificação já ocorreu.

O dólar, que havia encerrado a sexta-feira a R$ 5,22, caiu para perto de R$ 5 após o primeiro turno. O movimento ocorreu simultaneamente a uma forte valorização da Bolsa, evidenciando que a reação não ficou restrita ao mercado de câmbio.

Para o UBS BB, investidores que estavam com exposição relativamente baixa a ações e títulos brasileiros antes da votação podem aumentar suas posições caso a percepção de mudança política e fiscal ganhe consistência.

Essa dinâmica é importante porque o mercado não precisa esperar a posse do próximo presidente para incorporar expectativas. Preços de ações, câmbio e juros começam a refletir antecipadamente aquilo que os investidores acreditam que poderá acontecer em 2027.

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Dólar: primeiro R$ 5, depois R$ 4,50

A projeção do banco ocorre em duas etapas.

No curto prazo, o UBS BB considera que o dólar pode se aproximar de R$ 5, movimento que já começou a aparecer após a votação.

Em um horizonte de três a seis meses, porém, a instituição trabalha com uma possibilidade mais agressiva: R$ 4,50 a R$ 4,60.

O banco já estava posicionado para um cenário de valorização dos ativos brasileiros, incluindo posições compradas em ações locais e no real. No câmbio, uma das estratégias mencionadas utiliza opções digitais de venda de dólar contra o real, com vencimento em nove meses e preço de exercício de R$ 4,50.

Isso ajuda a dimensionar a aposta: R$ 4,50 não aparece apenas como um número abstrato de projeção, mas como nível incorporado à estratégia de proteção e posicionamento da instituição.

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Por que o UBS BB acredita que o real pode ganhar força?

O ponto central da análise está no risco fiscal.

O modelo do banco considera fatores como diferencial de juros, risco-país, balança comercial e conta corrente para avaliar o valor do real. Antes do primeiro turno, a instituição estimava um valor justo próximo de R$ 5,10 por dólar, contra uma cotação à vista de aproximadamente R$ 5,22.

A conclusão é relevante: para o real se fortalecer além desse nível, seria necessário que o mercado passasse a enxergar uma probabilidade maior de estabilização da relação entre dívida pública e PIB.

Ou seja, a eleição pode ser o gatilho inicial, mas a melhora cambial sustentável dependerá da percepção de que haverá capacidade de executar uma política fiscal capaz de alterar a trajetória da dívida.

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Juros longos podem cair ainda mais

A mesma lógica aparece no mercado de renda fixa.

O UBS BB espera valorização dos títulos brasileiros ao longo da curva de juros, especialmente nos vencimentos mais longos.

Em um primeiro movimento, as taxas longas poderiam cair entre 1,50 e 2,00 pontos percentuais em relação aos níveis anteriores à eleição.

Em um cenário de efetiva consolidação fiscal, o banco projeta uma queda gradual para perto de 10% até o fim de 2027, ante 14,25% registrados na sexta-feira para os títulos de prazo mais longo considerados na análise.

Essa diferença tem impacto direto sobre o preço dos títulos prefixados e indexados à inflação já emitidos. Quando as taxas de mercado recuam, esses papéis tendem a se valorizar.

Para o investidor, portanto, a tese do UBS BB não se limita à bolsa ou ao dólar: ela envolve uma possível reprecificação de praticamente toda a curva de ativos brasileiros.

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O que precisa acontecer para a tese se confirmar?

É justamente aqui que está a parte mais importante da análise.

A projeção de R$ 4,50 no dólar depende de pelo menos três elementos:

  • confirmação do resultado eleitoral no segundo turno com vitória de Flávio Bolsonaro;
  • manutenção de condições favoráveis para os preços do petróleo;
  • credibilidade de uma mudança na trajetória fiscal brasileira com a mudança de governo.

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O primeiro fator será definido nas urnas em 25 de outubro. Os demais dependerão de acontecimentos econômicos e políticos que continuarão sendo avaliados pelo mercado.

O próprio UBS BB aponta riscos capazes de alterar a trajetória dos ativos, incluindo mudanças nas preferências do eleitorado, a formação da futura equipe econômica e o grau de ambição do programa de consolidação fiscal.

Também existe um segundo desafio: o Congresso. Mesmo com uma eventual mudança na Presidência, a execução de reformas relacionadas às despesas obrigatórias dependerá de capacidade de articulação política e aprovação legislativa.

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O que ninguém deve confundir

A queda do dólar para R$ 4,50 não é uma consequência mecânica de uma eventual vitória eleitoral.

O que o mercado está precificando é uma mudança na probabilidade de determinados resultados econômicos.

Se houver uma percepção consistente de melhora fiscal, menor risco-país e maior capacidade de estabilizar a dívida, o real pode ganhar espaço e os juros longos podem cair.

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Se, ao contrário, as expectativas fiscais forem frustradas, parte dessa reprecificação pode ser devolvida.

Esse ponto explica por que o mercado reagiu tão fortemente ao primeiro turno, mas também por que a trajetória dos ativos continuará extremamente sensível às próximas semanas.

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O cenário que o mercado começa a precificar

A leitura do UBS BB coloca o resultado eleitoral como um possível divisor de águas para os ativos brasileiros.

O primeiro turno não resolveu a eleição, mas alterou a percepção de risco e abriu espaço para que investidores antecipassem um cenário considerado mais favorável à disciplina fiscal.

Se o segundo turno confirmar o cenário atual e houver credibilidade em torno de uma estratégia de estabilização fiscal, o UBS BB vê espaço para o dólar chegar a R$ 4,50–R$ 4,60, enquanto os juros longos poderiam caminhar para perto de 10% até o fim de 2027.

A diferença entre uma forte reprecificação temporária e uma mudança estrutural nos preços dos ativos brasileiros estará, portanto, menos no resultado eleitoral isoladamente e mais na capacidade do próximo governo de transformar a expectativa de ajuste fiscal em medidas concretas.

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Apresentadora de podcast e redatora. Especialista em finanças pela PUC Minas
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